cartas
Mar 2023 20h15
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CAPA
Esta edição 198 da piauizinha paz e amor está realmente supimpa. Salve, piauizeiros!
VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
ENERGIA E CIÊNCIA
Meu sobrinho de 10 anos abriu a revista porque leu o nome do influenciador digital na capa e se deparou prontamente com uma foto de quase corpo inteiro na matéria de Filipe Vilicic (Felipe Neto contra a cadela do fascismo, piauí_198, março), identificando-o, perguntou: “O que o Felipe Neto está fazendo na sua revista, tio?” Sim, inusitado porque na cabeça do infante, dois universos não conversariam, o dele e o meu, mas não se pode esconder o conhecimento de ninguém. Nem de uma criança. A ciência, parte desse vasto conhecimento, esteve bem representada na edição, a começar pelo termo “quântico”, colocado no devido lugar, longe de coaches, filosofia e sei mais lá o quê de pseudociência atrelada (O futuro de tudo, de Stephen Witt). Poderiam apenas, junto à instigante matéria, ter realçado o mês de março, em especial o dia 14, aniversário de Einstein, coincidente com os cinco anos da morte do xará do autor do artigo, Stephen Hawking, e o dia dedicado ao número pi (símbolo π). Afirmo isso em relação à única revista que fez uma edição especial em homenagem ao matemático Artur Avila em 2014 pela conquista da Medalha Fields. Uma ressalva nessa seara é que energia não é produzida, como está em Um estado às escuras, de Juliana Faddul, mas, sim, convertida de um tipo em outro. O termo produção de energia muitas vezes está relacionado à conversão de outras fontes (eólica, solar, nuclear, térmica, hidráulica etc.) em elétrica, a mais usada nas residências e na vida urbana. É apenas um toque de detalhamento e precisão que faz bem à piauí e a seus leitores. Energia é também o fogo, o domínio primitivo do ser humano sobre a natureza, a ser salvo, segundo as modernas e admiradas palavras de Itamar Vieira Junior (O olho de fogo). Pode não ter sido combinado, mas até a Poesia de Thiago Cervan mostra as forças geológicas em ação.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
VARIEGADOS
Gostaria de parabenizar o professor Vladimir Safatle pelo artigo A insurreição (piauí_198, março). Para mim, foi particularmente impactante lê-lo junto de Felipe Neto contra a cadela do fascismo, em que Filipe Vilicic conta como o influencer foi de comentador de livros infantojuvenis a ativista político antifascismo e antidesinformação. Eles me recordaram um livro de Martin Gurri, The Revolt of The Public and the Crisis of Authority in the New Millennium, ainda pouco conhecido por acadêmicos brasileiros, o qual antecipou como a disseminação da internet (e, depois, das mídias sociais) ensejou a crise institucional que presenciamos a partir da era Trump – que, no Brasil, culminou com o presidente que gostava de sonegar “tudo o que puder”, incluindo presentes luxuosos recebidos de representantes de nações estrangeiras.
Isso me faz pensar em quais serão os efeitos de outras inovações; não apenas a corrida pela computação quântica, descrita por Stephen Witt (O futuro de tudo), mas também pelos novos modelos de processamento de linguagem natural, como o GPT-4 (da OpenAI e Microsoft) e o Bard (Google) – um tema que, salvo engano, ainda não foi explorado pela melhor revista do país. O.k., não é novidade que o mundo é impactado, talvez desde Gutenberg, por tecnologias controladas por grupos restritos – cujos efeitos eles não conseguem antever, e os governos não sabem regular. O problema é que isso hoje cria obstáculos para lidar com riscos globais que comprometem nosso bem-estar e o de nossos descendentes – como a crise climática, o conflito latente entre potências nucleares, ou a próxima pandemia.
Na verdade, iniciativas positivas são frequentemente ignoradas – como a recente Lei de Gestão de Riscos Catastróficos Globais dos Estados Unidos, um “jabuti do bem”, na pág. 1290 (!) da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) para o Ano Fiscal de 2023, estrategicamente posicionado entre uma seção que trata do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e outra sobre a preparação para riscos tecnológicos. A lei obriga o governo americano a, por exemplo, produzir relatórios decenais com estimativas sobre riscos catastróficos, em colaboração com diversos órgãos e pesquisadores. E me fez lembrar, por contraste, a disparatada proposta de Política Nacional de Longo Prazo, inspirada no paroquial Projeto de Nação – como denunciado por Breno Pires no site da piauí em outubro passado (Plano do governo Bolsonaro para os próximos 36 anos não tem combate à fome, à pobreza ou à corrupção). Não seria difícil para nosso atual governo, com pretensões internacionais bastante distintas das do anterior, mostrar progressos nessa área – a começar por uma atualização do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (como, aliás, já reivindicado pela secretária Ana Toni).
