questões vultosas

CHICO BUARQUE E O BRASIL DE ONTEM E HOJE

Em nova turnê, Chico Buarque canta um país entre a beleza e a bancarrota
Imagem Chico Buarque e o Brasil de ontem e hoje

6 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A canção que dá nome à turnê de Chico Buarque com Mônica Salmaso pertence à constelação de suas criações que orbitam a política. Que Tal um Samba? – este convite não existiria sem a dor filha da puta dos últimos anos. Assim como não conseguimos ouvir Vai Passar ou Pelas Tabelas, ambas de 1984, sem associá-las à campanha das Diretas Já, lá se vão quarenta anos. Vai passar/nesta avenida um samba popular, dizia a primeira. Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas/eu pensei que era ela voltando pra mim, ecoava a segunda. A promessa e a frustração históricas estão ali, encarnadas nas canções.

Mas a associação quase instantânea que fazemos ao ouvir Que Tal um Samba? – pelo menos nós, os mais velhos – é com Apesar de Você, o samba de 1970 que se converteu numa espécie de hino de resistência à ditadura. Lançado em meados daquele ano por um descuido da censura, o compacto (que trazia Desalento no lado B) foi recolhido das lojas um mês depois, por ordem dos militares. Mas já era tarde.

Apesar de você/amanhã há de ser/outro dia./Eu pergunto a você/onde vai se esconder/da enorme euforia/Como vai proibir/quando o galo insistir/em cantar – os versos que se insurgiam contra a ordem autoritária se espalharam por toda parte. A música, porém, só seria relançada em 1978, no mesmo LP que trazia Cálice, também censurada. No ano seguinte, a Lei da Anistia seria aprovada no país.

Tudo isso é sabido. Mas as coisas sabidas se tornaram nebulosas em tempos de Brasil Paralelo. A lavagem cerebral patrocinada pelo governo anterior deixou sequelas imensas, ainda difíceis de mensurar, nas pessoas, nas famílias, na sociedade, no interior das instituições. No final do ano passado, uma juíza do Rio de Janeiro alegou que Chico Buarque não havia comprovado ser o autor de Roda Viva, e, portanto, Eduardo Bolsonaro poderia continuar usando a canção em suas redes sociais. Depois de tanta demência, que tal um samba?

Se Apesar de Você desafiava o regime como quem coloca o dedo no nariz dos generais – você vai pagar e é dobrado –, no samba recente o desafio é de outra ordem e se dirige a nós mesmos. O tom assertivo, de enfrentamento contra um adversário bem definido – hoje você é quem manda,/falou, tá falado –, cede lugar a um convite ao mesmo tempo comedido e afetuoso, endereçado Paratodos ou para ninguém, na forma de uma dúvida reiterada – que tal? Não se trata mais de derrotar o inimigo – era mais simples –, mas de remediar o estrago; zerar o jogo; sair do fundo do poço.

O compositor nos chama para este samba que é feito com categoria, com calma, mas também é um desafogo, um devaneio, tudo para esconjurar a ignorância e desmantelar a força bruta. Se fossem outros os tempos, diríamos que é quase um Plano Marshall em forma de poesia o que nos propõe Chico Buarque nessa canção. A reconstrução, ou o reencontro da civilização brasileira consigo mesma, assume várias imagens ao longo da música, a mais bela delas quando Chico substitui samba por filho e canta: Fazer um filho, que tal?/Pra ver crescer, criar um filho/Num bom lugar, numa cidade legal/Um filho com a pele escura,/com formosura/Bem brasileiro, que tal?/Não com dinheiro,/mas a cultura.

No lugar da pátria verde-amarela, um bom lugar, uma cidade legal; no lugar do cidadão de bem, um filho com a pele escura, bem brasileiro, menos ligado em dinheiro (ou armas) do que na cultura. O contraponto, um pouco esquemático, fica na minha conta. A canção é mais sutil. Na sequência desses versos, Chico pergunta Que tal uma beleza pura/no fim da borrasca?/Já depois de criar casca/e perder a ternura. Ao evocar a canção de Caetano Veloso de 1979 – Beleza Pura começa justamente pelos versos: Não me amarra dinheiro, não!/ Mas formosura./Dinheiro não!/ A pele escura –, Chico o faz na forma de pergunta. E acrescenta que essa utopia brasileira, chamemos assim a beleza pura, vem depois da queda – perdemos a ternura, criamos casca, elegemos e quase reelegemos Jair Bolsonaro. Que tal?

