ficção
Leda Cartum Mar 2023 18h28
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
FORMAS FEITAS
Havia uma planta de folhas pequenas num vaso de barro chamada cansaço. Um homem todos os dias regava suas raízes e a deixava ao Sol. Ela crescia indomada e como que indiferente aos cuidados recebidos: ramificava-se rápido, fazia crescer botões que logo abriam em flores com pétalas esquisitas, agarrava as paredes da casa e chegava até os pés da cama. A planta avançava à noite mais que durante o dia: o homem quando acordava tropeçava nos galhos da trepadeira, e passava as horas da tarde retirando da sua roupa as folhas secas grudadas.
*
Um homem tentava se lembrar de uma palavra que tinha esquecido. Vasculhava os cantos, os recônditos, os quartos escuros da sua memória: visitava imagens, refazia instantes, descrevia o quintal da casa onde tinha morado quando era criança. Na verdade a palavra que ele procurava estava na ponta da língua – era quase fácil, mas o homem não alcançava, e mergulhava até o fundo das coisas secretas e pouco exploradas. Achava lembranças difusas, pássaros mortos, vozes distantes chegando em casa no meio da madrugada: às vezes até sentia a consistência da palavra, que depois escorregava e nadava para longe. O homem então muito quieto sentia que estava cansado como se tivesse caminhado dias – respirava fundo e assistia ao peixe que escapava para dentro dos recifes coloridos.
*
Um homem tinha um barco e queria navegar para um país remoto no mapa, em outro continente, do outro lado do oceano. Sua âncora tinha sido lançada ao mar fazia muito tempo, tinha atingido os fundos rochosos e se agarrado no lodo e na areia: cracas e conchas tinham se encrustado na haste de metal. O homem puxava, puxava a corda da âncora para movê-la enfim do seu posto de anos; o barco balançava para lá e para cá, as amarras esticavam, a boia oscilava na água. Às vezes ele tinha a sensação quase nítida de já estar navegando.
*
Um homem náufrago depois de dias chegou numa ilha desconhecida. Caminhou sobre a areia dura, atravessou o mato, explorou a floresta inteira e não viu nada nem ninguém – só ouviu o ruído dos bichos que se escondiam quando ele chegava perto. Seus cabelos e barba cresceram, sua voz perdeu o timbre, ele aos poucos perdeu os rastros que tinham ficado no chão; passou meses comendo frutos e folhas secas que encontrava em seu caminho. Até que enfim esbarrou em uma montanha tão grande que escondia a luz do dia: abrigou-se dentro dela. Ele era um homem estranho no interior da caverna, mas seus olhos em pouco tempo se acostumaram com a falta de luz. Olhava às vezes os próprios punhos e quando prestava atenção e aguçava os ouvidos podia escutar barulhos, sons que ele não sabia de onde vinham ou se eram inofensivos: ele ficava calado e fazia um esforço para ouvir o que as vozes tinham para dizer nessa noite.
FORMAS FEITAS NO ESCURO
Quem é você? Não responde quando perguntam, não atende quando interpelam, não diz seu nome e quando diz nunca parece ser verdade. Como é você? Esboçam retratos, ensaiam desenhos, tentam traçar suas formas, mas então você é um bicho e se debate debaixo do pano, só deixa rastros, as dobras que ficam depois nos lençóis. Ninguém sabe nada ou o que sabem é quase nada sobre você – por isso qualquer coisa ou tudo se torna uma parte possível do seu corpo. Ou o contrário: esquecem, desistem, e você desaparece, ou então deixa de existir.
*
Da curva da estrada do quarto veio um vulto diferente de uma terra distante: caminhava lá longe no meio da névoa e era até difícil dizer se a sombra se aproximava ou se estava se afastando. Mas quando não restava dúvida da direção dos seus passos, você orquestrou a desordem das gavetas e das prateleiras, fez com que ondas transbordassem dos armários e um vendaval levasse os objetos consigo. A espuma seguiu as ordens que você ditava e salgou os tacos do chão; em cima da cama você fez girar um redemoinho pela noite inteira. No dia seguinte, a bagunça da casa assustou os vizinhos e nenhuma explicação parecia razoável: não havia álibis, não havia desculpas, não havia desastres que explicassem o caos.
*
Havia um tempo em que os homens contavam com pedras as coisas que viam, marcavam com sangue as portas das casas, comiam com as mãos o que tinham caçado. Você então circulava visível. De lá você solta silvos agudos, uivos agudos e longos: as ondas da sua voz atravessam as décadas, perfuram os séculos, corroem milênios. Dentro dos carros e em volta das mesas dos apartamentos os joelhos todos tremem, as sobrancelhas levantam; você, um fantasma, faz as paredes moverem e mudarem de tamanho. Alguém volta a cabeça para trás porque acredita ter visto algo.
*
Todos estão recolhidos no escuro da meia-noite e as portas estão trancadas; mas ouvem no andar de baixo seus passos discretos e gritam, levantam, tropeçam em desespero: “Socorro! Um ladrão!” Você também se assusta e se mistura ao tumulto, sua voz se une às outras e você repete o coro: “Um ladrão!” As pessoas correm em círculos até chegarem à rua: por fim não sobra ninguém na sala ou nos corredores, e só você continua dentro daquela casa. De fora chamam seu nome, querem saber onde é que você está; e de dentro do quarto você sussurra: “Estou aqui.” Na calçada, desnorteados, eles se perguntam sempre: “Onde? Onde?” Você se cala e adormece, e todos vagam nas ruas como pombas enlutadas, murmurando para si: “Onde? Onde?”
TODA LUTA É CONTRA
AS FORMAS
Reviro as coisas velhas, mexo em caixas muito antigas, tiro os livros da poeira e uma nuvem sobe até o meu rosto: procuro uma forma inédita. Sei que alguma coisa que ainda não conheço se esconde entre os objetos que estão guardados faz tempo – as formas da casa olham mudas e querem que eu responda. Às vezes escuto um homem bem longe no meu ouvido, que ameaça sem dizer, fala pela minha boca e me faz morder os lábios e mostrar os dentes brancos. Nessas horas eu procuro então com mais força e voragem: atrás dos sofás ou sob o colchão e embaixo do travesseiro encontro cartas, pergaminhos, manuscritos, hieróglifos, fósseis marinhos no topo de montanhas, garras que estavam ocultas pela pele dos meus dedos.
Trechos do livro Formas Feitas no Escuro, a ser lançado neste mês pela editora Fósforo.