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TRABALHADORES DO MAR

Colônia de pescadores em Copacabana faz 100 anos
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São seis da manhã e um caminhão descarrega sacos de gelo na calçada da Colônia dos Pescadores Z-13, entre o Forte de Copacabana e a estátua de Dorival Caymmi. Um dos poucos locais da Zona Sul carioca autorizado a pescar e comercializar peixes e crustáceos, a colônia comemora seu centenário neste ano.

Os pescadores saíram de madrugada para o alto-mar. Era uma quarta-feira nublada, no início de maio, com uma chuva fina e gelada. Por volta de oito e meia, os barcos começam a despontar no horizonte, de retorno à terra firme. Mais ou menos a 600 metros da orla, os pescadores diminuem a velocidade dos barcos para passar com segurança entre os banhistas que já ocupam o mar. Nos últimos 100 metros antes da areia, é a força da onda que vai empurrando as embarcações para a costa.

Um dos pescadores deixa o primeiro barco para buscar o guincho de ferro que puxará a preciosa carga. Os pescados são retirados da rede e separados numa grande caixa. Depois, são despejados em bandejas de inox e levados para os quiosques onde serão vendidos.

Na Z-13, trabalham regularmente sessenta pescadores e há vinte quiosques, ou módulos, de venda, um para cada barco registrado, com nomes como Eronil, El Shaday, Ringo, Levi Rebouças e Mineiro. “Para ser pescador, tem que crescer na pesca. Muitos vêm aqui querendo emprego, aí ficam dois, três dias e desistem. Tem que ser algo que corre no sangue”, diz Carlos Eduardo da Costa Guilherme, um dos pescadores mais experientes da colônia. Seu barco se chama Peixe Xico, nome que ecoa seu apelido de infância, Pixico, que lhe foi dado pelo avô materno, também pescador.

“Eu nasci neste aqui”, diz Costa Guilherme, apontando para um dos boxes no interior da colônia usados para guardar o material de pesca. Foi no Box 3 que, em 18 de agosto de 1982, o pescador veio ao mundo. Sua mãe, Teresa Cristina da Costa, estava na colônia quando começou a sentir as dores do parto. Não houve tempo de levá-la a um hospital. Com a ajuda de uma amiga, ela deu à luz no box, que por sorte estava vazio naquela tarde. Avô, tios e colegas pescadores assistiram ao nascimento.

O pai de Costa Guilherme é um dos poucos da família que não tem relação nenhuma com o mar. Saiu de casa quando a mulher ficou grávida e abriu uma oficina mecânica. Seu filho e os demais pescadores seguem a tradição que os une a outros trabalhadores do mar na cidade. O local onde trabalham em Copacabana é a sede de uma colônia cujos núcleos se espalham por um território que vai do bairro da Urca até o Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, incluindo ainda as lagoas de Jacarepaguá e Rodrigo de Freitas. O nome Z-13 é uma convenção burocrática, designada pela Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (Fiperj), que congrega 28 colônias espalhadas pelo litoral e pelos lagos fluminenses – a Z1, por exemplo, fica na cidade de São Francisco de Itabapoana, no extremo Norte do estado.

A colônia não era conhecida por essa sigla quando foi fundada por pescadores, há um século, em data incerta. Simbolicamente, o seu aniversário é celebrado em 29 de junho, Dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores.

Até os anos 1920, a sede ficava em Jacarepaguá. “Por causa de um incêndio, trouxeram para cá”, diz José Manoel Pereira Rebouças, de 63 anos, atual presidente da colônia – e seu historiador informal. Pescador desde os 14 anos, ele nasceu em Aracati, no Ceará, e veio para o Rio de Janeiro em 1993. Por indicação de uma irmã que já vivia na cidade, empregou-se como pescador na Z-13.

Antes mesmo de a colônia se estabelecer já havia pescadores em Copacabana. Rebouças diz que eles ajudaram na construção do forte, inaugurado em 1914, onde antes existia uma capela dedicada a Nossa Senhora de Copacabana, construída possivelmente por pescadores. “Na Revolta dos 18 do Forte, os soldados usaram as canoas dos pescadores como proteção e barricada”, conta, entusiasmado, o pescador-historiador.

Em novembro de 1982, a colônia passou por uma renovação. Os precários módulos de madeira foram substituídos pelos de alvenaria. Desde então, são pintados de azul e branco. A madeira também deixou de ser o material com que se fazem os barcos. “Hoje eles são de fibra e levamos quase trinta panos de redes para o mar”, explica Costa Guilherme.

A maior mudança nas últimas décadas foi o surgimento de um concorrente da colônia: a pesca industrial, com traineiras equipadas com sonares para rastrear cardumes. “Enquanto a gente volta com 100, no máximo 200 kg de peixe, eles estão voltando com 10 toneladas, no mínimo”, diz Costa Guilherme. “O mais triste é que acabam dizimando as espécies.” Ele dá o exemplo da anchova, que era abundante a cerca de 20 km da Praia de Copacabana até os anos 1990, e está se tornando cada vez mais difícil de encontrar.

Em torno das dez e meia da manhã, o movimento na colônia chega ao pico, com clientes circulando pelos estandes onde os próprios pescadores oferecem corvinas, lulas, bonitos, anchovas, linguados, cavaquinhas e mariscos. A corvina é um dos peixes mais baratos, a 10 reais o quilo. A anchova sai a 20 reais, e o robalo, a 45 reais o quilo. A cavaquinha, prima da lagosta, é um dos itens mais caros: 70 reais o quilo. Nos dias em que os peixes vêm em grande quantidade, o preço pode cair um pouco. O quilo da corvina já chegou a custar 7 reais. Todo o dinheiro da venda fica com os pescadores, que pagam uma mensalidade de 18 reais para a colônia.

Sobrinho de pescadores, Miguel Lopes, de 10 anos, assistia atento a toda movimentação. Ele estava ansioso pelo retorno do tio, que naquele dia se atrasou – só atracou por volta das 11 horas. Uma cliente pergunta a Miguel se ele vai ser pescador quando crescer. O menino responde que não, porque é um trabalho que machuca muito as mãos. E conta que sua primeira experiência em um barco, ao lado do tio, quando tinha só 5 anos, foi decepcionante: “A gente só pescou saco plástico.”


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Repórter da piauí