cartas
Fev 2023 15h19
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CAPA DESTRUÍDA
Um troglodita residente no mesmo prédio que minha namorada teve a pachorra de destruir nossa piauí_196, janeiro, pelo simples fato dela apresentar uma imagem do presidente L*lys na capa.
Será que daqui pra frente será assim, e teremos que experienciar a realidade através da censura e em linguagem cifrada? Espero que os seguidores do EX-presidente B*lsonaro tratem logo de colocar a terapia em dia, para o bem de todes.
Um beijo molhado para a minha amada Luana, que não merecia nada disso!
TIAGO LAZZARI_LAJEADO/RS
NOTA LÚGUBRE DA REDAÇÃO: O curioso mesmo, Tiago, é que seu vizinho não se importou com a capa de Bolsonaro beijando a morte…
CRIMINOSOS
A festeira edição da piauí_196, janeiro, não tinha como prever os acontecimentos do 8 de janeiro, que, se não foram puro terrorismo, tiveram todos os ingredientes relatados na literatura especializada. Ou foi premonitório o brinde com a taça rachada na capa de Vito Quintans, tal qual os vidros dos palácios de Brasília? Crime por crime, na mesma edição foi interessante o relato daquele cometido por Sylvia Serafim por meio da franqueza das palavras de Sergio Schargel (Minha bisavó matou um cara), longe da aventura e humor contidos no filme de Jorge Furtado, protagonizado por Lázaro Ramos, que inspirou o título. Gostaria de ver um diálogo entre Schargel e Ruy Castro para saber se haveria alguma alteração na ênfase do episódio na biografia de Nelson Rodrigues. Ou outro relato completo, uma vez que faltam biografias de personagens brasileiros, limitadas a versões únicas, muitas impedidas legalmente de serem editadas. Lira Neto, que brilhantemente adentra essa seara de contar a vida dos outros, que o diga, ainda que tenha comparecido à edição com um ensaio comparando personagens mortos e redivivos (A volta dos enterrados vivos). Betina González fala de outro crime, o de ser escritora, que atinge a autora e talvez outros pretensos escrevinhadores como o missivista aqui, ainda que sem a barreira de gênero (A obrigação de ser genial). Reivindico uma aproximação, pois o González de origem espanhola dela seria meu também, não fosse o aportuguesamento imposto a meus avós no registro do nome de meu pai. Vivências distintas, frutos diferentes e Fabrício Marques mostra a parte do sucesso – ou rendição – da escrita, com o exemplo de Carla Madeira (O caminho do best-seller). Imagino a interlocução entre ela e González para comparar a remissão de seus crimes literários cometidos.
p.s.: Sou também frequente leitor de CartaCapital. Não é um crime, certo? Ou devo me preocupar?
ADILSON R. GONÇALVES_CAMPINAS/SP
ESTADISTAS E POPULISTAS
Lira Neto, o craque das biografias, no artigo A volta dos enterrados vivos (piauí_196, janeiro) presenteia os leitores da revista com a análise da coincidência do renascimento de Lula das cinzas – ao conquistar um terceiro mandato presidencial – com as figuras mitológicas de nossa história contemporânea, Churchill, De Gaulle, Perón e Getúlio Vargas, sendo que os dois primeiros foram alijados do poder ironicamente, pois eram os grandes heróis de suas pátrias ao derrotarem o nazismo, enquanto Perón e Getúlio foram depostos pelos militares e Lula preso e encarcerado durante 580 dias.
Não alinharia Lula na categoria de estadista, assim como Perón. Tanto o brasileiro como o argentino abraçaram o populismo e deixaram um legado diminuto em comparação com os demais líderes citados. Pelo fato de ter forte apoio entre os deserdados e os trabalhadores, após quase cinquenta anos de sua morte em 1974, o movimento justicialista criado por Perón continua dominante na política argentina de forma muito negativa, pois um país que no final do século XIX e início do XX foi uma grande potência mundial há tempos se arrasta numa crise sem fim.
