ficção
Itamar Vieira Junior Fev 2023 16h11
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A ira do corpo se torna mais violenta em noite de lua cheia.
Ela já não conseguia se recordar das coisas que tinha para fazer no dia a dia. Também não soube dizer a si mesma como e quando havia se deitado exausta na esteira de palha e nem em que momento desfez – num acesso de fúria – a grossa trança que domava seu cabelo crespo e negro refletindo o brilho da luz de um candeeiro. Depois ela imaginou que os fios do seu cabelo se tornavam raízes encontrando o chão do quarto, e talvez tudo isso tenha se passado antes de uma dor violenta lhe atravessar o quadril. Ou foi antes de sua visão ficar turva. Ou um pouco antes de o suor escorrer de seu rosto e de suas costas, como uma fonte de água morna. Foi ao mesmo tempo em que sentiu uma incômoda vontade de urinar.
Enquanto estava deitada deixou a mão repousada sobre o ventre de seu pequeno corpo. Ali, sabia, estava a causa de sua aflição, a vida se contorcendo com violência, e era como se ela própria fosse arrebentar com a força que se digladiava para deixá-la. Poderia ficar quieta e permitir que seu corpo seguisse o próprio fluxo como o rio, porque tinha visto as mulheres fazerem o mesmo à sua volta. Poderia pedir ajuda e mandar alguém chamar a parteira da Tapera do Paraguaçu, aquela mulher que cheirava a aguardente e tinha as unhas grandes e sujas. Mas preferiu seguir em silêncio. E por fim não houve escolha e sua tormenta a consumia e rasgava o ventre e a pélvis, e estava cada vez mais intensa.
Era uma noite úmida, de poucos sons, alguns zumbidos de insetos, sem sequer assobio do vento avançando sobre as palmeiras da margem esquerda do rio.
Sua gente dormia ao seu lado e vez ou outra movimentava os pés, se virava, agitava as mãos para afastar os mosquitos que zuniam inquietos. Que fosse breve, se concentrasse no que tinha de fazer porque estariam despertas quando o dia começasse. Recordou da luta de sua gente quando as crianças exigiam comida e energia para apaziguar as brigas, para os banhos, para cuidar das feridas, para colocar o alimento nos velhos pratos de esmalte e parecia nunca ser suficiente tamanha era a fome.
Nos últimos meses a chuva finalmente chegou, mas os homens desencantados deixaram as minguadas roças ao deus-dará, seguiram nos saveiros para vender o que havia sobrado da última colheita. Pequenos carregamentos de farinha de mandioca, coco, azeite de dendê. Prometeram trazer dinheiro. Voltaram depois de semanas sem nada ou, quando muito, garrafas de cachaça. As mulheres da Tapera observavam a maré, e a maré avançava e recuava sobre o rio enquanto elas viviam à espera de seus homens. Aproveitavam as águas baixas para irem com lata e colher em busca de mariscos. Sabiam que eles não voltariam no tempo prometido. As crianças chorariam por comida, sem se preocupar se os pais tinham ou não voltado, e sobrariam as mães cada vez mais velhas para dar conta das obrigações.
As mulheres arrumavam um jeito próprio de seguir a vida; uma das certezas era que pediriam aos monges permissão para colher o caju nos terrenos da igreja. Eles cediam, desde que elas levassem os melhores frutos para a cozinha do mosteiro. Feito isso, poderiam comer o resto. Elas vendiam as sobras da colheita para os viajantes, cheias de dignidade, em pequenos tabuleiros erguidos nas portas das casas voltadas para a estrada. Depois, no fim do ano, os maturis que nasciam nos galhos mais baixos para matar a fome, além dos frutos que sobreviveram à primeira colheita e cresceram nos galhos altos.
Durante a manhã ela observou de longe o povo da Tapera seguir com seus cestos para colher o que encontrasse no caminho. Não se juntou para não verem sua barriga e, ainda que fosse uma barriga pequena e comprimida e envergonhada, não era possível enganar as mães da Tapera. Elas conheciam a pele e o brilho, e o cabelo das que carregavam uma criança no ventre. Elas sabiam pelas unhas e pelo hálito doce, e pela largura das ancas. Sabiam se a criança seria graúda ou miúda e em que tempo chegaria. E, se tivesse andado entre elas nos últimos meses, saberia que naquela noite de lua cheia era a boa hora.
E se levantou equilibrando o corpo, acocorada no chão, a camisola empapada de suor e colada às costas e por baixo dos seios. A dor cresceu, e cresceu também a raiva que já não sabia de onde vinha, e com certeza ela havia arrancado boas mechas do cabelo enquanto desfazia a trança. Deixou a cabeleira livre feito a copa de uma árvore. Seus pés deslizaram sobre o chão de terra batida procurando o caminho para fora de casa. Quando se aproximou da cortina que separava o cômodo da sala, ela ergueu a cabeça e a seguiu com os olhos. Mas nem isso foi capaz de detê-la, e era possível que na manhã seguinte a sua imagem se revelasse como um sonho na noite que avançava, como todas as outras sobre todos os seus, sem sobressaltos.
