questões ludopédicas
Leonardo Villa-Forte Fev 2023 16h01
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I
Ao longo de 22 Copas do Mundo, 15 diferentes treinadores encabeçaram a equipe da Seleção Brasileira. Até 2022, desses 15, somente 2 haviam recebido a chance de ocupar o mais alto cargo esportivo do país em duas edições seguidas do torneio mundial. Adenor Leonardo Bacchi, conhecido como Tite, tornou-se o terceiro a realizar a façanha. O gaúcho de Caxias do Sul, ainda assim, talvez tenha cumprido uma façanha mais relevante: no curso desses anos barris de pólvora, marcados radicalmente pela discórdia e a desarmonia, Tite foi a figura nacional que mais se aproximou da unanimidade. Enquanto famílias se dividiam, uma estranha calmaria pairava na Seleção.
No intervalo entre os dois mundiais dos quais participou, Tite conquistou alguns bons resultados, como a Copa América de 2019 e uma boa campanha nas eliminatórias para 2022. Contudo, não foi raro acompanhar comentaristas e torcedores debatendo mais sua linguagem e postura do que as jogadas que aconteciam ou deixavam de acontecer nas partidas da equipe. Para isso colaborou o fato de que os adversários escolhidos – em sua maioria, seleções de baixa competitividade – não ajudavam a chamar a atenção para os jogos. Com gosto pela expressão exata, dedicado à fala bem articulada e adepto das coletivas-palestras, Tite fazia com que por vezes o mais surpreendente acontecesse fora dos gramados. Não demorou para jornalistas batizarem seu idioma particular – “titês” –, o qual diferia brutalmente daquele do seu antecessor.
Tite foi o substituto de Dunga, o treinador que acabou marcado por rusgas com a imprensa e por certa ignorância histórica ou, no mínimo, uma dificuldade para se expressar: “Como vou falar da época da ditadura se não vivi? Posso dar meu parecer… Quem esteve lá, quem sofreu, esse sim pode dar opinião. Eu não posso dizer que a ditadura era boa, era ruim, [se] eu quero que volte. Só quem viveu é que pode nos dar a resposta”, disse Dunga em uma entrevista coletiva em 2010. Sinal dos tempos. No âmbito do discurso público, a relativização perigosa expressa pela declaração de Dunga foi ganhando espaço, até que o comedimento se esvaziou e deu lugar a francos elogios à ditadura, capitaneados por um deputado do baixo clero.
O período de Jair Bolsonaro na Presidência coincidiu com o ciclo de preparação completo de Tite na Seleção. E, me parece, facilitou certa boa vontade com o treinador. Vivíamos uma atmosfera bélica e sufocante, na qual a cada dia nos era apresentada uma nova forma de exaltação da indiferença. Estávamos carentes de uma figura midiática de comportamento afável, gregário, que transmitisse algum conforto – ou menos desconforto. Por meio de uma comunicação terna, respeitosa e doce, Tite nos deu o que precisávamos.
Não estou sugerindo que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tenha se preocupado com a saúde mental dos brasileiros. Em meio a estrondosos casos de corrupção em sua cúpula, parece ter sido uma jogada esperta manter sob a luz dos holofotes, como um anteparo de boa índole, um treinador que, além do excelente currículo, mostrava-se zeloso e notavelmente benquisto. Assim, a CBF ainda poderia gozar de uma bem-vinda imagem de instituição equilibrada, com foco em resultados a longo prazo.
Antes de ser contratado para a Seleção, Tite conduzira o Corinthians às conquistas de uma Copa do Mundo de Clubes, uma Libertadores da América e dois campeonatos brasileiros de futebol, deixando claro que era o técnico de maior capacidade no cenário nacional. Mesmo depois da eliminação na Rússia em 2018, sua manutenção no comando da Seleção não encontrava resistência: torcida, comentaristas, cartolas, patrocinadores, peladeiros, todos passavam pelos dedos o baralho de treinadores à disposição, uma carta após a outra, e nenhuma delas brilhava mais promissora do que a já deitada na mesa. Configurou-se assim um começo e ao mesmo tempo uma continuidade – oportunidade rara no futebol brasileiro.
Quatro anos depois, a comissão brasileira desembarcou no Catar. O que vimos foi um time um pouco mais insinuante e ousado. Bem pouco. Foi como se Tite apresentasse o seu filme clássico, agora em nova versão com cortes do diretor. A história era a mesma, a estética permanecia inalterada e, embora nos deparássemos com alguns personagens novos, uma ou outra cena que o trailer não previa, nada que pudesse resultar em diferença significativa foi acrescentado. Como quatro anos se passam sem que uma jogada ensaiada certeira tenha entrado para o repertório da equipe?
No fim, chegou-se ao mesmo lugar do torneio anterior: eliminação nas quartas de final para uma seleção europeia historicamente pouco competitiva – embora, sejamos justos, Bélgica e Croácia vivessem boas fases quando nos enfrentaram. Longe do choque causado pela fratura exposta que foi o 7 a 1, a despedida da Seleção de Tite na Copa de 2022 provocou um desconcerto. O que fazer depois que fizemos tudo certo e mesmo assim não deu certo?
Diferente de outros tempos, a reação à mais recente eliminação parece render análises menos apaixonadas. A própria CBF preferiu não dar uma resposta repentina. Ao falhar duas vezes seguidas com o mais bem avaliado treinador brasileiro, qual critério pode ser considerado seguro para balizar a escolha do novo treinador? A eliminação mais recente aponta para a contratação de um técnico estrangeiro, já que o melhor brasileiro não chegou aonde gostaríamos. De qualquer forma, é uma indicação mais difusa e encontra resistência interna, de modo que os caminhos apontados pela eliminação de 2022 detêm contornos menos visíveis do que os apontados pelas anteriores.
A farra na preparação em 2006 indicou um rumo regrado para a equipe em 2010. O insucesso seguinte com o rígido Dunga, um estreante na função de técnico, apontou para a necessidade de um treinador profissional comprovadamente capacitado – o multicampeão Muricy Ramalho foi convidado, mas recusou o convite. O colete da CBF caiu então num treinador mais jovem, porém com alguma trajetória e em ascensão, Mano Menezes. Que teve seu processo interrompido por motivos políticos justamente quando encontrara o melhor estilo de jogo para a sua equipe. A mentalidade esdrúxula dos dirigentes da época, diante da realização do torneio no próprio Brasil, considerou que, para a festa ficar completa, deveria reunir uma comissão técnica experimentada e medalhada, uma espécie de superbanda de veteranos que juntou os dois últimos campeões mundiais, Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira. Era como reunir Erasmo e Roberto Carlos aos 80 anos e exigir que fizessem o melhor show de suas vidas. O fato de que Felipão e Parreira não vinham apresentando trabalhos à altura do cargo parecia mero detalhe. Deu no que deu. E assim chegamos a 2018, quando a eliminação da Seleção de Tite apontou serenamente para sua permanência.
