esquina

SEM MEDO DE SER FELIZ

O apostador que fez milhões com a vitória de Lula
Imagem Sem medo de ser feliz

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Lula venceu as eleições de 2022 com boa folga na cidade maranhense de Grajaú, a cerca de 550 km de São Luís, no Maranhão. No segundo turno, o petista teve mais de 65% dos votos válidos do município. Dos 24 421 grajauenses que apertaram o 13, nenhum terá ficado mais feliz que Artu Vieira de Oliveira Filho. Assim que se anunciou o resultado do pleito de 30 de outubro, Artuzinho do Grajaú, como é conhecido, foi apontado nas redes sociais como “o homem mais rico do Brasil”. Um exagero, sim, mas justificado.

A fama de Oliveira Filho ultrapassou os limites do município de 70 mil habitantes graças aos vídeos que ele compartilhou nos meses que antecederam a eleição. Risonho, o empresário de 45 anos aparecia nas redes sociais fazendo apostas sobre o resultado das urnas: ele cravava que Lula iria ganhar; seus amigos botavam fé no então presidente, Jair Bolsonaro. Em geral, não se apostava dinheiro, mas joias, carros, motos, cavalos e até propriedades rurais. Oliveira Filho estava confiante no desempenho de Lula, mas, se Bolsonaro se reelegesse, nem por isso o patrimônio do maranhense – resultado, segundo ele, da compra e venda de terras e gado – teria se dissipado.

Bolsonaro perdeu, e Oliveira Filho ficou mais rico do que era. Somadas, as apostas em Lula lhe renderam cerca de 2,1 milhões de reais. “Só não apostei mais porque não tinha mais com quem apostar”, gaba-se o vencedor.

Oliveira Filho já tinha o costume de fazer apostas com conhecidos nas vaquejadas da região. E foi justamente em uma vaquejada, em julho de 2022, que ele começou a botar dinheiro nas eleições. O desafio partiu de um amigo conhecido como Júnior Gaúcho, que estava convicto de que Bolsonaro teria um segundo mandato. Apostaram uma correntinha e uma pulseira, que valiam juntos cerca de 25 mil reais. O empresário gostou da brincadeira. No mesmo dia, fechou mais duas apostas presidenciais: dois cavalos, com valores de 40 e 80 mil. Até outubro, fechou mais dezesseis apostas. Três dias antes do primeiro turno, com as pesquisas apontando a possibilidade de vitória de Lula, o amigo Gustavo do Marabá botou 400 mil reais em espécie na reeleição de Bolsonaro. O resultado veio só no segundo turno, e Marabá teve que pagar.

A aposta mais alta foi feita no início de setembro, com Gildenberg de Sá, o Berguinho, empresário do ramo da mineração de gesso, que é uma das bases econômicas de Grajaú. Oliveira Filho colocou em jogo uma chácara de 23 hectares, avaliada em 800 mil reais. Sá apostou o valor equivalente em gesso – cerca de 11 mil toneladas. Como os valores eram vultosos, a aposta foi documentada e assinada em cartório. Nos demais casos, foi tudo na confiança. “Na nossa região, o povo é muito sério. Na palavra, já paga”, diz Oliveira Filho. E alguns contavam com uma garantia informal: o registro em vídeo, quase sempre publicado no TikTok e no Instagram, redes nas quais o empresário ficou conhecido como “o gordinho das apostas”. “Quem quiser apostar, vem pro Grajaú do Maranhão! Peita o gordinho, peita! Aqui é Lula”, diz ele em um dos vídeos.

Nascido e criado em Grajaú, Oliveira Filho se declara apaixonado pela cidade, onde vive com a mulher e os dois filhos mais jovens (os dois mais velhos cursam medicina no Paraguai). A família não se opôs ao cassino eleitoral do patriarca. “Eles confiam muito em mim”, diz. O apostador passou ao largo da polarização agressiva que dominou a política. Entusiasta de Lula, travou uma disputa amistosa com os bolsonaristas. “Não tenho medo de nada, entro no meio deles mesmo.”

O interesse de Oliveira Filho pela política vem de tempos em que o bolsonarismo ainda não despontara na arena pública. Em 2008, ele se candidatou pelo PT a prefeito de Grajaú. Amargou um terceiro lugar, com 4 706 votos. Voltou a pleitear o cargo três eleições depois, em 2020. Dessa vez, virou a casaca: foi candidato pelo Republicanos, engrossando a onda bolsonarista. Ficou de novo na terceira colocação, e com menos votos: 2 717.

A escolha do partido não era oportunismo eleitoral. Oliveira Filho já havia votado em Bolsonaro em 2018, atraído pelo discurso antipetista. Arrependeu-se: “Bolsonaro para nossa região não mandou nada. É um cara superignorante, foi injuriando a gente por aqui.” A condução do país durante a pandemia e as brigas de Bolsonaro com o então governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB), inflamaram ainda mais o descontentamento. Em 2022, Oliveira Filho fez o L. “Lula é um cara simples, humilde, todo mundo sabe que os oito anos com ele foram bons”, diz. Sua expectativa é de que o presidente incentive o agronegócio, para “quebrar a cara” da porção bolsonarista do setor.

Encerradas as eleições, Oliveira Filho tinha apostas para coletar e uma promessa a cumprir. Já na manhã do dia seguinte, 31 de outubro, em plena segunda-feira, foi o anfitrião de um grande churrasco para celebrar a vitória – com muita picanha. No verdadeiro espírito de conciliação nacional, convidou eleitores dos dois candidatos à Presidência. “São todos meus amigos”, disse em vídeo no Instagram, rede em que tem mais de 55 mil seguidores. Na hora das cobranças, nenhuma decepção: todos lhe deram o que haviam apostado. “Só me pediram para gravar que, se o Lula não subir a rampa, eu devolvo”, conta.

A febre da jogatina não passou. Na estreia do Brasil na Copa do Mundo, Oliveira Filho teve prejuízo: apostou que Neymar seria o autor do primeiro gol da Seleção. No 2 a 0 contra a Sérvia, os gols foram de Richarlison. Sorte que o valor era pequeno: 200 reais. No fatídico jogo contra a Croácia, que derrubou a Seleção nas quartas de final, decidiu não arriscar. Na próxima eleição municipal, em 2024, ele diz que não vai se candidatar. Tem outros planos: “A gente aposta novamente”.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.