Então ela deslizou não só pelo chão da casa, mas também pela noite que reinava sobre o céu: a lua, um farol adentrando as frestas da janela como um convite para que o animal noturno deixasse a toca. Retirou a barra de madeira que cerrava a porta, não sem antes morder os lábios, um gesto oportuno para impedir que se ouvisse o ruído das dobradiças.
Sentiu um bafo, era a brisa morna a levando para fora da casa.
Não tinha pensado sobre sua hora nem mesmo sobre o que faria, e o corpo despertou por um momento da apatia dos últimos dias. Seguiu os próprios instintos. Não queria aquela criança; não podia levar outra boca para uma casa sem recursos. Só não bebeu os chás porque não os conhecia. Nem fez os encantos das mais velhas e os segredos guardados nos lugares mais insondáveis do espírito das suas mulheres. Havia muito que essa vida passada era rejeitada por sua gente, que aos poucos se tornou outra, pois passou a acreditar nas palavras de forasteiros. Mas nada pôde deter o animal que crescia dentro de outro animal e ela não sabia se era por falta de conhecimento, se pelo eco das pregações do mosteiro que sepultaram a Tapera sob a permanente ameaça de castigo dos Céus ou pelos desígnios do Espírito de Deus. Enquanto caminhava sentiu que outros animais deixavam o caminho e subiam nas árvores e se agitavam nas matas e se escondiam nas tocas e entravam no rio, antes que ela pudesse alcançá-los.
Um depois do outro, seus pés tocaram a água, e seu corpo se desviou como um galho seco no sentido da correnteza. E a dor, a dor não estava apenas no seu ventre, a dor a possuía por inteiro. Se permitiu gemer enquanto os peixes tocavam sua pele com seus corpos e para não seguir em direção à baía junto à correnteza, fincou os pés na areia do leito na altura em que sua barriga ficava submersa. O movimento das águas trouxe algum alívio que logo se desfez. Mas não havia entrado no rio em busca de conforto. Ela queria se agitar no fluxo que a atravessava e passar por tudo o que precisava para se sentir viva. Foi assim que afastou as pernas, e a maré e o rio a invadiram e estavam próximos de afogá-la: as águas inundaram seu corpo e seu coração.
Quando a criança enfim nascesse, a entregaria às águas. Que o rio cuidasse de sua cria. Que a correnteza a levasse para bem longe.
Sempre que eu contrariava Luzia desobedecendo a suas ordens, contestando quase tudo com respostas agressivas, ela me dizia que eu era tão ruim que minha vinda ao mundo pôs um fim à vida da mãe. “Deu fim à nossa mãe”, era a sentença cruel, lançada para me atingir e evocar as complicações que se seguiram ao meu nascimento. Minha mãe se acamou deprimida. “Nossa mãe se foi de melancolia”, era o que se contava em casa. Nunca soube ao certo o que Luzia sentia por mim, graças ao que nos aconteceu. Por ter sido a responsável por minha criação ainda muito jovem, dizia que ninguém quis se casar com ela por causa dessa obrigação. Nenhum homem iria aguentar minhas malcriações. Sua mágoa era duradoura. Caí feito um fardo sobre suas costas, depois da morte da mãe e da partida dos nossos irmãos. Eu era mais uma atribulação para Luzia, além de todas as outras: cuidar da casa, do pai, da roupa da igreja, e ter que se esquivar dos humores do povo da Tapera.
Diferente da mãe e das mulheres da aldeia, Luzia, a irmã mais velha, parecia não ter se interessado pela arte do barro, nem mesmo pelo roçado. Dizia que lavoura era trabalho para homem. Repetia, ao ver a ruma de mulheres caminhando para o mangue à beira do Paraguaçu, que não foi feita para ficar sob o sol catando mariscos, e que se pudesse moraria na cidade grande. Desde cedo passei a seguir seus passos. Às terças e sextas-feiras Luzia andava até o mosteiro, recolhia cortinas, toalhas e estolas, e formava uma imensa trouxa. Equilibrava tudo sobre a cabeça com uma rodilha feita de peça menor, podia ser uma fronha de travesseiro ou uma toalha pequena. Cada entrada no mosteiro era precedida de reprimendas a mim: “Você não pode tocar em nada”, “Não fale alto, nem corra pelo pátio”, “Peça a bênção aos padres quando se dirigirem a você. Seja agradecido se lhe ofertarem algo”. E, claro, só poderia receber qualquer coisa se tivesse seu consentimento. Eu não fazia mais gestos de assentimento às suas recomendações. Planejava como contrariar as regras, em especial aquela que dizia que deveria olhar sempre para o chão e andar como se fosse invisível para não incomodar as orações. Tanta advertência não era por acaso, Luzia confessou num rompante de desabafo: queria manter seu ganha-pão como lavadeira do mosteiro e conseguir uma vaga para que eu estudasse na escola da igreja.