Considerado o nível de importância que o povo brasileiro costuma dar à participação brasileira em copas, e embora algumas vozes de destaque – como Tostão e Mauro Cezar Pereira – tenham apontado com perspicácia as falhas no processo, a preparação para o mais recente torneio, no geral, parece ter sofrido menor escrutínio do que em anos anteriores. A desatenção não aconteceu só com a crítica. Na medida em que a data do torneio se aproximava, pipocavam matérias sobre ruas pintadas e bandeirinhas verdes e amarelas penduradas Brasil afora. O tom predominante era o de tentar convencer que o povo continuava, sim, engajado nesse tipo de tradição – tom esse que já indicava uma adesão não tão animadora.
As causas são inúmeras. Pelo prisma da formação histórica da sociedade brasileira, uma hipótese é a de que, nos últimos dez anos, o sujeito cordial deslocou parte da sua passionalidade do futebol para a política. Entretenimento e identidade seriam as chaves. De 2013 para cá, a cobertura em alguns veículos fundiu a política nacional com o espetáculo, a farsa, a performance. A política se tornou um veículo de maior entretenimento do que o futebol (principalmente o de seleções). Mas não só isso. A política também se tornou um indiciador mais relevante de identidade, conferindo às pessoas um lugar poderoso de acolhimento, pertencimento e autorreconhecimento, ainda mais determinante do que aqueles tradicionalmente encontrados nos estádios e bares em dia de jogo. Dizer-se de esquerda, de direita, isento ou de extrema direita passou a ser um dado mais decisivo na percepção de identidade do que se dizer torcedor do Vasco, do Santos, do Cruzeiro, do Fortaleza ou do Grêmio. A camisa amarela era mais um símbolo de apoio à agenda do ex-presidente do que à Seleção. A política esvaziou o Fla-Flu ao tornar-se o próprio Fla-Flu.
Sem dúvida, a lacuna afetiva entre a torcida e os jogadores contribuiu para o futebol perder espaço para a política. Entre os jogadores frequentemente convocados, muitos deles estão atuando no exterior sem terem constituído uma forte relação prévia com os torcedores no Brasil. No entanto, o mais determinante para esse deslocamento de paixão foi o sequestro que bolsonaristas fizeram da camisa verde-amarela e pelo apoio explícito do maior craque brasileiro de sua geração ao político que mais ameaçou a democracia em quase quarenta anos. Esses dois elementos contribuíram para que o povo continuasse investindo certa atenção na Seleção, só que mais pela identificação ideológica dos jogadores do que pelo jogo que se praticava em campo. Assim os brasileiros deslocavam suas energias para a política e, ao mesmo tempo, empurravam a política para o futebol.
Tite não ficou imune. Cerca de um ano antes do Mundial de 2018, seu nome aparecia nas pesquisas para presidente do Brasil. Chegou a galgar 15% da preferência em uma delas. Partidos políticos sondavam o treinador para uma possível filiação. Àquela altura, ele acumulava 17 vitórias, 3 empates e apenas 1 derrota em dois anos no comando da Seleção. Nas entrevistas, Tite palestrava sobre competitividade com lealdade, mérito esportivo e ética, e condenava a corrupção e a impunidade. Carente daquilo que costumamos chamar de “bons exemplos”, a maior parte dos brasileiros o abraçou. Talvez até por um ímpeto justo e inconsciente de se diferenciar da instituição que o empregava, Tite empunhou a bandeira do jogo limpo e subiu ao pódio da lisura, contrapondo-se à degradação do cenário político.
Até que veio a pandemia e o contraste se mostrou forte demais. Deu-se aí uma curiosa queda na sua aceitação. Era junho de 2021 e os registros contavam mais de 460 mil mortos no país. O prognóstico era angustiante: uma nova cepa do coronavírus parecia se aproximar. A Colômbia se preparava para dividir a sede da Copa América com a Argentina, mas, diante da pandemia e de uma onda de protestos contra um projeto de reforma tributária, desistiu. A Argentina também abriu mão de sediar o evento. O populista Bolsonaro viu uma oportunidade midiática e colocou o território nacional à disposição da Conmebol, a entidade máxima do futebol sul-americano. De uma hora para outra, a Copa América ganhou sede no Brasil. Tite não se furtou a mostrar seu desacordo. Afirmou que a organização do evento seria “atabalhoada”, criticou a Conmebol – pelo que foi multado em 5 mil dólares – e a decisão da CBF. Os jogadores também não gostaram de saber da novidade pela imprensa. Os jornais noticiaram que os convocados e a comissão técnica debatiam internamente um boicote à Copa América. Bolsonaro ficou furioso e fez chegar à CBF que não aceitaria tamanho vexame. Nisso, o “Fora Tite!” e o “Tite comunista” se multiplicavam na internet. Um deputado da base governista se pronunciou: “Quem quer desgaste para o governo está vibrando com isso. Mas o Tite é o grande culpado. Eu não quero, jogando pelo Brasil, jogadores que não são patriotas. É uma vergonha. O Tite é um esquerdista, mas tem que saber respeitar.” Em seguida, defendeu a troca de Tite pelo treinador Renato Gaúcho, bolsonarista declarado. Havia rumores de que Bolsonaro chegou a pedir a cabeça de Tite ao então presidente da CBF, Rogério Caboclo, mas quem acabou caindo logo em seguida foi o próprio Caboclo, derrubado por denúncias de assédio moral e sexual.
Foi o pior momento na relação entre o técnico e o presidente da República. O treinador passou a sofrer críticas que não enfrentara até então. Bolsonaristas inundaram as redes com a lembrança de que, ainda no Corinthians, Tite visitou o corintiano Lula para lhe mostrar o troféu recém-conquistado da Libertadores. As acusações e questionamentos a Tite, no entanto, passavam ao largo do seu trabalho. Eram dirigidos ao seu discurso e às suas inclinações políticas. Assim chegamos à beira da Copa de 2022. Se um grupo desgostava da personalidade de Neymar e repudiava seu apoio a Bolsonaro, outro grupo se recusava a apoiar a equipe comandada por um comunista, que usava boina com estrela, broche do Che Guevara e saudava a foice e o martelo soviéticos, como qualquer um poderia comprovar pela imagem circulando em grupos de WhatsApp bolsonaristas com a legenda “Petite, o técnico militante” – imagem essa, obviamente, manipulada.
