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Adriano Alves Mar 2023 19h52
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Na cidade de Petrolina, no sertão pernambucano, o visitante que entra no prédio azul e branco do Centro Cultural Emoções, um museu dedicado a Roberto Carlos, se depara com o cantor logo na primeira sala – lá está um totem do “rei”, em tamanho natural. A canção Além do Horizonte ecoa pelos corredores, entremeada pelo som de depoimentos gravados. Nas paredes, vitrines organizadas em ordem cronológica guardam mais de quinhentas peças, entre discos, objetos raros, suvenires, documentos e revistas. “Tudo aqui é original”, diz Adriano Thales, de 51 anos, o colecionador que criou o museu. “Acho que, sendo original, traz mais verdade.”
Thales tinha 6 anos quando ouviu a voz que marcaria sua vida. Seu pai precisou fazer um tratamento médico em Fortaleza, no Ceará, e o menino foi enviado para uma temporada na casa da mãe, que vivia no Recife. Lá, encontrou nas estantes da casa o disco Roberto Carlos, de 1979. A canção Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo, parceria de Roberto com Erasmo Carlos que rende homenagem à sabedoria de um homem mais vivido, tocou o garoto saudoso. “Essa canção passou a trazer a presença de meu pai de uma forma muito forte”, diz. Thales tocou o disco tantas vezes que a agulha começou a pular e ele precisou colocar um pequeno peso sobre o cabeçote.
Quando recebeu alta, o pai resolveu presentear o filho com um brinquedo. Thales disse que queria outro tipo de presente: o disco que ouvia nos dias de melancolia. Generoso, o pai lhe deu vários vinis de Roberto Carlos. Foi o início da coleção.
Thales perdeu as contas dos shows de Roberto Carlos que já viu. O primeiro foi em Campina Grande, na Paraíba, em 5 de dezembro de 1992. A data ficou registrada em um autógrafo, hoje exposto no Centro Cultural Emoções, ao lado de uma foto do fã no camarim do ídolo. “Mais alguma coisa?”, perguntou o cantor no dia em que concedeu o autógrafo. Thales não hesitou: “Queria que me desse essa caneta.” E assim levou mais um item para casa.
Desde então, já foram mais de quarenta encontros com o artista. Thales esteve em gravações do tradicional especial de final de ano na TV Globo e se orgulha de ser reconhecido entre a multidão de fãs. Em 2012, Roberto Carlos o convidou para participar do cruzeiro Projeto Emoções em Alto Mar. A bordo, o pernambucano conheceu Chaim Zaher, empresário da área de educação, e sua mulher. “Eles me perguntaram qual era o meu sonho”, lembra. Thales falou do projeto de reunir o acervo em um espaço aberto à visitação. No dia seguinte, estava firmado o acordo para que o casal patrocinasse o Centro Cultural Emoções.
Seguiram-se meses de trabalho para catalogar o acervo, então abrigado no puxadinho em que Thales morava, no fundo da casa de sua sogra. Os dois filhos de Thales, que atualmente se dedica inteiramente à manutenção do centro, também participaram da organização do material e até hoje ajudam na divulgação das atividades do museu.
O Centro Cultural Emoções foi inaugurado em 19 de abril de 2015. O casal de empresários surpreendeu Thales ao comparecer acompanhado da banda RC na Veia, cujo baterista era Dudu Braga, filho de Roberto Carlos (Dudu morreu em 2021, de câncer, aos 52 anos). “Quando eu juntava todas essas coisas, era tachado de doido, de besta. E no dia da inauguração tudo isso veio à mente”, diz Thales.
Tantos anos garimpando peças renderam um acervo gigantesco, do qual apenas 30% estão em exposição. O restante permanece depositado em dois quartos. Thales diz que optou por expor os itens mais incomuns da coleção, como os discos internacionais do cantor e álbuns em cartucho – um suporte de áudio com fita magnética, porém maior que as fitas cassete. Pôsteres ocupam grande parte das paredes e mais de 2 mil revistas enchem as estantes. Também estão expostas raridades, como os bonecos feitos à imagem do cantor, lançados em 1965, e a coleção de quatro livros Roberto Carlos em Prosa e Versos, publicada dois anos depois.
Enquanto exibia na sala de vídeo o filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de 1967, Thales repetia de memória as falas do ídolo no filme. Ele também sabe a data do primeiro show de Roberto Carlos em Petrolina: 15 de novembro de 1965. “Roberto vestiu uma calça vermelha com camisa florida”, descreve, como se tivesse assistido ao show, que aconteceu antes de seu nascimento. Também discorre com emoção sobre a paleta azul e branca que Roberto Carlos adotou para suas vestimentas nos anos 1990 – e que dá o tom da decoração do centro. “Ele só se sente bem com essas cores”, diz o fã.
A conta do número de visitantes que o Centro Cultural Emoções recebeu em oito anos de atividade ainda está por ser feita. São oito livros completos com assinaturas registrando a visitação. O fluxo costuma chegar a quatrocentas pessoas nos fins de semana. A entrada é solidária, com a doação de alimentos, e o espaço é mantido de forma independente, sem apoio público. Thales mora em uma casa nos fundos do museu, com seu pai.
O colecionador diz que criar a coleção foi seu objetivo existencial. “Se você me perguntar por que eu juntei tantas coisas, eu não tenho uma razão pra lhe dar”, diz. “Mas tenho esse sentimento: as canções do Roberto embalaram toda a minha vida.”