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NOITE ROSA NA MARÉ

Peça teatral recupera a cena LGBTQIA+ da favela
Imagem Noite rosa na Maré

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Artistas drags, trans, travestis, gays, lésbicas e não binárias alternavam-se no palco e na passarela improvisados na quadra da Escola de Samba Gato de Bonsucesso, na Nova Holanda – uma das comunidades mais populosas do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com cerca de 130 mil habitantes, segundo o Censo de 2010. Perto do palco, uma garotinha branca de cabelos encaracolados equilibrava-se na ponta dos pés, procurando, em meio às dezenas de cabeças na sua frente, uma fresta para assistir a Noite das Estrelas. Naquele domingo, 9 de julho, o espetáculo, em sua última apresentação, foi visto por aproximadamente 250 pessoas, entre moradores da Maré e visitantes.

Dirigido pelos irmãos Paulo Victor Lino e Wallace Lino, de 28 e 36 anos, ambos nascidos e residentes na Maré, o espetáculo reconta o universo artístico LGBTQIA+ da favela nos anos 1980 e 1990. Nessas décadas, a comunidade abrigava shows vibrantes de travestis e drags. O principal deles se chamava Noite das Estrelas. “Mas tinha também o Pantera Gay e outros eventos, como concursos de beleza”, diz Paulo Victor, que é formado em história pela UFRJ. Autor do texto do espetáculo, Wallace estudou teatro na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e é mestre em relações étnico-raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ).

Os irmãos reconstituíram o período principalmente a partir de relatos de duas artistas travestis, Marcela Soares (nome artístico Pantera) e Erika Ravache (Madame). Elas contaram aos dois sobre os pioneiros da cena LGBTQIA+ na Maré, dos quais só se conhecem hoje os apelidos: Nei (ou Nem) e Menga. “O Nei organizava as festas juninas na Maré e tinha amigas que o ajudavam na confecção dos figurinos”, diz Wallace. Amigas, entenda-se, do babado: elas logo convenceram Nei a colocá-las em um show de glamour GLS (quem se lembra dessa sigla?) nas festas juninas.

Menga assistiu às apresentações e decidiu buscar apoio de comerciantes e chefes do tráfico para montar seu próprio espetáculo – o Noite das Estrelas. “No começo, as artistas não tinham cachê, mas quando viram que o pessoal do comércio estava lucrando, começaram a cobrar”, diz Paulo Victor. “Na estreia, fiquei um pouco nervosa, quase desisti, mas minha prima e minhas amigas me apoiaram e deu tudo certo”, conta Soares, a Pantera, hoje com 54 anos.

A pesquisa que os irmãos Lino realizaram sobre a cena trans da Maré teve início na pandemia. “Do Menga, a gente sabe mais e tem duas fotos. Do Nei, só uma foto embaçada. É uma bicha pretinha, magrinha. Falam que ele está vivo, mas não o encontrei”, explica Wallace.

Não se sabe exatamente quando Nei e Menga começaram a montar seus shows. Em uma das fotos do Noite das Estrelas original, vê-se uma faixa com o ano de 1987. Em outra, 1991. A cronologia incerta abriu para Wallace a possibilidade de uma narrativa teatral não linear. “Nem cena, nem ato, eu prefiro falar em dimensões”, diz ele. “Para construir a dramaturgia, fui estudar as galáxias, as estrelas. Cada uma das cinco dimensões da peça traz novos sentidos, vibrações e versões para a criação daqueles shows.”

Uma das dimensões impactantes tem lugar na Rua Teixeira Ribeiro, importante via da Nova Holanda. É quando aparece Exu, orixá que habita as encruzilhadas, interpretado pela artista não binária Milu Almeida.

Ela entra vestida com um macacão de babado multicolorido, figurino inspirado nos palhaços da Folia de Reis, e declama um texto lírico: “O escuro do Universo refletido na minha pele, a noite é preta e nela eu sou vista.” Depois, sobe na garupa de uma moto pilotada por Luiz Otávio, que faz parte do corpo de baile. A dupla roda em torno do público com um bastão de fumaça rosa aceso. Noite das Estrelas, então, imerge numa nuvem pink.

O espetáculo foi financiado pelo Programa de Fomento Carioca, do governo municipal. Para Wallace, há um recado político na montagem. “É um ato de rebeldia nosso fazer essa peça em um lugar que não tem estrutura para isso”, diz ele. “É também um ato de rebeldia perante o olhar e a intervenção do Estado, que, nos espaços de favela, não pensa na promoção de cultura, mas está embasado completamente em uma política de segurança pública defasada, que só gera terror, morte e brutalidade.”

A peça é uma experiência de imersão na comunidade. Logo no início, os espectadores são conduzidos pelas ruazinhas da Nova Holanda. A partir de certo ponto, são vendados (não há vendas para todos, e os que ficam sem são convidados a andar de olhos fechados). Seguem adiante em fila, um com a mão no ombro do outro. “Nossa ideia é trabalhar com as perspectivas que as pessoas têm quando vêm até aqui. Se a pessoa acha que a Maré é muito perigosa, vai entrar em pânico”, afirma Wallace.

A montagem dos irmãos Lino joga luz sobre uma porção esquecida da comunidade LGBTQIA+ carioca. Wallace lamenta que não se contem mais histórias sobre “bichas pretas e faveladas” (ele mesmo se intitula a “bicha preta mais bonita da Maré” e diz que seu irmão é a “bicha preta mais marrenta”). Os dois não se deslumbraram com o sucesso de Noite das Estrelas, mas ficaram especialmente felizes com uma espectadora. “Com a presença da Camila Pitanga, eu fiquei passada”, confessa Wallace. A atriz também se encantou. “Amei a peça. Acho um marco em muitos aspectos. Não oxigena só a cena teatral, mas a cidade do Rio de Janeiro”, diz Pitanga.


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.