O governo Bolsonaro soube usar as palavras como ferramentas de efeito performático. Ao mesmo tempo em que elas valiam pouco como signos ancorados em significantes e dados verídicos, as palavras valiam muito, por seu poder de falseamento, contaminação, sugestão e ocultamento. A extrema direita brasileira fez da palavra uma hospedeira agonizante de uma estratégia de desorientação exaustiva – calcada em um estilo de expressão raivoso, cínico, beligerante. Assim, nesses anos de onipresença de Bolsonaro, a figura de Tite foi um bálsamo. O presidente do país urrava e tentava se livrar das formalidades a golpes de coices, avacalhando um meio burocratizado, de rituais previstos e mediado por leis. Concentrado e estudioso, Tite jogava luzes sobre o canto oposto. Com suas expressões, tentava domar o indomável. Empenhava-se para trazer racionalidade e exatidão ao fugidio. Conceitos como “treinabilidade” e “jogador terminal” propunham uma nova e extravagante legibilidade ao futebol. Se para Carlos Alberto Parreira o jogo é uma projeção do seu intelecto, para Zagallo do seu destino e, para Felipão, da sua alma – como diagnosticou José Miguel Wisnik –, podemos dizer que para Dunga o jogo é uma projeção da sua disciplina e, para Tite, do seu vocabulário. O treinador procura as palavras como quem enxerga nelas um meio confiável para a tradução mais exata e honesta de como vê o futebol.
Embora houvesse quem não suportasse mais seu estilo coach dos neologismos, Tite nos descansava da violência verbal onipresente. Às vezes suas expressões até rendiam uma piada leve, que só quer tirar sarro, sem a desgastante obrigatoriedade de provar um ponto. Análises mais rigorosas sobre a qualidade do seu trabalho prático encontraram um difícil oponente na amabilidade dos gestos e do discurso do treinador. Foi assim que, da eliminação em 2018 até a segunda chance na Copa de 2022, a figura de Tite, apesar dos solavancos, nunca perdeu o apoio da maior parte dos jornalistas e da torcida.
É curioso que o inverso tenha acontecido com o principal jogador da sua equipe. Se, nesses anos, o discurso e a postura de Tite envolveram o público enquanto seu trabalho decepcionava, Neymar se consolidou em campo como o maior jogador de sua geração, ao mesmo tempo que escutava muxoxos de grande parte do povo, que guarda pelo craque – legítimo herdeiro do futebol à brasileira – uma tremenda antipatia.
II
Seis meses após a final da Copa de 1970, quando o Brasil venceu a Itália e conquistou o tricampeonato com um futebol vistoso liderado por Pelé, o cineasta e poeta Pier Paolo Pasolini publicou no jornal Il Giorno o artigo O Futebol É uma Linguagem com Seus Poetas e Prosadores. Para o bolonhês, o futebol de prosa seria o gênero de jogo que aposta na sucessão linear de passes até o último toque na bola concluir para gol. É um jogo sistematizado, em que cada jogador tem uma responsabilidade tática dentro da engrenagem, dado que o início e o fim das jogadas são preconcebidos. Ações de efeito estético são garranchos de egoísmo estragando o texto limpo. Nesse gênero, o drible inesperado quebra a linearidade da sucessão de passes e desestrutura o planejamento cuja meta é o gol.
Já para o futebol de poesia, os esquemas seriam esboços do que pode acontecer ou não. A jogada é invertebrada por natureza. O espaço é oferecido à capacidade de invenção que subverte a linguagem funcional. Qualquer jogador, de qualquer posição, de longe, de perto, de cabeça, de bico ou de calcanhar pode concluir para o gol. Conta-se já de saída com o improviso, o que é inaceitável para uma planilha.
Embora a distinção especulada por Pasolini coubesse bem à sua época e hoje soe um tanto estanque, o próprio fato de que pôde ser elaborada é uma lembrança de que, dos esportes com bola, o futebol é aquele que mais aceita lances improdutivos. Diferente do basquete, não há um limite de tempo de retenção da bola. Diferente do vôlei, uma jogada não se restringe ao máximo de três toques. No futebol, pode-se passar para lá e para cá indefinidamente. Sem isso, o que seria dos gritos de “olé”? Essa brecha ociosa permite que os jogadores inventem formas de ocupá-la, o que alarga as possibilidades de expressão de uma cultura.
Ao longo da segunda metade do século XX e neste século XXI, o Brasil se inseriu e se diferenciou no contexto mundial principalmente a partir do legado deixado por descendentes de africanos na formação da sua cultura. O futebol e a música brasileiros ecoam por todos os continentes como referências de qualidade. Em relação ao futebol, no que consiste a nossa diferença? Na ontologia dos movimentos do futebol à brasileira, encontramos uma centralidade no domínio de bola individual. É o drible, é a embaixadinha, a pedalada, o blefe, o chapéu, o elástico, é o jogo proposto por um corpo. É a ginga.
Na capoeira, “ginga” pode remeter a uma perfeita coordenação de movimentos do corpo que o capoeirista executa a fim de distrair a atenção do adversário e torná-lo vulnerável à aplicação dos seus golpes. É o balançar o corpo de uma determinada forma, com destreza, desenvoltura, molejo, requebrado. Pesquisador de performances de corpos subalternizados em movimento, Ricardo Nascimento, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, propõe a ginga como um elo que permite analisar como vidas subalternizadas produzem suas existências sociais, discursos e recursos de enfrentamento numa sociedade que as rejeita. Cristina Rosa, do Departamento de Dança da Universidade de Roehampton, considera a ginga um formato estético, uma forma de flexibilização muscular que, partindo da articulação das pernas e das ancas, propaga-se por todo o corpo – como nos dribles em que Garrincha entorta o adversário sem nem tocar na bola, ou nas pedaladas imparáveis de Ronaldo, em processo de atualização por Vinícius Júnior. Com os corpos em jogo, a ginga seria capaz, como diz Nascimento lendo Rosa, de produzir conhecimentos e visões do mundo que se contrapõem ao pensamento ocidentalizante. A versão mais difundida para a origem da palavra “ginga” diz que é uma derivação do nome de Nzinga Mbandi, rainha de Dongo e Matamba que combateu o tráfico de escravizados e liderou guerras contra o colonialismo português. Séculos depois, foi consolidada como heroína nacional durante a independência de Angola.