Nenhuma das canções memoráveis que mencionei no início – nem Apesar de Você, nem Vai Passar, nem Pelas Tabelas – faz parte do repertório do espetáculo de Chico Buarque. Cada uma a seu modo, elas marcaram momentos em que, apesar de tudo, era mais fácil acreditar no Brasil – tínhamos um encontro com o futuro. Não temos mais.

Basta mencionar, para ficar no exemplo da vez, o drama da Amazônia, onde se vive, literalmente, de apagar incêndios. O filósofo Paulo Arantes usou uma imagem de grande acuidade ao comparar o garimpo ilegal a uma espécie de supercracolândia e sugerir que as operações de desmonte da extração e do tráfico das riquezas minerais da floresta tendem a reproduzir a lógica da guerra às drogas nas periferias das grandes cidades. Imaginando buscar soluções sustentáveis, é grande a chance de estarmos muito mais próximos da administração de um colapso.

O horizonte histórico do governo Lula seria o da redução de danos, num ambiente muito mais desfavorável do que aquele encontrado em 2003, na correlação de forças políticas, nas expectativas econômicas, na fisionomia e nos humores da sociedade. Isso se traduz de forma difusa na sensação de envelhecimento precoce de um governo que mal começou.

Para voltar ao samba, apesar do milagre político ocorrido em outubro passado, continuamos menos para beleza pura do que para Bancarrota Blues – essa, sim, incluída no espetáculo. A canção de 1985, uma parceria com Edu Lobo, é uma espécie de alegoria debochada do país insolvente, àquela altura às voltas com o fantasma de uma dívida externa impagável. Menos marcada historicamente do que outras canções políticas de Chico, Bancarrota Blues trata, no fundo, de um passado colonial que não passa, o que lhe confere uma atualidade impressionante à luz da dissolução do país nos últimos anos. Quando ela surge no palco, já perto do final do show, é um grande acontecimento.

O Brasil está representado na canção por uma fazenda que se oferece à venda pela voz de um latifundiário à beira da falência. Ele começa por informar aos interessados que lá dá jerimum,/dá muito mamão,/pé de jacarandá. Novos atrativos surgem na estrofe seguinte: tem surubim,/tem isca pra anzol,/mas nem tem que pescar. Mais adiante, as delícias do lugar se multiplicam: os diamantes rolam no chão,/o ouro é poeira,/muita mulher pra passar sabão,/papoula pra cheirar. Melhor que isso, só o paraíso reservado para o final: negros quimbundos,/diversos açoites,/doces lundus/pra nhonhô sonhar.

A enumeração dos itens ofertados segue a lógica de uma afronta crescente – do jerimum aos negros quimbundos, passando pelos diamantes que rolam no chão e pelas mulheres que servem para passar sabão, ofende-se primeiro o bom senso e afasta-se a seguir qualquer compromisso com a dignidade humana e a vida civilizada. Conforme escala na direção do abominável (que também é, na sua perspectiva, o mais desfrutável), o proprietário vai se tornando mais e mais desesperado para vender. Ao final de cada estrofe, a mesma pergunta é repetida com variações – Quanto você dá?; Quanto quer pagar?; Quanto vai pagar?; Quando vai pagar?; Que é que você diz?; Deixe algum sinal! – configurando uma espécie de liquidação da própria linguagem.

O que o proprietário chama de éden tropical e atribui à graça de Deus é, na verdade, um empreendimento colonial-escravocrata que ele tenta passar adiante a preço de banana no momento em que se torna inviável e dele não se pode extrair mais nada. Foi mais ou menos isso o que fez a elite brasileira quando entregou o país nas mãos de Bolsonaro.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_199 com o título “Do samba ao blues”.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É repórter da piauí