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O CURADOR DE PEIXES

Um biólogo paraibano na linha de frente da pesquisa marinha
Imagem O curador de peixes

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Entre novembro e dezembro do ano passado, o paraibano Luiz Rocha, de 49 anos, deixou a sua casa em São Francisco, nos Estados Unidos, para realizar duas expedições. Na primeira delas, viajou até o Arquipélago das Maldivas, conjunto de 1 196 ilhas no Oceano Índico. Na sequência, visitou o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no Sul da Bahia, considerado o maior santuário de vida marinha do Brasil. São destinos perfeitos para quem pratica o mergulho. Mas as viagens de Rocha não foram recreativas: ele é um ictiologista, biólogo especializado em peixes. Viaja para pesquisar – e preservar – a vida marinha.

A excursão científica nas Maldivas fazia parte de um projeto, coordenado por Rocha, de estudo da vida nos recifes mesofóticos – aqueles que são formados por corais, esponjas e algas que vivem entre 30 e 150 metros abaixo do nível do mar e não dependem de muita luz. O interesse de Rocha concentra-se nos peixes que habitam esses recifes – animais arredios, que se assustam com o barulho de motor e com as luzes dos aparelhos submarinos necessários para pesquisas em grandes profundidades. Ele recorre então ao chamado “mergulho técnico”, realizado com um equipamento especial que recicla a respiração do mergulhador depois de excluir o gás carbônico.

Esse tipo de mergulho é extenuante e só pode ser praticado uma vez por dia. Mas compensa: as Maldivas são um parque de diversão para os cientistas especializados em vida marinha. Em 2022, Rocha descobriu oito novas espécies de peixes na região. “O Oceano Índico tem oito vezes a área do Brasil, mas as espécies que vivem abaixo dos 50 metros foram pouco estudadas”, diz ele.

Em Abrolhos, Rocha desceu a profundidades mais modestas, de 20 metros. O objetivo não era catalogar novas espécies, mas acompanhar o estado de preservação da fauna e da flora local. Sua maior preocupação é o budião-azul, também conhecido como peixe papagaio-azul, que está ameaçado de extinção. A população dessa espécie diminuiu 30% nos últimos nove anos.

Rocha acumula 6 mil horas de mergulho e já fez setenta expedições científicas. É um homem de pele queimada de Sol, cavanhaque e sorriso largo. Ao lado do trabalho de campo, cumpre expediente na Academia de Ciências da Califórnia, em São Francisco, um dos principais museus de história natural do mundo, com um acervo de 26 milhões de espécies. Como curador de ictiologia, o paraibano cuida de uma seção do acervo que representa 1 milhão de espécies, conservadas em tanques, em um aquário aberto à visitação pública. Alguns desses peixes foram descobertos e catalogados pelo próprio Rocha. Ele também leciona na Academia de Ciências da Califórnia, onde ganhou o título de “Herói da Ciência”.

Nascido em João Pessoa, Rocha sempre foi apaixonado pelo mar. Na infância, passava os fins de semana na praia, observando peixes com seu snorkel, tubo de mergulho de cerca de 40 cm. Interessado por ciências desde os tempos do ensino fundamental, decidiu estudar biologia na Universidade Federal da Paraíba, onde também fez seu mestrado em zoologia, em 1999.

No doutorado, concluído em 2003 na Universidade da Flórida, Rocha estudou a influência da pluma do Rio Amazonas – o fluxo de água doce que é despejado no Atlântico – sobre peixes marinhos. Constatou que, ao desaguar no oceano, o rio cria uma barreira que separa espécies e populações inteiras de peixes. Na Flórida, ele pôde trabalhar com o sequenciamento genético de peixes, que ainda não era realizado no Brasil. Orgulhoso de sua ampla produção acadêmica – 170 artigos científicos publicados, dos quais cerca de 100 são dedicados a peixes do Brasil –, Rocha consagrou-se como uma referência mundial em ictiologia.

Nos últimos trinta anos, o biólogo vem documentando, com preocupação, o estrago causado à vida marinha pelo aquecimento global e pela crescente poluição das águas. O lixo tomou conta dos oceanos. “Não existe um lugar do mundo em que, mesmo a 100 metros de profundidade, não encontremos resíduos”, alerta. Os materiais que ele vem encontrando em seus mergulhos incluem garrafas – de vidro ou plástico –, sacolas, pneus e muitos itens descartados pela indústria pesqueira, como anzóis, cordas e pedaços de âncoras. Mesmo as ilhas mais isoladas e protegidas da costa brasileira estão contaminadas, como a Ilha da Trindade, no litoral do Espírito Santo, a 1 146 km da costa do estado. “Levei três dias para ir de Vitória até lá, e quando mergulhei, constatei lixo no fundo do mar”, conta Rocha.

O aquecimento global tem causado outros tipos de danos. É a origem de um fenômeno devastador: o branqueamento dos corais. Isso ocorre quando a temperatura das águas sobe, “cozinhando” os recifes de corais, que então são cobertos por algas e bactérias claras. As consequências ecológicas são amplas: peixes que se alimentam de corais afastam-se em busca de outros recifes – ou morrem.

Esse processo tem sido veloz, como Rocha pôde constatar em dois mergulhos no Taiti, em 2021. No primeiro deles, o mergulhador encontrou recifes coloridos e saudáveis. Apenas cinco semanas depois, voltou ao mesmo ponto e viu corais completamente esbranquiçados, como se tivessem recebido um banho de alvejante.

Rocha trabalha ativamente para frear essa destruição. Sua missão é estudar a vida marinha para salvá-la. Já está preparando novas expedições às Maldivas, com o propósito de descobrir e catalogar novas espécies de peixes e de contribuir na conservação dos recifes mesofóticos. Para essa pesquisa, recebeu o prêmio de 200 mil francos suíços, o equivalente a 1,1 milhão de reais, do Rolex Awards for Enterprise, programa da fabricante de relógios que apoia a ciência e as humanidades. Rocha foi um dos cinco escolhidos dentre 1 659 inscritos.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)