Tanto Cristina Rosa quanto Ricardo Nascimento ressaltam que a ginga é uma linguagem que participa do campo estético, indo além do seu lugar na capoeira e tomando parte em outras práticas africanas da diáspora. Em sua origem, o futebol não é uma delas. Iniciado no Brasil pelos filhos dos ingleses e escoceses que vieram a São Paulo trabalhar em companhias ferroviárias no fim do século xix, foi só com a profissionalização do esporte, em meados da década de 1930, que homens negros passaram a ser mais bem aceitos nos times de futebol. Daí em diante, os descendentes de escravizados assumiram um lugar de destaque e deram uma forma brasileira ao jogo, praticando-o com a ginga, que, para Nascimento, expressa “uma forma de agir sobre o mundo a partir da gramática interpretativa da cultura afrodiaspórica”. É nesse sentido que o futebol brasileiro é praticado por Neymar, com fintas de cintura, chapeuzinhos para trás, pernas que escondem e fazem surgir a bola. É uma expressão de resistência. Ceder completamente às práticas do Norte, e ao seu jogo pragmático, é perder a ginga que nos constitui e produz a diferença do nosso futebol.
Diferenças que nascem já pelo chão em que se pisa. Na América do Sul, o futebol foi forjado no chão irregular, transformado em campo pela imaginação de jovens sem carteirinha de sócio de clube. Como trocar passes em estratégia pré-programada nesses terrenos? A “pelada” se joga no campo sem pelo, ou seja, sem grama. Os obstáculos acabam por condicionar uma prática do domínio da bola no pé e do contorno, “espécie de futebol que se joga apesar do chão”, como escreve Chico Buarque na crônica O Moleque e a Bola.
Como atacante do Manchester United, Antony, criado jogando nos terrenos irregulares da favela do Inferninho, em Guarulhos, São Paulo, vem recebendo críticas por realizar um movimento de efeito em que gira duas vezes em torno de si mesmo, sem sair do lugar, com a bola dominada no pé, no chão. Só com um domínio exímio para não deixar a bola escapar enquanto gira-se por 360 graus o corpo, duas vezes. O movimento é fluido – Antony parece pentear a grama com a bola. É até uma exposição travessa de intimidade: Antony, bola e gramado alinhados e risonhos, enquanto o resto fica em segundo plano. O movimento não deixa de ser útil para distrair o adversário ou reter a bola quando for vantajoso. Mas para o ex-meio-campista Paul Scholes, ídolo histórico do próprio United, o movimento de Antony “é ridículo. É apenas exibicionismo. Ele não está entretendo ninguém, não está tentando passar por ninguém, depois erra o passe. O que ele está pensando? Ele precisa cortar isso do jogo dele”.
A formação do estilo de jogo de Antony está profundamente relacionada à violência cotidiana típica de contextos sul-americanos subalternizados. Se não conseguia evitar uma realidade de crimes e mortes em sua comunidade, ao menos na quadra, onde todos eram iguais, driblava seus agentes. Assim, o garoto sublimava a realidade imediata. E, como uma via de escoamento da indignação contra a brutalidade da vida, o futebol não poderia ser a realidade última da própria vida – esta é dura, violenta, injusta, enquanto o futebol, reconhece Antony, é uma outra coisa onde ele brinca e inventa: “Na Europa, onde tem pão na mesa todas as noites, às vezes, as pessoas esquecem que o futebol é um jogo”, disse ele, numa entrevista. “Um jogo bonito, mas ainda assim um jogo. E a vida é que é séria, pelo menos para aqueles de nós nascidos nos Inferninhos mundo afora.”
Assim como Antony, mas desde cedo muito mais letal que o colega, Neymar da Silva Santos Júnior é herdeiro desse jogo que se joga apesar do chão. À medida que Neymar avança à procura do gol, há chances iguais de que venha a cair ou levitar. A sua constituição leve e a trajetória imprevisível de suas arrancadas lembram a bola Dente de Leite. É uma bola de borracha, levíssima, fabricada pela Estrela entre os anos 1980 e 1990. Você chutava para a esquerda, a bola subia, fazia a curva, tremia no ar e, antes de completar o seu arco, caía rodopiando como quem desiste repentinamente, no lado direito. Uma bola temperamental, frágil, desobediente.
O futebol de Neymar difere do de Lionel Messi ou de Cristiano Ronaldo por uma falta de acabamento fino. A questão não é de técnica, mas de concepção. Ao iniciar uma jogada individual, o português parece já tê-la inteira na cabeça. Movimenta-se decididamente como quem cumpre etapas de um percurso prefigurado. Seus erros são erros de previsão, quando uma ação adversária interfere no que havia projetado. Messi, por sua vez, exibe uma combinação primorosa da prefiguração com o improviso. O argentino investiu o máximo de objetivo que o futebol de poesia suportaria para se tornar prosa. Messi torna-se um com a bola.
Neymar não prefigura a jogada inteira, pelo contrário, vai superando um obstáculo de cada vez. Ganha o campo de um em um. É um tempo de criação picotado: cada movimento é um novo início. Em sua jogada típica, ele parte da ponta ou da meia-esquerda com a bola dominada, dirigindo-se para a meia-lua, e a cada adversário driblado Neymar testa se o caminho já está aberto para o chute. Nesses dribles à procura do espaço livre, Neymar passa do primeiro, passa do segundo, avalia que terá um caminho mais aberto ao passar pelo terceiro, acaba driblando o quarto e de repente se vê no outro extremo da área, de onde o chute sai, nem sempre com perigo. Às vezes, antes de concluir a jogada, entende que se distanciou demais do ponto ótimo para o chute e passa a bola. Os erros não são de projeto, pois não há projeto. São erros técnicos, de quem não executou o movimento específico que um determinado instante pedia. Porque confiou demais que no instante necessário entenderia – e faria – o que tinha de fazer.
Neymar trabalha com o risco. Por vezes, deixa a bola tão desguarnecida que faz o adversário acreditar que pode tomá-la. Então o brasileiro dá uns passos para trás, estabelece um espaço entre os dois e cria como que uma zona autônoma dentro do jogo, repleta de tensão, uma zona em que a objetividade não é a regente. É um tempo dentro do tempo. Críticos dizem que Neymar atrasa o jogo, mas penso que ele muitas vezes cria um novo jogo dentro do jogo, como que num conjunto de bonecas russas, uma dentro da outra. Neymar pode criar um jogo com o jogo ou criar um jogo em detrimento do jogo. Essa avaliação só pode ser feita a posteriori. A tipologia da jogada vai depender do quanto o coletivo influenciará na sequência proposta por Neymar. Se ele se aproveitar dos colegas – passando a bola para um deles, ou avançando com a bola dominada por um espaço que um companheiro abriu para ele –, a sua proposta terá se configurado em um jogo dentro do outro. Se, depois de estabelecer essa zona autônoma, Neymar executar uma jogada independentemente das possibilidades geradas pela movimentação dos seus colegas, aí sim ele terá dividido o jogo em dois. A capacidade de dividir – o jogo ou a torcida – é onde o futebol de Neymar e a imagem de Neymar ironicamente se encontram.