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
NOTA IMPRESSIONADA DA REDAÇÃO: Safatle, Felipe Neto, Martin Gurri, Trump, GPT-4, Bard, Gutenberg, página 1290 (!) da NDAApara o Ano Fiscal de 2023 (!!) e – ufa!!! – Ana Toni. Ramiro, meu caro, sua carta tem tanta informação que o diretor de redação cogitou colocá-la como matéria de capa. E, falando em páginas, não deixe de ler o texto que começa na pág. 20 (!) desta edição. Viu? É o ChatGPT na melhor revista do país!
MUNDO INVERTIDO
A leitura do texto A insurreição, do professor Vladimir Safatle (piauí_198, março), realmente assusta, pois faz uma análise profunda dos episódios recentes protagonizados pela extrema direita em nosso país, que culminaram com o ocorrido em Brasília no dia 8 de janeiro – replicando a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, instigada pelo derrotado Trump e suas falsas narrativas, a mesma lenga-lenga de Bolsonaro ao questionar o resultado das eleições presidenciais no Brasil, que segundo ele foram fraudadas, contrariando todas as evidências.
A direita, desde o fracasso do governo dos generais, mostrava-se envergonhada em se revelar, apesar de que sempre esteve presente na política nacional, renasceu com toda a força, herança da péssima gestão da presidente petista, que criou as condições objetivas para que tal ocorresse. E quem levantou mais alto a bandeira contra o sistema foi exatamente um representante da extrema direita, Jair Bolsonaro, que com seu discurso contestador ao questionar nossos podres poderes, angariou amplo apoio popular.
Muito bem lembrado o episódio dos integralistas, liderados por Plínio Salgado, que na década de 1930, com a ascensão do fascismo na Itália e Alemanha, tentaram dar um golpe contra Getúlio em plena vigência da ditadura instituída pelo Estado Novo. Era uma organização de extrema direita profundamente reacionária.
Tudo isso é resultado do fracasso do regime democrático vigente e da desmoralização das instituições, pois temos um Legislativo corrompido e um Judiciário totalmente inoperante, enquanto os grandes problemas nacionais como saúde, educação e justiça social são relegados, provocando reações que questionam essa falsa democracia, que só protege os poderosos e beneficia as corporações que se instalam no abrigo do poder.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
MUNDO QUÂNTICO
Apesar de nada entender, ou entender muito pouco, pouquíssimo, do que lia, devorei do início ao fim o artigo O futuro de tudo, de Stephen Witt (piauí_198, março). Fiquei deslumbrado. Salve a loucura quântica.
MARCO ANTONIO GAY_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA QUÂNTICA DA REDAÇÃO: Mas será que você realmente não entendeu, Marco Antonio? Ou será que de um ponto de vista quântico você entendeu tudo?
NÃO FUI EU
O artigo de Luigi Mazza (esquina Depois da barbárie, piauí_197, fevereiro) é excelente, pois emerge das profundezas da indiferença uma categoria profissional que trava uma luta incessante contra um mal nacional, o esquecimento. Bravos restauradores! Porém, quero fazer aqui uma reflexão sobre as recomendações do Conselho Internacional de Museus (Icom, na sigla em inglês), principalmente sobre os procedimentos relacionados à restauração, por se tratar de uma intervenção em toda e qualquer manifestação material de um evento artístico e/ou histórico.
Faço questão de reproduzir o quinto princípio da restauração indicado pelo Conselho citado: “Todos os trabalhos de intervenção e respectivos métodos terão como princípio a leitura estética da obra no seu conjunto, mas terão como base de escolha o seu reconhecimento visual enquanto intervenção.” Grosso modo, isso significa dizer que a restauração não deve apagar o motivo que a originou, pois se trata de informação.
Vejamos o caso das manifestações de 9 de novembro de 1988, no município de Volta Redonda. Houve nesse ano uma greve dos profissionais metalúrgicos que foi duramente reprimida pelo Exército brasileiro, ocasionando algumas mortes. Logo após o massacre, foi inaugurado um monumento em homenagem aos mortos de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer; uma noite após a inauguração, um atentado a bomba destruiu a obra. Feita a perícia pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli, constatou-se que os explosivos utilizados foram fabricados pela Imbel (fábrica de material bélico do Exército).
Dito isso, que venham os fatos. Convidado a reconstruir o monumento, o arquiteto sugeriu que mantivesse do jeito que estava, para testemunhar a barbárie. Isso me lembra a história do pintor Pablo Picasso e o oficial fascista diante do quadro Guernica (uma interpretação do pintor ao bombardeio da cidade de Guernica, durante a Guerra Civil Espanhola). O oficial perguntou se havia sido ele, Picasso, que havia feito a obra, ao que ele prontamente respondeu: “Não, foram vocês.”
Defendo que a destruição promovida pelos terroristas bolsonaristas fosse preservada, para que num futuro próximo nossos filhos e netos, ao perguntarem quem fez isso, pudéssemos responder: “Não fui eu, foram eles.”