Getúlio também foi um líder populista, mas conseguiu transcender. A leitura dos três alentados livros do Lira Neto traçando sua trajetória desde o nascimento até a morte trágica permite classificá-lo na categoria de estadista, pois foi o grande responsável pela enorme transformação ocorrida em nosso país durante sua gestão, primeiro como ditador, depois como presidente eleito democraticamente. Teve a hombridade de sacrificar sua vida para não ser humilhado pelos militares, ao mesmo tempo que seu ato criou uma comoção nacional, que desafiou e fez com que os golpistas da época desistissem de seu intento, adiando-o para outra oportunidade, que surgiu em 1964, quando finalmente conseguiram se instalar no poder até 1985.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
INCREDULIDADE
Das raras vezes que escrevi para esta revista, todas foram no intuito de elogiar tal e qual artigo. Porém, hoje faço uma exceção e externo minha incredulidade com a afirmação do senhor Fernando de Barros e Silva – cuja história profissional me permite dispensar apresentação – de que havia escrito o artigo Lula no país dos lunáticos (piauí_196, janeiro) antes da posse presidencial. Vejamos as frases com as quais este talentoso jornalista nos presenteia em seu texto:
– “O Brasil escapou por muito pouco da catástrofe”
– “O transatlântico Pindorama passou a poucos centímetros do iceberg”
– “Em outros lugares vimos policiais pedirem desculpas antes de abordarem aglomerações de patriotas, ou pior, confraternizarem com os manés”
– “Apesar de tudo, pode dar certo”
Li este artigo no dia 6 de janeiro. Depois dos acontecimentos do dia 8, não creio que o renomado profissional da imprensa não tenha lançado mão de sua secreta relação com o universo ou outras macumbâncias quaisquer para escrever essa matéria.
WALDEMIR TAVARES_NITERÓI/RJ
AYAHUASCA
Sou leitora e fã número 1 da revista piauí. Gostaria de parabenizar a Angélica Santa Cruz pela reportagem Sobre ela, com ela e para ela (piauí_196, janeiro), que traz com elevado nível de profundidade a odisseia dos povos indígenas e sua trajetória em torno da ayahuasca.
Falando de substância com propriedades terapêuticas, ao longo dos últimos vinte anos, a cetamina tem sido cada vez mais usada na psiquiatria devido à sua elevada ação antidepressiva. A substância foi desenvolvida como um anestésico na década de 1960, porém, à medida que vinha sendo utilizada, os anestesistas começaram a notar sua ação no humor. A partir disso, diversos estudos científicos foram realizados e comprovaram sua potente ação para o quadro de depressão.
Diante da elevada incidência de depressão, sobretudo episódios depressivos que não respondem às medicações convencionais e nem mesmo à terapia, o uso clínico da cetamina vem como uma esperança para os pacientes que sofrem desse problema.
Apesar de já bastante utilizada nos Estados Unidos e na Europa, no Brasil ela só começou a ser usada na USP e na Unifesp nos últimos cinco anos. Diante da elevada demanda e dificuldade dessas instituições de prestar atendimento a todos que precisam, no final de 2022 eu e alguns colegas psiquiatras também da USP abrimos a Clínica Livaz (@clinicalivaz), com o objetivo de realizar aplicação de cetamina em um ambiente seguro e monitorado, aumentando o acesso dos pacientes a esse tratamento.
Sou psiquiatra e pesquisadora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Além do HC, trabalho no consultório privado e no Hospital Sírio-Libanês. Gostaria de fazer a sugestão de uma matéria sobre o tema, com a profundidade e o respeito que vocês costumam ter diante dos temas abordados.
ANNE BRITO_SÃO PAULO/SP
CULTO À IMAGEM
Sem dúvida, Ricardo Stuckert é um profissional competente e respeitado no seu ofício, mas o que chama a atenção na matéria O fotógrafo (piauí_195, dezembro) é que “nunca antes nesse país” um político contratou alguém para documentar seus passos em tempo integral ao longo de vinte anos, incluindo aí a última década em que passou sem exercer qualquer cargo público. Até para namorar à noite na praia fez questão do registro público.
LUIS ROBERTO BEOLCHI_SANTOS/SP
NOTA CORROSIVA DA REDAÇÃO: É verdade, mas vamos ser justos, dá para esquecer que Bolsonaro se fez filmar dizendo “I love you” ao Trump?
