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CAMINHÃO-CAMAROTE

Motorista cria atração turística perto do estádio do Atlético
Imagem Caminhão-camarote

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Ao som de uma música do Queen, um senhor de cabelo grisalho e olhos azuis dança sozinho diante de um caminhão decorado com bandeiras do Atlético Mineiro. As piruetas coreografadas marcam a sua despedida da rua em Belo Horizonte onde ele estacionou seu caminhão todos os fins de semana nos últimos 33 meses. O chão em que dá seus passos ainda está coberto de poeira e detritos da imensa obra que se realizou ali perto. “Quando tirarem esses tapumes, acabou. Não precisam mais de mim”, diz Rubélio Vieira Mendes, de 60 anos, apontando para o muro metálico provisório ao redor do lote de quase 130 mil monde o Clube Atlético Mineiro ergueu sua casa própria.

Sonho antigo dos torcedores, o estádio do Galo começou a ganhar forma em 2017, quando o Conselho Deliberativo do clube aprovou a construção do projeto desenhado por um de seus membros, o arquiteto Bernardo Farkasvölgyi. Desde o início das obras no bairro Califórnia, Vieira Mendes acompanha as mudanças vertiginosas nas vias do entorno, com novos estabelecimentos comerciais abrindo as portas. Torcedores e curiosos começaram a se juntar no local, e logo apareceram vendedores ambulantes para servi-los. Antes da obra, o lugar não conhecia tanta agitação. “Parecia até o deserto do Saara”, diz o caminhoneiro.

Atleticano desde criança, Vieira Mendes tornou-se um novo elemento daquela paisagem. Desde maio de 2020, aos sábados, domingos e feriados, com Sol ou chuva, seu caminhão estava sempre na esquina das ruas Crepúsculo com Cristina Maria de Assis.

Ele estacionou lá pela primeira vez há quase três anos, quando, voltando para casa depois de uma entrega, resolveu fazer um pequeno desvio para ver de perto o canteiro de obras, ainda em fase de terraplanagem. Encontrou outras pessoas no local, que subiam no capô dos carros para bisbilhotar a construção por cima dos muros. Vieira Mendes fez o mesmo, com a vantagem de ter um mirante mais alto. Alguns passantes pediram para também subir na carroceria do caminhão, e o motorista autorizou.

Curioso, Vieira Mendes voltou ao local outras vezes – e sempre havia quem pedisse para subir na carroceria. Depois de oferecer acesso gratuito a seu camarote improvisado, o caminhoneiro teve a ideia de pedir uma contribuição aos visitantes: 2 reais, pagos em espécie ou por Pix. O negócio deu certo, e ele chegou a faturar uma média de 1 mil reais por semana. Atleticanos mais abonados até dispensavam o troco, deixando valores maiores. O dinheiro arrecadado ajudou a complementar a renda de Vieira Mendes e incrementar o caminhão, dando-lhe cara de atração turística.

A cabine do veículo foi decorada com um escudo do Atlético, iluminado com LEDs. Uma escada foi instalada pa­ra facilitar o acesso à carroceria. O Caminhão da Massa, como passou a ser conhecido, recebia famílias inteiras nos fins de semana, que faziam selfies com o estádio em construção ao fundo. Para as crianças, o combo “subida no alto do caminhão e vista panorâmica do estádio” era quase como uma visita a um parque de diversões.

Em junho de 2022, transcorridos dois anos de obras, começou a instalação das cadeiras do estádio. Mas Vieira Mendes diz que a primeira arquibancada foi, na verdade, o seu veículo. Ele estima que mais de 10 mil pessoas subiram no Caminhão da Massa, incluindo ídolos do Galo, como Reinaldo, Dadá, Toninho Cerezo e João Leite. Até torcedores do Cruzeiro pagaram para espiar a construção do estádio rival. Só que não deixavam rastros da transgressão em registros fotográficos.

O Caminhão da Massa ganhou também sua versão virtual, com um canal no YouTube que hoje conta com quase 5 mil inscritos. Centenas de vídeos gravados e enviados diretamente do celular de Vieira Mendes mostram o estádio ganhando corpo – o que fez a alegria dos atleticanos que moram longe de Belo Horizonte.

O empreendimento criado por Vieira Mendes ao lado do estádio ajudou a socorrê-lo em um momento difícil. Devido a problemas no joelho, ele precisou se distanciar das estradas que percorreu por 37 anos trabalhando no transporte de cargas. Na pior fase, com artrose e um sobrepeso de 35 quilos, o motorista só conseguia andar com o auxílio de uma bengala. “Ficar parado em casa ia ser um tédio. Isso aqui foi um combustível para a minha saúde”, diz. Hoje, ele se dedica de preferência a pequenos fretes dentro de Belo Horizonte.

Quando dirige pela Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, a Via Expressa, que leva de sua casa, no bairro Barreiro, ao estádio, motoristas amigáveis buzinam, sinalizando que conhecem o Caminhão da Massa. Vieira Mendes também se tornou uma figura popular entre os trabalhadores envolvidos na construção, dos seguranças aos operários, e até os diretores do time gostam dele. Não raro, os moradores do bairro Califórnia, vizinhos do estádio, ofereciam água gelada, guarda-sol e marmitas ao caminhoneiro da Massa.

O iminente encerramento das obras não abala Vieira Mendes. Ele aguarda, ansioso, a inauguração oficial do estádio, prevista para maio, quando o time mineiro jogará com uma equipe internacional ainda a ser definida. E compartilha uma fantasia: imagina o Caminhão da Massa fazendo a escolta do ônibus do Atlético, no lugar das habituais viaturas policiais que acompanham o comboio. “Meu sonho era esse: no primeiro jogo oficial do Galo, eu queria ‘rebocar’ o time”, diz.

Nenhum convite nesse sentido foi feito, mas Vieira Mendes não tem razões para se lamentar: o clube já o presenteou com uma cadeira cativa no estádio, de onde ele terá uma visão bem diferente daquela que costumava apreciar do alto de seu caminhão. “Não vou perder um jogo”, diz.


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Jornalista e escritora, publicou o livro de poemas Em Obras (Urutau) e a coletânea de contos Papéis (edição da autora)