Nessa altura, meu irmão Joaquim tinha retornado de um tempo longo morando na capital. Ele levava uma vida errante, mas quando jovem aparecia vez ou outra para ajudar Seu Valter nos carregamentos do saveiro Dadivoso, com sacas de grãos e caixas de verduras. Saíam às quintas-feiras em direção à Feira de São Joaquim e não tinham dia certo para regressar. Foi um tempo em que manejei os saveiros na imaginação, nas brincadeiras de menino, enquanto admirava o Dadivoso e outras embarcações navegando o Paraguaçu em direção à baía. Quando meu irmão começou a trabalhar com Seu Valter, eu o seguia até o rio para observar o carregamento das sacas de farinha, dos barris de azeite de dendê e das caixas de inhame e aipim. Guardava a esperança de que me considerassem pronto para trabalhar. Sonhava ir embora de casa, não precisar mais olhar a carranca de Luzia me dizendo que eu era um fardo. Meus irmãos deixaram a Tapera antes mesmo de me conhecerem. Da maioria deles não havia fotografia nem recordação. Eu fiquei só com Luzia e meu pai. Como não havia quem cuidasse de mim na sua ausência, precisei seguir seus passos muito cedo, a todo canto, até que ela me considerasse pronto para ficar sozinho.
Quando eu era pequeno, Luzia me levava nas suas caminhadas para recolher as roupas do mosteiro. Entrava e saía dos cômodos e caminhava contrita até o altar da igreja, benzendo-se toda vez que passava por alguma imagem de santo ou pela de Nosso Senhor do Bonfim, a maior delas. Eu me afastava em silêncio, ao mesmo tempo que tentava manter os movimentos de Luzia no meu campo de visão, domando meu ímpeto explorador.
Não poderia desobedecer de todo as suas ordens, como a de estar sempre ao seu lado. Planejava como caçar os insetos no jardim do pátio interno. Retirava viuvinhas do pé de carambola e as pousava em meu braço. Dava-lhes nomes, cuidava para não caírem sob os sapatos dos monges percorrendo os corredores em silêncio. Às vezes, ao notarem minha presença, punham a mão sobre minha cabeça. Me abençoavam e ofertavam as carambolas maduras que eu mesmo poderia pegar, não fosse a proibição de Luzia. Eu a seguia e gostava de sentir sua paz, quieta, silenciosa, recolhendo as peças a serem lavadas, fazendo um grande esforço para não ser notada, os pés flutuando acima do chão. Não era possível ouvir sequer suas sandálias surradas encontrando o piso do mosteiro. Diferente de mim que, ao me perceber sozinho, deslizava os pés como se fossem barcos quebrando a correnteza do rio, ruidosos a perturbar a calmaria sagrada do mosteiro.
Quando não encontrava os insetos, me sentava no banco de pedra e olhava Luzia de um lugar privilegiado. Observava seu caminhar, sua ronda, o percorrer das celas, abrindo e fechando portas, o ranger das dobradiças douradas, ela recolhendo as roupas brancas. Me aproximava, mas não tinha permissão para adentrar os vãos, não tinha permissão para olhar o interior, embora eu sempre desse um jeito de espreitar. Luzia entrava de cabeça baixa, olhando o que a interessava. Recolhia, dobrava, alisava com as mãos as peças de roupa. A boca se movimentava em silêncio recitando preces que não podiam ser escutadas e os olhos contemplavam sem demora os crucifixos e os santos. Era a casa de Deus, foi o que me ensinou, e ali expiava em contrição as dificuldades dadas pela vida. Mas era das costas de Luzia que se elevava um pequeno monte, uma corcunda, e eu sentia vergonha. Nesse ponto concordávamos, porque ela parecia sentir igual acanhamento. Houve um tempo em que eu não entendia sua deformidade, ainda não compreendia as coisas da vida e não me incomodava com muita coisa. Mas, à medida que eu crescia, andava cada vez mais distante para não ouvir as zombarias das crianças. As mais atrevidas se aproximavam sem que ela notasse para pôr a mão sobre a corcunda e fazer um pedido. Aprenderam com os viajantes que passavam ao largo da estrada da Tapera. Muitas vezes vi minha irmã chegar em casa e se dirigir ao quintal, para longe de mim ou de meu pai. Parava diante da pequena horta e engolia a seco as lágrimas que não chegavam a deixar seus olhos.
Quando Zazau, a mais velha entre as mulheres, nos visitava, repetia que eu não deveria contrariar Luzia – “ela sofre dos nervos”. Eu sabia que, no fundo, não queriam falar sobre os males que o povo da aldeia cochichava pelos cantos e fizeram de Luzia uma assombração evitada por todos. As crianças nas ruas, e depois na escola, repetiam as histórias contadas pelos mais velhos: que nossa casa era amaldiçoada, que as coisas se quebravam sozinhas, os móveis se moviam do nada; que o fogo se apoderava das coisas sem ser provocado. O fogo, em especial, parecia preocupar os que contavam. Diziam que nos dias de lua, por onde Luzia andava, as coisas queimavam. Roupas secas estendidas no varal, o colchão de palha, o mato ao redor das casas e dos caminhos. Contavam que Luzia fora trancada em casa pelo pai e pela mãe para que os vizinhos não resolvessem suas diferenças com as próprias mãos. Se os primeiros eventos estranhos surgiram enquanto ela crescia, não se sabia ao certo quando deixaram de acontecer. Uns diziam que foi depois da morte da mãe, outros que os males cessaram quando Luzia foi crismada. Mas saber que minha irmã tinha o poder da magia quando eu ainda nem existia, me atormentava e atiçava ainda mais minha curiosidade.
Um dia, depois de uma surra de Luzia, resolvi eu mesmo castigá-la. Não lhe contava sobre tudo o que ouvia, as coisas que diziam dela pelas ruas da aldeia. A raiva me fez planejar algo traiçoeiro para atingi-la em cheio. Aproveitei sua ausência da cozinha e retirei uma lenha ainda ardendo do fogão. Encostei a chama na cortina que separava o cômodo do resto da casa. Eu queria atingir Luzia, provocar algo tão forte quanto as lapeadas de cipó que havia recebido, sua arma para me manter sob controle. Seguindo seu exemplo, eu não tinha chorado, não me dobrei aos seus castigos. Contudo, queria vingança. Aos 6 anos não podia imaginar que o fogo não queimaria apenas a velha cortina, mas alcançaria o teto e consumiria as ripas de madeira que sustentavam o telhado. Em pouco tempo as chamas se alastrariam. Comecei a gritar: “Fogo”, e tive medo de que ocorresse o pior.
Luzia aguava os canteiros de plantas porta afora. Ao me ouvir gritar, correu apressada para o interior da casa feito uma flecha, sem que tivesse tempo de me notar. Parou na porta, enfeitiçada pela cena. Olhava para o alto, parecia admirar o vermelho-vivo das ripas consumidas pelas chamas. Depois de breve tempo sem reagir, ela me puxou para fora de casa, enquanto a fumaça escura se elevava ao céu pelas brechas das telhas. Quando considerou que eu estava seguro no terreiro, retornou para dentro, me deixando sob o céu da Tapera. Não falava alto nem parecia perturbada. Eu permaneci do lado de fora. Senti medo e culpa. Tinha pecado, Deus me castigaria, e Luzia também, se descobrisse a verdade. Atravessei a soleira da porta sem conseguir ver Luzia em meio à fumaça que já havia tomado os poucos vãos da casa. Imaginei que talvez tentasse recuperar o terço e o missal que levava para todo canto. Mas a encontrei agachada e talvez sem perceber respirava a fumaça.
Diante de Luzia havia um pedaço de madeira crepitando. Uma fagulha em meio à brasa. Ela parecia enfeitiçada. Carregou a tocha até a porta. Mas, antes de sair, abriu a boca e engoliu o fogo, como se precisasse guardá-lo.
O pai chegou pouco depois do fim do incêndio, acompanhado de dois vizinhos que foram buscá-lo na roça. O fogo tinha sido contido pelos baldes de água trazidos do Paraguaçu. Um pouco tarde porque o telhado já estava completamente destruído. Comecei a chorar sentindo culpa por minha inconsequência. Chorei pela punição caso meu pai e Luzia descobrissem meu feito. Fui consolado por duas mulheres que se aproximaram – “Não se assuste, já apagaram o incêndio”; “Logo logo vocês terão um telhado novo para cobrir a casa.” As mesmas mulheres que me consolavam, eu sabia, alimentavam o rancor contra Luzia. Chorei por medo de descobrirem a minha vingança, que tinha como propósito ferir o juízo dela. Ela continuava tranquila, revelando um temperamento diferente do habitual. O pensamento andava distante. Olhava para a casa como se não houvesse mais nada a ser feito.
Ainda recordo o rosto do pai quando viu o telhado avariado e de como percorreu a roda de mulheres no terreiro para encontrar Luzia. A boca aberta e o sinal da cruz antes de entrar para ver o que havia restado. Para nossa sorte, os danos se concentraram mesmo no telhado. E, se não recebi outra surra, meu castigo foi sonhar vezes e vezes com a coluna de fumaça alcançando as nuvens e percorrendo sem rumo o céu da Tapera.
Naquele mesmo dia me levaram para a casa da vizinha, dona Nadir, moradora da beira da estrada. Lá me instalaram numa esteira na sala. Meu pai permaneceu na casa sem teto para proteger os objetos que não podíamos retirar. Não houve convite para que Luzia repousasse em casa de algum conhecido. Para aumentar minha culpa, as pessoas não lhe deram abrigo, com medo de que a própria casa também se incendiasse. Durante o dia eu retornava para casa para encarar o vazio e o que eu havia feito. Seriam dias de silêncio se os poucos vizinhos, que tinham estima por meu pai, não trabalhassem serrando a madeira retirada da mata e armando as ripas sobre as paredes da casa. Luzia continuava quieta. Entrava e saía de casa como se nada tivesse acontecido. Cozinhava para os homens da construção, cuidava da roupa do mosteiro, aguava as plantas e a horta, que cresciam indiferentes às nossas virtudes e aos nossos pecados.
A nossa casa sem teto não era mais uma casa: até que lhe restituíssem o telhado, era apenas uma carcaça. Eu a tinha ferido de morte. Reagi assim observando os poucos homens solidários a meu pai. Primeiro, se lançaram na mata para retirar a madeira de que precisavam para as ripas. Depois, a cortaram, carregaram e serraram tramando sobre o vão do teto. Eu e Luzia revirávamos as telhas caídas na esperança de encontrar algumas peças inteiras para recompor o telhado, mas poucas poderiam ser reaproveitadas e mesmo as melhores estavam chamuscadas. Foram dona Mira e as filhas, consternadas com a nossa situação, que se uniram aos homens para ajudar a cobrir a casa fabricando as telhas com o barro retirado do leito do rio. Moldavam nas fôrmas de madeira, como os antigos costumavam fazer.
Depois os homens ergueram uma grande fogueira na beira do Paraguaçu para cozer as telhas. Quando prontas e frias, após um dia e uma noite, eu e os netos da velha Mira as empilhamos no terreiro para a cobertura do teto. Uma semana e estava tudo tinindo de novo, deixando a casa com um cheiro de madeira cortada e barro cozido até os nossos narizes não perceberem mais. Mas as paredes continuaram enegrecidas.
O povo da Tapera, que não se juntou ao mutirão, espalhou boatos sobre Luzia na mesma velocidade com que os vizinhos aprumavam o cume das telhas. Diziam que os seus males tinham retornado. As mulheres contavam os contos de porta em porta, nas esquinas e na saída da igreja. Continuavam a passar por nossa casa, mantendo certa distância. Observavam a construção, conferindo o andamento da obra. Pareciam não querer nada além de verificar a situação. Se benziam. Os boatos se alastraram mais rápido do que o fogo do incêndio e a correnteza do Paraguaçu. Por todo lado se escutava que Luzia estava possuída. Que, antes de o teto queimar, ela havia subido nas paredes e caminhado de cabeça para baixo como uma aranha; que eu chorava dia e noite porque os olhos brancos de Luzia pousavam sobre mim lançando maldição; que as rezas proferidas por ela eram feitiços para manter tudo sob seu controle. Havia quem jurasse ver Luzia na prainha à noite, onde mantinha conversa com a mulher da trouxa, a lavadeira das noites de lua cheia a equilibrar o embrulho de roupas na cabeça seguindo para a mata sem deixar rastro.
Não tardou para que, depois do nosso retorno à casa, vez ou outra crianças atirassem pedras no telhado. Ou então que acordássemos pela manhã com um encanto no alguidar de barro na encruzilhada do caminho da casa. Ou mesmo com uma beata aspergindo água benta em nossa direção. Luzia fingia não ver, sabia que a indisposição com aquela gente acabaria mal. Talvez imaginasse que, tal como no passado, os boatos se dissipariam e logo o incêndio seria esquecido.
A maior parte dos acontecimentos se deu quando meu pai trabalhava a terra e se encontrava distante de casa. O povo o respeitava, ainda que o chamassem, longe de seus ouvidos, de “pai da feiticeira”. Mas o silêncio resignado de Luzia se rompeu quando uma das pedras lançadas pelas crianças atingiu minha testa. Daquele pequeno ferimento fluiu sangue quente e abundante, o suficiente para cobrir meu rosto. Ela, que a maior parte do tempo parecia não se importar comigo, se tornou um animal feroz proferindo maldições com toda a sua indignação. Os vizinhos espiavam das janelas de suas casas. As novidades se alastrariam como rastilho de pólvora nos dias seguintes. Dona Mira se aproximou para tentar amainar a tensão e lavou meu rosto na beira do rio.
Depois de despejar toda a raiva engasgada em seu peito aos quatro ventos, de se movimentar de um lado a outro catando as folhas secas que caíam da mangueira, eu vi por um breve tempo sua corcunda desaparecer. Luzia se voltou para mim quando estava com o rosto limpo e ainda molhado, mas com o ferimento estancado. Apertou a pele ao redor para ver se era grave. Pude antever em seus olhos uma preocupação sincera, como se estivesse vasculhando a integridade das poucas coisas que lhe pareciam importantes.
Dom Tomás, o abade do mosteiro de Santo Antônio do Paraguaçu, me observava com atenção enquanto Luzia, mãos unidas como se estivesse rezando, aguardava com ansiedade. Eu tinha completado 7 anos e, segundo minha irmã, era tempo de ingressar na escola para aprender a ler e a escrever. Era seu desejo, já que nem ela nem as pessoas mais velhas da Tapera puderam aprender no devido tempo. A única escola havia sido aberta pela igreja fazia mais de quinze anos, embora os monges estivessem ali havia mais tempo. Os mais velhos comentavam que a escola atendia a um pedido da antiga proprietária da fazenda. Ela concordara em doar as terras do Paraguaçu para o mosteiro desde que a ordem promovesse a educação das crianças que lá viviam.
O mosteiro era uma construção antiga erguida entre o rio e as ruas da Tapera. Toda a vida da aldeia acontecia em seu entorno: as referências, o tempo, a história, era como se nada tivesse existido antes do mosteiro. Como se as pessoas, a terra e tudo mais só tivessem ganhado vida depois de sua edificação. Era assim que se contava, até que, bem mais tarde, eu pudesse compreender a sucessão de eventos que nos levou àquela situação. O povo já não sabia quem tinha chegado antes, se os donos das terras, se o mosteiro, se a nossa gente. Mas a resposta não fazia muita diferença. O fato é que, se houve uma ordem de chegada, isso não importava. A única certeza era que o mosteiro estava ali havia muito e a vida continuava a mesma.
Dom Tomás era o senhor a projetar sua sombra em tudo ao redor, não apenas no mosteiro e na escola, como também nas ruas e na vida das famílias da Tapera. Com os anos, minhas recordações foram se tornando imprecisas. No dia em que Luzia foi lhe pedir que eu ingressasse na escola, vi seu rosto, sua pele branca, ouvi seu sotaque estrangeiro – como todas as vezes em que estive nas missas de domingos e dias santos. A imagem mais duradoura, a que permaneceu comigo, foi a de um grande crucifixo prateado, luminoso, que ele ostentava à altura do peito. Em minha memória, sua face já teve muitas formas e marcas, nariz, boca, e mesmo grandes olhos azuis. Depois, à medida que eu crescia e o encontrava com menos frequência, seus traços foram se diluindo numa mancha até que a imagem se tornou um vazio que nunca mais seria preenchido.
Se seu rosto foi se apagando como uma pintura malconservada ou como as abstrações que nos escapam dos sonhos, o mesmo não ocorreu com o restante de sua figura. As vestes escuras, pesadas e com cheiro de naftalina, que pareciam quentes, continuaram a surgir vivas em meus pensamentos, assim como as gotas de suor a sobressair num rosto para sempre enevoado. Seu andar lento e os movimentos sincronizados ao seu discurso também permaneceram plenos no que me restou de recordação. Da mesma forma, os sermões ora ponderados, ora inflamados, os questionamentos ásperos que nos dirigia sem esperar por respostas, pareciam na mesma medida suaves e revoltos ao encontrarem nossos ouvidos. Foi dessa maneira que quis saber se gostava da ideia de estudar. Respondi que sim. Quis saber também se ajudava a Luzia em casa e, sobretudo, se temia a Deus. Luzia fez questão de recordar a dom Tomás do meu batizado por suas mãos para que não crescesse pagão. “São tantas crianças”, disse, justificando a falta de memória. Sem demora, informou que minhas aulas começariam logo após o início da Quaresma. Luzia poderia retirar o uniforme uma semana antes do Carnaval.
Guardei daquele encontro uma genuína felicidade. Poderia sair só de casa, teria um ambiente diferente para estar com outras crianças. Aprender a ler e a escrever era o passo firme a caminho do mundo adulto, mesmo que muitos dos que vivessem ao meu redor não tivessem tido a mesma oportunidade. Quem deixava a Tapera a caminho da cidade dizia ser preciso saber ler para encontrar as ruas, usar o transporte, se virar de todo jeito. Sem contar as chances de conseguir um trabalho melhor, que não exigisse tanto esforço físico, como o de meu irmão Joaquim carregando fardos do cais para o saveiro, e do saveiro para a cidade, e com o que mais trabalhava quando já se encontrava distante da Tapera.
O ambiente do mosteiro também era familiar. Eu já estava acostumado a acompanhar Luzia enquanto ela recolhia as roupas dos cômodos para lavar. Eu a seguia distraído com o movimento dos becos, das crianças correndo e brincando, dos animais do céu e das matas circundando as casas. Caminhava ora detido nos meus pés, ora observando a miríade de animais a tomar as mais diferentes direções. Olhava para o alto para identificar se havia nuvens ou não, quais seus atributos, se eram alvas ou encardidas feito as peças de roupa carregadas por Luzia. Quando não estava caminhando no mundo de minha imaginação, meus olhos a seguiam e se detinham na corcova erguida de suas costas, uma pequena casa de caracol carregada por Luzia para todo o sempre. A corcova não estava alinhada à coluna, se concentrava no lado esquerdo, abaixo da linha do ombro. Eu sentia vergonha quando as crianças apontavam para ela e riam, diminuía meus passos para estar cada vez mais distante. Às vezes, meu constrangimento quase desaparecia dando lugar à raiva e à vontade de brigar com os zombadores. Eu ameaçava atirar as pedras recolhidas do chão, ao passo que os meninos corriam, gritavam e riam da provocação. Muitas vezes senti pena e rezei por sua vida antes de dormir. Elevei meus pedidos a Deus, a quem ela dizia poder todas as coisas. Pedia para aliviar seu fardo, a miséria de seu corpo. Pedia que eu não precisasse andar distante. Que assim fosse para não sentir mais vergonha de caminhar ao seu lado.
Mas a aparente fraqueza de Luzia escondia também sua força. Nunca a vi se queixar dos males que a afligiam. Tampouco respondia quando alguém perguntava se havia nascido com aquele monte nas costas, se tinham sido problemas no parto da mãe, se esteve mal encaixada ou se era feitiço, praga ou mau-olhado. Esse era um assunto proibido em casa, ninguém falava e muito menos sabíamos como tudo havia começado. Chamar Luzia de corcunda era motivo para castigos, já que meu pai não permitia que se falasse mal de nenhum dos filhos.
Durante nossa caminhada, quando Luzia percebia que eu estava muito distante, largava as sacolas no chão e se voltava em minha direção, equilibrando a trouxa na cabeça, para perguntar por que eu demorava. Repetia que eu era distraído, lerdo e por isso andava cheio de machucados. Se tornava ríspida e me olhava por inteiro, para depois voltar ao caminho de sempre, equilibrando todo o peso que precisava carregar.
Mas era quando dormia ao seu lado que sentia seu corpo pequeno demais, finito demais para caber na correnteza de forças que afluíam em sua direção. Luzia parecia se iluminar como se tivesse nascido outra vez enquanto repousava do trabalho, longe das rezas e das obrigações. Quando me sentia pronto para me levantar da cama, mesmo atravessado por arrepios acompanhando meus medos, me postava em frente ao seu rosto e o contemplava na escuridão, nas linhas de luz que atravessavam as frestas da casa. Pensava sobre o que poderia sonhar, as tormentas sobre as quais nunca falava. Me perguntava se, apesar da rudeza de seus gestos a me manter afastado de qualquer possibilidade de afeto, ela seria capaz de gostar de mim.
“Como era a minha mãe?”, perguntei mais uma vez. Tinha os pés dentro d’água e segurava um graveto que fazia de caniço, sem nunca conseguir pegar um peixe. Já deveria ter feito aquela pergunta muitas vezes, mas as respostas de Luzia nunca me satisfaziam.
“Como no retrato que está na parede”, respondeu, sem me olhar, enquanto esfregava um lençol com os nós dos dedos.
Ela se referia à pintura em cores fixada na parede e que, de forma milagrosa, tinha sobrevivido ao incêndio. Nela, nossa mãe surgia na única imagem que eu conhecia – e era bem provável que não houvesse nenhuma outra. No retrato, mãe Alzira se apresentava com uma cor de terra e o cabelo ondulado na altura dos ombros, diferente do de Luzia. Ainda era possível ver uma pequena mostra de seu vestido azul. Com o envelhecer da imagem, aos poucos desbotada, ficávamos sempre em dúvida se era realmente azul, ou se verde.
O rosto de minha mãe estava inerte, mas não era somente na fotografia. Havia algo na posição de seus olhos que a fazia parecer indiferente ao que estava à sua volta. Não era possível distinguir traços de tristeza ou de contentamento. No mesmo retrato, meu pai se encontrava rígido e ostentava um bigode que nunca voltou a usar. Vestia terno e gravata que, de acordo com o que Zazau afirmava nas suas espaçadas visitas, nunca teria envergado, ou seja, era fruto da criatividade e do engenho do fotopintor. O rosto também era o mesmo do único documento que meu pai tinha, atestando que não havia posado para a fotografia. Meu pai e minha mãe juntos, uma união que parecia ir muito além do habitar a casa onde viveram. Diferentemente da mãe, meu pai tinha a pele mais clara, ainda que curtida de sol. Zazau garantia que nossa irmã Mariinha, que havia deixado a casa anos antes de eu nascer, sem nunca mais retornar, se parecia comigo. Meu irmão Raimundo, que nunca conheci, nem mesmo por fotografia, também. O fato é que em nossa casa essas pequenas diferenças provocavam debates sobre “barriga limpa” e coisas que eu não compreendia durante minha infância. Na Tapera, as pessoas eram de muitas cores, e os que tinham cabelo liso se diziam descendentes dos índios que ali viveram muito tempo antes.
As histórias da família de meu pai eram mais conhecidas do que as da família de minha mãe. Luzia repetia que Mariinha havia saído à nossa bisavó Didita, a avó de meu pai, “caçada a dente de cachorro”. Eu escutava as histórias atrás das portas, porque os adultos se recusavam a falar sobre determinados assuntos na presença das crianças. De tanto escutar escondido as conversas das irmãs, soube que a avó do meu pai era uma velha índia de cabelo longo e grisalho. Soube também que se sentava na beirada da mesma porta que dava para o quintal e picava fumo. Que quase não falava, mas sabia benzer criança e conhecia as ervas da mata. Era a única pessoa da beira do Paraguaçu que dizia ter visto o olho-de-fogo-rendado no topo de uma velha árvore emitindo seu trinado. Uma dádiva, diziam, que só quem se comunicava com o mundo dos mortos trazia consigo. Foi a Luzia que vó Didita se afeiçoou. Logo depois a família deixou a Tapera para trabalhar nas fazendas da região. Desse curto tempo juntas, Luzia dizia ter sido levada por Didita para cima e para baixo, se embrenhando pelas matas, canaviais e águas do Paraguaçu.
Mas quase nunca Luzia respondia às minhas perguntas, cada vez mais frequentes conforme eu crescia – e que aumentavam na proporção de minha curiosidade. Meus irmãos eram bem mais velhos do que eu e partiram da Tapera pouco a pouco, antes mesmo de eu poder perguntar sobre minhas inquietações. Luzia nunca estava disposta a responder, guardando sempre o semblante cerrado. Meu pai, nos momentos de revolta, dizia em alto e bom som que ela nunca se casaria porque ostentava uma carranca no lugar do rosto. A amargura parecia fazer dela uma mulher velha, como as que já perderam o tino pela vida ou tiveram demasiado tempo para descobrir que nada vale a pena e a vida pode ser um imenso fardo. Mas havia os raros momentos em que ela se desarmava por inteiro, punha um vestido florido surrado de domingo e se esquecia de seu terço e missal. Quando isso acontecia, era como se o tempo anunciasse uma visita esperada: Luzia se postava junto à janela, fechava os olhos de quando em quando. A cada aragem suspirava, e o peito subia e descia com o vaivém das águas sobre o mangue. Era tempo de abrir janela, de ver a casa iluminada, a luz ofuscando minha visão. Ela seguia até a cozinha para preparar cavacos. Fritava-os na banha de porco, polvilhava com açúcar e canela. Sabia da minha ansiedade e me permitia observar o preparo. Eu rolava a garrafa de aguardente vazia sobre a massa, e ela me dizia qual o ponto para que ficasse mais fina. Cortava com suas mãos pequenas. Dias raros em que de seu rosto despontava um sorriso, um botão de flor, deixando de lado o desgosto sem fim. Esse sentimento de paz e afeto me encorajava a perguntar mais uma vez:
“Você sabe como eu nasci?”
Eu sabia, mas gostava de ouvir Luzia contar outra vez, e outra vez, para ter a certeza de que nenhum detalhe havia me escapado. Só assim poderia saber mais sobre a mãe que não conheci.
“Minha mãe”, ela começava a contar sem olhar para mim, “sentiu dores numa noite de lua cheia”, e continuava retirando os cavacos fritos do tacho quente. “Ela já tinha muitos filhos. Estava variada das ideias e achava que faltava mais uma lua. Sentiu dor e foi para o rio à noite aquietar a barriga se banhando nas águas. Mas você não esperou mais uma lua e nasceu.”
“E meu pai?”
“O pai não andava por aqui, trabalhava na cidade.”
De repente a memória de Luzia parecia se embotar porque não dizia mais nada que eu não soubesse. A cada vez que eu perguntava, respondia algo diferente. Certa vez ela me disse que a mãe andou comigo no colo sem cortar o umbigo e foi sozinha para casa. De outra vez tinha sido ela, a própria Luzia, a sentir a falta da mãe no meio da noite. Terminou por encontrá-la com a criança nos braços.
“Mas eu nasci na beira do rio ou dentro d’água?”
Nesse instante seus olhos brilhavam. O rosto se voltava para o mundo além da casa, buscando um sopro de vida entre a mata e a aldeia, tentando encontrar a recordação da história nos movimentos das árvores e dos animais.
“Ela estava tão relaxada na água que o menino escorregou feito um quiabo. Mas ela coou você na camisola que vestia. Por isso, quando chegou em casa e contou pra todo mundo, lembrou de uma história ouvida nas missas” – se benzeu –, “a do menino que apareceu num cesto atravessando o rio e foi pego pela filha do faraó.”
Por um momento eu ansiava que Luzia afagasse minha cabeça. Seus olhos estavam tomados de emoção. Ela se desarmava, deixava de lado sua prontidão para as batalhas contra o mundo. Eu me enredava naqueles fiapos de recordações e avançava querendo saber mais.
“E por que a mãe morreu?”
De repente, era como se um pássaro tivesse sido atingido por um estilingue no alto de seu voo. Luzia baixava os olhos, o rosto se crispava, encolhia os ombros e a corcunda parecia crescer ainda mais.
Interrompia a conversa.
“Chega, já fez pergunta demais.”
Eu sabia que não poderia prosseguir.
Trecho do livro Salvar o Fogo, que será lançado no fim de abril pela editora Todavia.