UBIRAJARA
Interessante a matéria de Bernardo Esteves (O fóssil é nosso!, piauí_196, janeiro) sobre o dinossauro brasileiro conhecido como Ubirajara, que foi retirado ilegalmente do país. Entre os pontos principais a serem destacados está o fato de que, quando a ilegalidade da “exportação” para o exterior foi descoberta pelo periódico científico Cretaceous Research em 2020, o trabalho, logo depois de ter sido publicado, foi suspenso, e em 2021, definitivamente retirado de publicação. Essa ação firme do editor da revista pode ser considerada um divisor de águas no que diz respeito ao tráfico de fósseis brasileiros. Além de ter despertado uma ação inédita nas mídias sociais (movimento #UbirajaraBelongsToBR) e uma atuação mais firme por parte da Sociedade Brasileira de Paleontologia (e muita articulação nos bastidores por diversos pesquisadores), paleontólogos do exterior ficaram mais atentos em relação à questão legal dos fósseis brasileiros, já que é bastante constrangedor ter uma publicação retratada. Cabe citar dois exemplos que ocorreram depois do imbróglio do dinossauro: a devolução de 36 aranhas fósseis (incluindo o holótipo de Cretapalpus vittari) por parte de pesquisadores dos Estados Unidos e a repatriação do crânio de um réptil alado (Tupandactylus) que estava ilegalmente na Bélgica, esse último antes da publicação do artigo. Triste é constatar que, pelo menos no caso do dinossauro e das aranhas, os pesquisadores estrangeiros dispunham de documentação supostamente emitida por fiscais da Agência Nacional de Mineração (ANM), que agiram na contramão dos esforços realizados pelos pesquisadores brasileiros na proteção do patrimônio científico. Aliás, essa agência ainda não apresentou explicações públicas sobre o ocorrido.
Ainda sobre o dinossauro, tema da matéria, existe uma expectativa para que ele seja repatriado, algo com o que aparentemente o governo da Alemanha já concordou. Em acontecendo, sou da opinião que deveria ser dada uma oportunidade aos pesquisadores do estudo original de publicar o seu artigo, uma vez que ele foi “despublicado” por questões legais e não por omissões científicas. A meu ver, seria uma bela forma de deixar claro para a comunidade internacional que eles podem fazer a sua pesquisa, mas os fósseis relevantes devem permanecer no nosso país. Importante destacar que essa eventual possibilidade não invalida os importantes movimentos que estão sendo realizados em prol da descolonização da ciência, outro tópico relevante. De qualquer forma, seria muito importante um movimento de conscientização dos periódicos científicos para que não publiquem artigos sobre fósseis retirados ilegalmente do país.
ALEXANDER KELLNER_RIO DE JANEIRO/RJ
Prof. Titular do Depto. de Geologia e Paleontologia, Museu Nacional da UFRJ
BOLSONARO
Nunca pensei que um dia enviaria uma crítica para a revista piauí, que é a melhor na minha opinião. Mas, quando terminei de ler a matéria “O show de Jair” (piauí_195, dezembro), penso que houve uma falha muito grave. O conteúdo da matéria deixa parecer que esse povo que coordena esse retrocesso, essa vergonha, é muito inteligente, coisa que ao longo desses árduos anos constatamos (graças a Deus) que não. Faltou dizer que essa estratégia foi orientada pelo mesmo cara, aquele que não toma banho (Steve Bannon), que orientou Donald Trump.
RENATA F. DE SOUZA AZZONI_JUNDIAÍ/SP
NOTA TEOLÓGICA DA REDAÇÃO: “Deus escolheu as coisas loucas para confundir as sábias. Deus escolheu as coisas fracas para confundir as fortes. Deus escolheu as coisas vis, de pouco valor, as desprezíveis, que podem ser descartadas, as que não são, que ninguém dá importância, para confundir as que são.” MALAFAIA, Silas.
TUDO É RIO
Estava tomando café da manhã no apartamento em que moro no Bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte/MG, quando descobri que no Bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte/MG, a escritora Carla Madeira havia participado de um jantar temático sobre seus livros, num restaurante que fica (literalmente) “logo ali”. Resultado: de tanta matéria boa para ler – e podcast para ouvir; “opa” Toledo –, não li Carla Madeira (O caminho do best-seller, piauí_196, janeiro); de tanto café para tomar, não pus os pés no restaurante. Não sei que tipo de metalinguagem foi essa, mas certamente o jornalista não esperava por ela.
OTÁVIO VILELA_BELO HORIZONTE/MG
NOTA INTRIGADA DA REDAÇÃO: É impressão nossa ou você escreveu uma carta sobre o perfil da Carla Madeira, direto do Bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte/MG, para dizer que não conseguiu ler o perfil da Carla Madeira no Bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte/MG?
ERRATA:
Na reportagem Sobre ela, com ela, para ela (piauí_196, janeiro), informou-se erroneamente que os waimiri atroaris vivem em Rondônia. Eles vivem no Sul de Roraima e no Norte do Amazonas. A correção foi inserida na versão digital da reportagem.
Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação: