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poesia

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CÂMERA SUPER-8

SEQUÊNCIA 1

nada se vê além de objetos

humilhados

depois de sua passagem o ciclone

ameaça

desde a fotografia

SEQUÊNCIA 2

o peso de um fruto sobre a cabeça

tirou a ciência

do sono

no sonho as iguanas dissecam

a metafísica

SEQUÊNCIA 3

a história não registra

os micropontos de luz: sem eles,

no entanto,

como ver o substantivo?

CORTE E MONTAGEM

o essencial dura uma cãibra.

HISTÓRIA DO RUÍDO

um homem conserta o portão

– ao abrir

a caixa de ferramentas

se desconcerta:

onde a chave?

a vida que se queria em forma?

é tarde, pelo andar da carruagem,

não se termina o serviço.

um homem a ferros não rende

o que um pássaro

faz pousado.

se abrisse a porta do arco-íris

quando

dorme        e não produz

beija

e desfaz as horas

detonaria o dique que o comporta.

LONG-PLAY

Double Fantasy. John Lennon & Yoko Ono.

Geffen Records, 1980

LADO A

o beijo fixado sob holofotes

era pose             não era este

em desejo

magnetizado

o casal à mercê do foco sobre

seus corpos

uma foto para mudar a moda

: talvez

o mundo sob o céu granulado

LADO B

por algum motivo – J. L. & Y.O. –

o disco e os livros ficaram lado

a lado

num sebo

: seria inverno não fosse ainda

o sol no peito

a mão acaricia o canto

em tempo outra vez de risco

era sábado quando no estúdio

se compôs a foto?

era um sopro – quem saberia?

DIANTE DA MÁSCARA DE UM DEUS SEM DEVOTOS

notas

os seres fantásticos

ainda são projeções da repulsa

e sedução

pelo desconhecido?

sentimos medo de ácaros gigantes

mas

a imagem

da mulher-borboleta vende de tudo

no metrô.

míopes, apostamos

na sorte para a sobrevida da espécie.

análise

no confronto entre a TECHNÉ

(que domestica o estranho

em forma de pixels)

e a NATURA

(onde exilaram os seres

infinitos)

geramos álibis para todos os crimes.

TEORIA-REALIDADE

no abraço do pai não te abraçam

corpos antigos.

como dizer isso

na celebração do clã?

o que era rijo nem é nuvem.

os pares estão aí para o que fazes?

não é desonesto

cavarem sob os próprios pés.

é o hábito

(não é) TRAIÇÃO.

ninguém sabe o que leem

os dedos

na loja de fotocópias

nem o que dança

o limpador de telhas.

o que dançavas, quando perdias

os ossos

na tempestade?

a tempestade que arrancou o teto

e libertou a paisagem.


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É poeta, ensaísta e professor titular na Universidade Federal de Juiz de Fora. É autor, entre outros, de Melro (Editora 34), O Som Vertebrado (José Olympio) e A Morte Também Aprecia o Jazz (Luna Parque/Fósforo)