Quando Neymar surgiu em 2009, 2010, impressionava o fato de que, diferente de outros jovens destaques surgidos no Santos, ele aliava habilidade e criatividade com qualidade na conclusão a gol. Uma de suas raridades era – e é – chutar e passar a bola com as duas pernas sem que haja uma grande diferença de precisão. O garoto parecia talhado tanto para impressionar as plateias com sua habilidade, assim como para ajudar a equipe com gols e assistências.
Seu talento absolutamente fora do comum levou Neymar a ser pressionado desde cedo, pelo público e pela crítica, a um dia ser o melhor do mundo (promessa na qual ele mesmo acreditou), e Neymar joga hoje como quem tem uma dívida a pagar. Foi para Paris porque queria pagá-la. Diferente de sua transferência do Santos para o Barcelona, não havia qualquer motivo esportivo em trocar o Barcelona pelo Paris Saint-Germain, a não ser ganhar o palco todo para si e cumprir o que lhe parecia um destino. Talvez o jogador mais surpreendente do século XXI em termos de repertório, Ronaldinho Gaúcho, depois de ser melhor do mundo e ganhar tudo o que podia com o Barcelona e a Seleção Brasileira, decidiu-se por esquecer a prosa e só fazer poesia. Seus vídeos editados no YouTube são antologias incomparáveis de seus melhores poemas. Amostras de tudo o que um jogador ofensivo pode oferecer ao futebol. Mas, depois do Barcelona, assistir às suas partidas inteiras era aceitar que a vida muda. Ele já não tinha desafios, nem mais nada a provar para ninguém. Exceto pelo período de dois anos no Atlético-MG, onde chegou com sangue nos olhos depois de sair escorraçado do Flamengo, ele se permitiu, antes mesmo de encerrar a carreira, viver como um sujeito que quitou seus débitos. Neymar, frequentemente comparado a todos os grandes craques brasileiros, mas sem nenhum prêmio de melhor do mundo, nenhuma Copa conquistada, parece viver num estado de moratória ilimitada, a qual, para o bem de todos, será debatida e talvez renegociada nos próximos anos até a próxima Copa.
III
Primeiro, era Ronaldinho. Quando cresceu, ganhou o aposto de Fenômeno. Então chegou o Ronaldo mais novo, do Grêmio, que herdou o Ronaldinho e acrescentou a ele o Gaúcho. Mais tarde, Ronaldinho Gaúcho virou o Bruxo. Adriano virou Adriano Imperador. Romário era o baixinho, às vezes até baixola. Temos Kaká, Bebeto, Cafu, Zico, Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Dunga, Júnior, Tostão, Zinho, Zizinho, Zito, Edinho, Grafite, Luizão… Sócrates, o Magrão. Gérson Canhotinha de Ouro. Jairzinho Furacão. Luís Fabiano, o Fabuloso. Leônidas, o Diamante Negro. Carlos Alberto Torres é o Capita. Tem o Tita, o Lico, o Fio, o Fred, o Manga, o Ganso, o Dida, o Pombo, o Hulk e o Neymar. Que é só Neymar mesmo.
É um dos poucos craques da nossa história sem um apelido – essa forma tão brasileira de driblar a distância. Creio ser um sinal de sua relação pouco calorosa com a torcida brasileira. Por algum tempo, Galvão Bueno o chamou de “Menino Ney”, mas não pegou, a não ser ironicamente. Já a família-empresa tentou emplacar “Neymar Júnior”, o que não o aproxima de ninguém a não ser de sua logomarca, NJR, e de seu pai.
Até os técnicos que treinaram Neymar na Seleção são tratados por apelidos, Felipão, Dunga, Tite… Se pesquisarmos pela origem do apelido “Tite”, ficaremos sabendo que Tite, à época apelidado de Ade, tinha um amigo com quem jogava bola pra cima e pra baixo, até que os dois foram convidados a fazer um teste no time de uma escola. O amigo, que jogava melhor, faltou ao teste. O treinador então se confundiu, ou achou que Ade não pegava bem, e chamou o amigo pereba pelo apelido do amigo bom de bola, o Altemir, cujo apelido era Titi. Mais tarde, Adenor mudou a grafia de Titi para Tite. Curiosamente, aquele treinador que fez Ade virar Tite era o jovem Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Todo apelido conta uma história e encurta uma distância. Nesse caso, mostra também um traço de comportamento do jovem Tite: em uma idade em que os garotos costumam querer afirmar a sua individualidade, ele aceitou o acaso de um apelido que em nada tinha a ver com seu nome, sua aparência, seu jeito de jogar, seu temperamento ou o local onde nasceu.
Quando um apelido como Zico, Dida ou Tite se torna o nome de tratamento de um jogador ou treinador conhecido é porque a maneira como seu círculo mais íntimo o trata transbordou para o público. O movimento é o da intimidade rompendo filtros e escorrendo para o exterior. Com Neymar aconteceu o contrário – o círculo familiar quis ditar como ele seria chamado. “Neymar Júnior” é uma imposição de oficialidade, não um transbordamento de intimidade. Não foi o povo que adotou o uso de um apelido, aproximando-se do jogador, mas a família quis trabalhar um nome mercadológico e patriarcal para que fosse usado pelo público. No Brasil não funcionou. A sensação é a de que o povo não consegue colocar Neymar no colo. Alguma coisa em sua figura não combina com a regência típica dos afetos brasileiros. Afinal, vivemos em um país onde aceitamos e estimulamos a quebra de formalidades em prol de tratamentos pessoalizados. Não tenho dúvidas de que o apelido de Tite o protegeu, vez ou outra, de algumas críticas justas que ele sofreria com mais facilidade se atendesse por Adenor Bacchi.
Se Neymar em campo é um legítimo herdeiro do que de melhor produziu o futebol brasileiro, de onde vem tanta antipatia por ele? Será pela sua visão política? Pelos problemas com a Receita Federal? Ou pela forma litigiosa com que saiu dos clubes onde jogou, embarreirando a devoção reservada aos ídolos absolutos? Será inveja de seu exorbitante patrimônio? Será pela sua atitude birrenta e rançosa dentro de campo? Qualquer que seja o motivo, haverá um substrato de racismo? Ou estamos frustrados por Neymar não cumprir à altura as expectativas que nele depositamos como maior jogador brasileiro de sua época?
