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DEPOIS DO DESERTO

A Biblioteca Nacional volta a ter um presidente respeitável
Imagem Depois do deserto

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O celular tocou uma, duas, três vezes. Era uma ligação do Brasil, de um número não identificado – e Marco Lucchesi não atendeu. Ele estava em Florença, a caminho de uma praça onde encontraria um amigo. Então chegou um áudio pelo WhatsApp, enviado por aquele mesmo contato desconhecido.

A voz – ele demorou a reconhecer – era de Margareth Menezes, a nova ministra da Cultura. “Fiquei andando em círculos no meio da rua”, recorda o escritor e crítico de 59 anos na sala de sua casa no bairro de Itacoatiara, em Niterói. Naquele dia 30 de dezembro, foi obrigado a desmarcar o passeio com o amigo italiano. “Preciso voltar já para o Brasil”, comunicou. Lucchesi tinha acabado de ser convidado para presidir a Fundação Biblioteca Nacional.

Na sede da mais antiga instituição cultural em atividade no país (remonta ao século XIX), os funcionários festejaram. Depois de a presidência da biblioteca ser entregue a um discípulo do guru Olavo de Carvalho e a um católico ultraconservador, finalmente tinha terminado a longa e funesta noite da entidade.

Lucchesi, que é carioca, frequenta a sede da Biblioteca Nacional, no Centro do Rio, desde os 15 anos. De alguns funcionários, diz saber “até o nome dos filhos”. Foi na juventude que estreitou sua convivência com o mundo literário. Com 19 anos, iniciou uma correspondência com Carlos Drummond de Andrade, depois de enviar ao poeta mineiro um livro que escrevera sobre Dante Alighieri, uma de suas especialidades. Em 1987, quando morreu Maria Julieta Drummond de Andrade, filha do poeta, Lucchesi foi ao enterro. Ele se recorda dos olhos congelados de Drummond, “que parecia uma estátua de pedra”.

Depois de se formar em história pela Universidade Federal Fluminense, ingressou no mestrado e no doutorado em ciência da literatura pela UFRJ, da qual se tornou professor. Emendou um estágio de pós-doutoramento em filosofia da Renascença na Universidade de Colônia, na Alemanha. Como poeta, publicou dezenas de livros, entre os quais Meridiano Celeste & Bestiário, que ganhou o Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional em 2006 e foi finalista do Prêmio Jabuti em 2007. Também escreveu um grande número de ensaios e três romances.

Em 2011, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Seis anos depois, tornou-se, aos 54 anos, o presidente mais jovem da instituição, que enfrentava então uma severa crise financeira. Lucchesi diz que a experiência na ABL durante aquele “momento absolutamente dramático” lhe dá agora confiança para gerir a Fundação Biblioteca Nacional, após quatro anos de desmonte cultural.

Quando recebeu o telefonema de Margareth Menezes, fazia mais de dois anos que estava na Itália, realizando pesquisas no Departamento de Ásia, África e Mediterrâneo da Universidade Oriental de Nápoles. Na casa que herdou dos pais na região da Toscana, na comuna de Massarosa, soube em julho de 2022 que seu nome figurava na lista de personalidades escolhidas pela Biblioteca Nacional para receber a medalha da Ordem do Mérito do Livro. Em tese, a medalha homenageia acadêmicos e intelectuais com notável contribuição à leitura e à literatura. Naquele ano, porém, a biblioteca decidiu conferir a distinção ao então deputado federal Daniel Silveira, preso por ameaçar e insultar ministros do STF. Outros bolsonaristas também figuravam na lista.

Lucchesi foi o primeiro a rejeitar a medalha. Outros escritores e intelectuais fizeram o mesmo logo depois. Ele afirmou que a homenagem a Silveira fazia parte de um “projeto de sequestro” das instituições culturais pelo governo Bolsonaro. “Acabaram com o Ministério da Cultura, depois alvejaram a Lei Rouanet com um ódio infernal, anacrônico e deplorável”, diz. “Isso Bolsonaro conseguiu: o processo de destruição foi coerente com o seu discurso.”

Mesmo antes de sua posse, em 30 de maio, Lucchesi já tinha atividade institucional. Em março, acompanhou a ministra Rosa Weber, do STF, em uma viagem ao Amazonas, para um encontro do povo indígena Marubo, no Vale do Javari. Aonde quer que vá, Weber costuma levar exemplares da Constituição de 1988 para dar de presente às pessoas. No avião, ela estendeu o livro para Lucchesi e perguntou em qual idioma ele gostaria de ver a Carta Magna do país ser traduzida. Foi escolhido o nheengatu, ou língua geral, o idioma supraétnico que até o final do século XIX era o mais falado no Norte do país.

A Biblioteca Nacional recrutou tradutores que têm o nheengatu como língua materna e o STF disponibilizou uma equipe para sanar dúvidas do juridiquês. “Tenho visto nas aldeias e nos quilombos: a nova geração está buscando recuperar as línguas e as canções dos seus antepassados, aquilo que antes se chamava de massa flutuante narrativa”, diz Lucchesi – com o discreto sotaque italiano de quem foi criado por imigrantes –, desenhando ondas no ar com as mãos. “É preciso ajudar o Brasil a guardar um patrimônio que está destinado ao esquecimento.”

Na cerimônia de posse de Lucchesi, a ministra da Cultura anunciou a liberação de 30 milhões de reais para a modernização de um prédio anexo que deve abrigar cerca de 10 milhões de obras do acervo. É a primeira vez que a Biblioteca Nacional recebe um investimento dessa monta.

Em vista da quantidade de trabalho que tem pela frente, o escritor diminuiu as horas de sono. Desperta às três da manhã – “para cuidar das minhas novelas, dos ensaios, dar continuidade às traduções” – e vai se deitar às dez da noite. Tenta não ler antes de dormir, mas não é sempre que resiste a Emanuele Severino (1929-2020), o filósofo italiano cuja obra costuma citar em qualquer conversa.

Severino, explica Lucchesi, não aceitava a ideia de que todas as coisas vieram do nada – e para o nada retornarão. “Desde que uma coisa exista e apareça, ela é um ser. E, como tal, não termina.” Nem os mortos desaparecem: apenas saem do campo de visão dos vivos. Em momentos de pessimismo, o escritor recorre a Severino “em busca de um combustível de esperança”. “É o que me permite atravessar o deserto com maior conforto”, ele diz.


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Repórter da piauí