WALDEMIR TAVARES_NITERÓI/RJ
NOTA INTRIGADA DA REDAÇÃO: A proposta é muito boa, Waldemir. Mas para fazer jus a todo o opus de violência do bolsonarismo – do qual a depredação do relógio centenário ou a facada no quadro de Di Cavalcanti são apenas um sintoma mais visível –, seria necessário incluir a destruição recorde na Amazônia, as quase 700 mil mortes por Covid, a insubordinação das Forças Armadas, os clubes de tiro e outros milhares de elementos que não cabem nem num Guernica.
PELÉ
Fui tomado por um susto e um espanto quando comecei a ler o artigo O rei que o Brasil não soube venerar (piauí_197, fevereiro), de Marcos Caetano. Logo no começo ele cita as Sete Quedas como exemplo das coisas e pessoas às quais o Brasil não soube dar valor. Tive a honra de conhecer as Sete Quedas, pois morei em Guaíra de 1973 a 1991, a cerca de 1 km destas maravilhosas cachoeiras.
Quando elas foram assassinadas, no que considero um dos maiores ecocídios do mundo, eu tinha apenas 14 anos, e nunca esquecerei o dia em que meu pai pediu para fazermos silêncio no quintal de casa e prestarmos bastante atenção ao barulho das águas das cachoeiras, pois em breve nunca mais o ouviríamos.
É um tema que até hoje, aos 54 anos, me revolta e me entristece. E também assassinaram a memória das Sete Quedas. Não há sequer um museu em Guaíra ou no Paraná em sua homenagem. A própria piauí não demonstrou nenhum interesse quando sugeri há alguns anos uma reportagem sobre as Sete Quedas. Poucos sabem sobre esta história. Muitos ainda a confundem com as Cataratas do Iguaçu. E sua morte está profundamente imbricada com o golpe de 64, a megalomania faraônica da ditadura, o assassinato do diplomata José Jobim, a questão indígena no Oeste do Paraná, os conflitos fronteiriços com o Paraguai e nossa então completa miopia ecológica.
Tristes constatações.
JOSEMIR JOSÉ DALLA COSTA_CURITIBA/PR
QUERINO
Apesar de leitor renitente da piauí (em épocas mais opulentas e financeiramente mais abastadas, cheguei a ser assinante e tenho na estante o pinguim da boina verde para atestar o meu grande interesse), por força de meu ofício e de me dedicar a outras tantas leituras, muitas vezes eu acumulo sucessivos exemplares em meu escritório. Somente hoje encontrei tempo para me dedicar à piauí_194, novembro de 2022.
Nenhuma surpresa. Adoro os artigos, particularmente essa deliciosa característica da maioria deles de promover salutar dissecação dos assuntos abordados. Não sobra pedra sobre pedra, e isso sempre foi o que mais me fascinou na revista. No entanto, achei que deveria lhes enviar este e-mail para externar minha satisfação em dois artigos que sobremaneira me encantaram, a saber: Um caso raríssimo, de Armando Antenore e, acima de tudo, De ressentido a visionário (projeto Querino), de Felipe Botelho Corrêa.
Descobri Lima Barreto no final de minha adolescência, e dentre tantos autores que fazem parte de minha biblioteca afetiva e foram fundamentais na construção do autor que sou há mais de quarenta anos (atuo profissionalmente na parte “patinho feio” da literatura brasileira, ou seja, escrevo livros infantis e juvenis), ele pontifica não apenas pelo gigante literário que é, mas fundamentalmente pela abordagem desassombrada do racismo neste país. Foi a partir da leitura de seus livros (e eu comecei justamente com Clara dos Anjos, e, como vocês podem imaginar, a frase final da protagonista me atingiu com a violência que nem um soco de Mike Tyson seria capaz de produzir; minha “morenice” desfez-se quase no mesmo instante) que eu me descobri como preto (e “encrenqueiro”, pois tenho o péssimo hábito de lutar pelos meus direitos, o que em se tratando de alguém que resolveu viver de seus direitos autorais desde outubro de 1980, significa dividir seu tempo na escrita de seus livros e em se tornar uma espécie de Sherlock Holmes literário, correndo atrás de editores recalcitrantes que, entre outras tantas atitudes, inscrevem seus livros em editais sem que saibamos e, consequentemente, não recebendo o que lhe é de direito).
Lima Barreto deveria ser leitura obrigatória nas escolas brasileiras pelo menos a partir do sexto ano, para que saibamos inclusive o que ele quis dizer quando afirmou que “o Brasil não tem povo, tem plateia” (Povo participa, se envolve, percebe que é proprietário e não inquilino; plateia apenas aplaude). Textos excepcionais, acreditem.
Obrigado pela oportunidade de lê-los num sábado inesperadamente ocioso.
JÚLIO EMÍLIO BRAZ_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA OTIMISTA DA REDAÇÃO: Júlio, se você está feliz lendo a edição de novembro de 2022, imagina quando chegar na de janeiro de 2023, meu democrata.