A antipatia não foi construída de repente, nem foi a regra de saída. Tenho uma hipótese de como Neymar está formado no imaginário dos brasileiros. A estreia do atacante em copas do mundo aconteceu em 2014, no Brasil. Como Dunga não o convocou para a Copa de 2010 na África do Sul, sonegando ao jogador uma oportunidade relevante de amadurecimento e de convivência com astros maiores do que ele, Neymar foi para o seu primeiro torneio mundial já como estrela absoluta da equipe, um tipo de pressão não experimentado nem por craques vitoriosos como Messi, Ronaldo, Romário e até Pelé.
Da sua primeira Copa de 2014, a imagem mais marcante de Neymar é sofrida: trata-se da entrada violentíssima que sofreu por parte de Juan Camilo Zúñiga. O lateral-direito colombiano acertou uma joelhada na parte inferior das costas de um Neymar desprevenido, o que ocasionou uma fratura na vértebra lombar do brasileiro, lamentavelmente inviabilizando sua continuidade na competição. Médicos dizem que, se fosse 2 cm a mais para um dos lados, Neymar perderia o movimento das pernas. Mesmo em meio à comoção, a homenagem que seus colegas lhe fizeram no jogo seguinte o colocou em maus lençóis. Ao chegar ao estádio do Mineirão, toda a equipe vestia bonés com mensagens de #ForçaNeymar. No momento do Hino Nacional, o zagueiro David Luiz e o goleiro Júlio César empunharam juntos uma camisa 10 de Neymar e gritaram o hino a plenos pulmões, como se estivessem chorando a morte recente de um amigo amado. Se, por um lado, demonstraram que o craque era muito querido pelo grupo, por outro denunciaram que, para o próprio grupo, Neymar parecia maior do que o grupo. No dia anterior, na concentração, em vez de estudarem como a Alemanha vinha jogando, alguns dos jogadores estavam elaborando como fariam para conseguir tantos bonés, faltando pouco tempo para o próximo jogo. Parecia ser mais importante dar força ao contundido Neymar, àquela hora já descansando no Guarujá, do que ao inexperiente e franzino Bernard, que jogaria em seu lugar contra os grandalhões da Alemanha.
Em 2018, Neymar chegou à Rússia disposto a fazer daquela Copa a sua Copa. Sua cena mais marcante nessa competição se deu no terceiro jogo da fase de grupos, um embate entre Brasil e Sérvia. Na altura do 31º minuto do primeiro tempo, o atacante brasileiro vem carregando a bola junto à linha lateral esquerda em direção à área adversária até que, de repente, recebe um carrinho do meia Adem Ljajić. Neymar cai. E cai. E cai mais um pouco. Alguns segundos depois, Neymar provavelmente já era um recordista como jogador que mais voltas deu em torno do próprio eixo. Demorou para compreendermos se deveríamos rir da cena espalhafatosa ou nos sentir humilhados pela diversidade, rapidez e criatividade acachapantes que, de todos os cantos do planeta, fizeram surgir memes e gifs com o atacante nunca parando de rolar em campo.
Essas duas cenas revelam algo de como Neymar se formou em nosso imaginário. Na primeira Copa, a imagem é pungente e dolorida. Na segunda, quase circense. Em uma Neymar é vítima. Na outra, faz-se de vítima. Alguma coisa sobre quem Neymar é para nós pode ser vislumbrada com a sobreposição dessas imagens. Afinal, entre a dor que comove e a farsa que ofende, em qual posição Neymar nos coloca?
É impossível entender como Neymar nos afeta hoje sem entender como as imagens projetadas por jogadores de futebol mudaram e se tornaram mais impactantes ao longo do tempo.
No início dos anos 1990, a Nike, hoje entre as dez empresas mais valiosas do mundo, procurava expandir seu mercado, e a estratégia seria repetir com outro esporte o sucesso obtido ao colar sua imagem nos grandes astros do basquete norte-americano. Decepcionada com o alcance insuficiente do seu futebol (o foot-ball, não o soccer) para além das fronteiras dos Estados Unidos, a Copa do Mundo de 1994 foi um momento de virada. Inicialmente hesitante em relação a um esporte em que as partidas podem terminar sem um vencedor e um perdedor, um esporte que nem dá aos torcedores a garantia de que experimentarão a toda partida o seu momento culminante – o gol –, a marca compreendeu que precisaria ceder. No mesmo ano, a Nike elegeu um rapaz de 17 anos, Ronaldo Fenômeno, para ser seu Michael Jordan do futebol. Ele talvez tenha sido o primeiro grande craque brasileiro a se transferir para a Europa antes de ser incensado pelos torcedores brasileiros. Fora o futebol de arrancadas imbatíveis, mudanças de direção surpreendentes e chutes poderosos, a Nike enxergou uma capacidade de influência considerável na própria imagem do jovem Ronaldo. No Carnaval da Bahia, alguns anos depois, a banda Chiclete com Banana cantava Cabelo raspadinho/Estilo Ronaldinho. Nunca antes um jogador de futebol havia contagiado tantos jovens por meio do seu futebol e também do seu visual. E, assim como Jordan têm uma silhueta rapidamente identificável, principalmente por suas orelhas, Ronaldo tinha dois dentes da frente salientes e separados.
De lá para cá, o esporte sofreu um processo de espetacularização avassaladora. A relevância da imagem do jogador de futebol para o mercado publicitário não parou de crescer. Como consequência, as imagens geradas por um jogador subiram vários degraus na escada da formação dos nossos afetos, chegando muito perto do jogo de fato praticado com as pernas pelo jogador. Uma prova é o caso de Rivaldo, craque de toque refinado tão crucial quanto Ronaldo para o título de 2002, mas raramente lembrado em pé de igualdade com o Fenômeno. O motivo? Rivaldo nunca fez questão de gerar imagens, quanto mais imagens bem-acabadas de si mesmo.
Pulemos para 2006. O tão celebrado quadrado mágico formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano invadiu os jornais, as revistas e as televisões dos lares brasileiros e estrangeiros. A Seleção chegava à preparação na Suíça cercada por um clima de beatlemania. Por motivos comerciais, de acordo com o trato com uma de suas patrocinadoras, a CBF, pela primeira vez em sua história, passaria a vender ingressos para os treinos da equipe. Fãs eufóricos tentavam pular grades ou ultrapassar barreiras de segurança de um jeito que só víamos em shows de Madonna e Michael Jackson. Do meio para a frente, aquele time se tornara uma boy band.
Aos poucos, ao longo dos jogos, a discrepância entre a imagem projetada e a realidade observada passou a assustar. Um supertime havia sido prometido. Se não oficialmente pelo técnico Parreira, por todos os comerciais protagonizados pelas estrelas e até mesmo por comentaristas esportivos que, de olho na escalação dos titulares, especulavam que aquela equipe talvez fosse a melhor do Brasil de todos os tempos. Seria totalmente injusto que um time pelo qual torcedores choravam e criavam coreografias nas arquibancadas dos treinos não correspondesse em campo à projeção que dele se fazia. A vitória estava garantida, era só notar pelas campanhas publicitárias: Ronaldo se encontrava em excelente forma, é claro, e os membros do quadrado mágico tabelavam afinadíssimos, em perfeita sintonia no jogo e no bate-papo cheio de risadas. Então a torcida vibrava enquanto o papel picado verde e amarelo caía do céu em celebração, no comercial.
Essa foi a primeira Copa em que se viu nitidamente o efeito da publicidade e dos tratos comerciais agindo em primeiro plano. Talvez não tão coincidentemente, do torneio de 2002 para o de 2006, houve um salto de dez para vinte convocados que atuavam fora do país, a publicidade fazendo a ponte entre torcida e jogadores. Em campo, Ronaldo apareceu com sobrepeso, o quadrado mágico poucas vezes se entendeu, e a torcida foi para casa. As demandas por entrevistas, aparições midiáticas previstas em contratos, um excesso festivo depois da vitória em 2002, tudo isso provavelmente confundiu os jogadores em relação à sua prioridade, negando a eles a possibilidade de concentração máxima, e alimentando-os na crença de que já eram grandes o suficiente. É uma Copa que prenuncia o surgimento de Neymar, jogador-empresa dirigido pelo pai-gestor, que concebe o futebol como uma plataforma para alavancar outros rendimentos – principalmente oriundos de divulgação de marcas.
Se Ronaldo emprestou para muitas campanhas comerciais seus dentes salientes e viralizou seu corte de cabelo, Neymar levou uma geração inteira de crianças a querer imitar seu penteado moicano de quando defendia o Santos. E se Ronaldo foi o primeiro grande craque brasileiro a ter um contrato vitalício com a Nike, Neymar deu um salto à frente. Até ser substituída pela Puma, a Nike foi apenas uma das 28 marcas que ocupam a seção de parceiras no site da NR Sports, empresa de gestão de imagem de Neymar criada em 2006 pelos seus pais, Neymar da Silva Santos e Nadine Gonçalves. Na empresa do casal, mensalmente o filho é o funcionário do mês. Até 2021, suas pernas carregavam o destino de mais de duzentas famílias todo ano. A jornada é dupla nessa ocupação. A primeira é relacionada ao futebol. Treinar, jogar bem, levar sua equipe o mais longe que puder. A segunda é manter-se como um dos jogadores mais relevantes para o mercado publicitário mundial e movimentar as mídias sociais.
A torcida parece sentir alguma dificuldade em juntar as imagens de um Neymar amante da exposição com as imagens de um Neymar suando até a última gota pela sua torcida e sua equipe. Não perceberam que o grande desafio que Neymar se impôs é exatamente esse. Não é que ele tenha se proposto a ser o melhor jogador possível, ou o melhor jogador do mundo, e apenas isso. É que ele se propôs a ser o melhor jogador possível sem abrir mão do estilo de vida que vem levando. O seu desafio não é a qualificação, mas a conciliação.
Desde que Neymar foi para o PSG, a NR Sports consegue faturar em contratos com marcas, por ano, um valor entre 50 e 75% do salário anual líquido do jogador. Para manter essa roda da fortuna girando, Neymar precisa seguir com afinco sua dupla jornada para ter valor de mercado como celebridade, influencer, embaixador de marca etc. Foi em parte essa orientação de maximização dos lucros que fez sua imagem se tornar tão difundida. E a dedicação à imagem de funcionário-celebridade da NR Sports o define tanto quanto o seu futebol. É como se Neymar tivesse se tornado uma vedete que nos entretém no futebol, nas propagandas e nas redes sociais. De maneira que a apreciação de sua prática como jogador acaba por sofrer sérias infiltrações da aversão à sua imagem pessoal – enquanto a avaliação do trabalho de Tite, pelo contrário, sofreu infiltrações da benevolência.
Qual apreciador da democracia bradaria “Fora, Tite!” quando todos os dias tínhamos de lidar com um amante da ditadura? O treinador chegou a declarar discordância de qualquer pedido de volta de regime militar. Levando em conta o momento pelo qual o país passava e o meio do futebol brasileiro, isso estava bom demais. Os bolsonaristas ferrenhos que taxaram Tite de comunista irão discordar, mas levando em consideração o volume de atenção que tipicamente é conferido ao de treinador da equipe nacional, Tite foi a melhor coisa que poderia nos acontecer entre 2016 e 2022. Num meio predominantemente machista e evangélico, onde o discurso da meritocracia individual flui sem atrito, Tite foi um treinador de poucas conquistas, mas – que ninguém nos ouça – isso é o de menos. Se havia uma guerra cultural sendo travada inclusive por meio da distorção da linguagem, melhor mesmo que o futebol fique em segundo plano, e uma linguagem mais doce e amável nos ajude a respirar.
Nas transmissões da Rede Globo para as cinco copas entre 1982 e 1998, a imagem da assinatura de um jogador surgia na tela quando ele marcava um gol. Era realmente uma reprodução da assinatura manual de cada jogador, fiel às suas caligrafias. De lá para cá, esse recurso caiu em desuso e os jogadores – hoje perfeitamente sintonizados com as redes sociais e seu poder de disseminação – apostaram cada vez mais em gestos corporais como assinatura.
Parceiro de Neymar no ataque da Seleção durante a Copa de 2022, Richarlison tem como gesto principal uma dança que leva todos a querer dançar com ele. A maneira corporal como o chamado “Pombo” se expressa é agregadora e contagiante. Passou a ser reencenada por Richarlison em fotos de estúdio para campanhas publicitárias ou com fins de autodivulgação. Outra comemoração-assinatura que apareceu bastante nos últimos anos é a de Gabigol, que levanta os braços à altura dos ombros, tal qual um fisiculturista, força os bíceps e move a cabeça para cima e para baixo. Esse gesto se tornou tão forte como representação de imagem que nas lojas do Flamengo é vendido um boneco de pelúcia de Gabigol fazendo o muque. Mas por que esse gesto e a dança do Pombo são tão contagiantes?
O estado presumido do gesto do muque de Gabigol é um ânimo de celebração, em que a pessoa se sente vitoriosa, ou tomada por um ânimo de confiança, quando alguém se mostra pronto para a luta, capaz de enfrentar os desafios que se colocam à sua frente. O estado presumido do gesto de Richarlison é a pura troça. Quem faz sua dança, está tomado por um espírito gaiato. Qual é o estado presumido pelos gestos de Neymar? Em qual região dos afetos os gestos de Neymar pedem que nós nos coloquemos ao reencená-los?
Em 2019, Neymar mandou a sua própria torcida calar a boca. A declaração de que gostaria de deixar Paris no início daquela temporada desagradou a torcida do PSG. Diante das vaias, Neymar fez um gol e pediu silêncio. Pouco depois, já de banho tomado e longe dos torcedores, reiterou o recado ao compartilhar no Twitter a foto pedindo silêncio à própria torcida, que até hoje não engoliu bem nenhuma das duas atitudes. Chama a atenção que Neymar, já de cabeça fria, replique o gesto na rede social. Pela proximidade temporal com o jogo, dava para entender que o cala a boca se dirigia a um público específico, uma torcida específica. Não era um gesto endereçado a qualquer um e a todo mundo. Ao menos, não ainda. Só que depois desse evento, Neymar não se furtou a usar em redes sociais e em campanhas publicitárias a sua imagem fazendo o mesmo pedido de silêncio. São imagens feitas em estúdio, disseminadas sem receptor definido e contextualização da motivação original para o gesto de confronto.
O dedo na frente dos lábios manda quem olha a imagem calar a boca. Em comemorações de gols, os nervos estão à flor da pele. Mas Neymar faz essa pose descansado, em um estúdio com ar-condicionado, de cabeça fria, e escolhe usar essa imagem como expressão de quem ele é. Ela está lá em seu perfil na rede social, está lá quando ele comercializa um tênis, está lá na parede da casa onde faz dancinha com os amigos no TikTok e até replicada por sua versão digital na campanha de um novo game de tiro. Por que Neymar me manda calar a boca? O que eu fiz para ele? Óbvio que é agressivo e é claro que ele quer que seja.
Há outro gesto que Neymar transferiu da espontaneidade dos campos para a reencenação em estúdio. É a imagem em que ele faz uma careta com as mãos espalmadas ao lado do rosto e põe a língua para fora. Bom, depois de me mandar calar a boca, Neymar obviamente está zombando da minha cara. As microexpressões em torno dos olhos indicam agressividade. A forma da boca e da língua não são brincalhonas, mas sim de quem demonstra até certa repulsa. E as mãos, claro, são de zombaria e escárnio. A careta, como um todo, quer me repelir. Por que diabos vou gostar de quem me repele, de quem zomba de mim e me manda calar a boca?
Em dezembro de 2022 fiz uma busca no Google Images por “jogador mandando calar a boca”. Rolando a barra de resultados, só apareciam jogadores em comemorações de gols, reações explosivas em campo. Quatro ou cinco telas descendo a barra e apareceu o primeiro – e único até a décima tela – jogador que, fora do calor do jogo no gramado, mandava alguém calar a boca. Neymar.
A condição de uma assinatura que o craque dá a esses gestos estimula que nós, quando pensamos em Neymar, pensemos também no que seus gestos expressam. Depois de cinco anos na França – durante os quais tentou ir embora no mínimo duas vezes, mas foi impedido por contrato –, talvez seu lema “Ousadia & Alegria” esteja desatualizado. Se continua ousado, deve ser por raiva. Sem alegria. E se está alegre, é porque deixou descansar a ousadia das ambições que cultivou.
Uma fotografia oficial transmite decisões do fotografado ou de sua equipe. Nas suas imagens, Neymar presume que quem o vê já esteja fechado com ele, do seu lado. Tais imagens presumem que o receptor também quer mandar alguém calar a boca – alguém a quem Neymar também destinaria o gesto de silêncio. Dessa maneira, Neymar, mais do que desejar a nossa admiração, pede para que nós nos coloquemos no lugar dele. Que sintamos com ele como é estar incomodado com alguém a ponto de lhe mandar calar a boca. O jogador prega apenas aos convertidos.
Para que possamos nos identificar com Neymar, ele exige muito de nós. Essas imagens só podem ser vistas sem desconforto por quem gostaria de se dirigir às mesmas pessoas que Neymar tem vontade de calar. As imagens demonstram que a intenção é reforçar um sentimento agressivo naqueles que já são do team Ney. Há certa tautologia: para ser team Ney você deve zombar e repelir as mesmas pessoas que o Ney. A estratégia de falar à sua base parece eficaz para estimular uma fidelidade afetiva aguerrida dos fãs via redes sociais. Funcionou por algum tempo com Bolsonaro. Nessa toada, Neymar desperta reações apaixonadas, reforçando a sua imagem ao mesmo tempo de vítima e de carrasco. Enquanto é ídolo perante a base, aumenta a distância para todos os outros.
É bem possível que daqui para a frente, passada a linha dos 30 anos, o jogo de Neymar progressivamente abandone a velocidade e o drible, em prol de mais passes, chutes de média distância e maior distribuição de jogo. Menos dribles, menos risco de perda da posse de bola. Talvez a idade o transforme em um jogador que os amantes da objetividade gostariam de aplaudir. Se estiver em forma, fará a diferença. Talvez não a diferença que imaginávamos que ele faria quando começou a jogar, visto que em Paris seu futebol não evoluiu. Mas no futebol mundial, uma rápida comparação com outros jogadores em campo em qualquer partida revela que Neymar é a encarnação da resistência no sentido de insistir em um futebol brasileiro de ginga, um futebol sulamericano de poesia que não adere totalmente ao futebol de prosa. Mesmo assim, ele sofre rejeição e divide a torcida. Em parte, porque os próprios brasileiros lhe exigem mais objetividade, acostumados que se tornaram com o futebol europeu do tiki-taka paciente e funcional, onde o gesto gratuito é reprimido. Em parte, porque, como mostram as imagens, Neymar pede que estejamos totalmente com ele.
Quase termino pedindo que Neymar nos dê uma Copa. Mas parte do problema está aí. A expectativa é minha. É nossa. Neymar está cumprindo o seu objetivo de ser o melhor que pode enquanto leva a vida que quer e fatura o máximo possível para sua empresa-família antes de pendurar as chuteiras. O recado já foi dado: ame-o ou deixe-o.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_198 com o título “Ousadia sem alegria”.