cartas
Ago 2023 11h58
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AGOSTO
A matéria do estagiário Pedro Tavares, Cinquenta anos num dia (piauí_203, agosto), além de bem escrita, me despertou a curiosidade. Na Wikipédia, consta apenas a versão oficial do incêndio causado pelo cigarro no toalete do voo 820 e que, depois disso, passou a existir a proibição de fumar nos banheiros em aeronaves comerciais. Meses antes, outro Boeing havia caído nos Estados Unidos, matando Dorothy Hunt, esposa do oficial de inteligência E. Howard Hunt, envolvido no escândalo Watergate. Gilberto Araújo da Silva, o comandante do voo em que Ricardo Trajano sobreviveu, iniciou sua carreira na Fundação Brasil Central, criada pelo governo Getúlio Vargas no embalo da ocupação daquela região do país. Outra coincidência é que Filinto Müller, o chefe da polícia política de Vargas e responsável pela deportação de Olga Benário, foi uma das vítimas do acidente de Orly, exatamente no dia em que completava 73 anos. O próprio desaparecimento do voo 967, em 1979, também comandado pelo piloto Gilberto é um evento intrigante, citado na reportagem e fruto de muita especulação por não haver, oficialmente, um desfecho conclusivo do que aconteceu. Para além de teorias da conspiração, são boas histórias para serem contadas e fica a sugestão para Pedro Tavares, com sua boa verve jornalística, tecer essas amarras.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
A edição da piauí_203, agosto, através da inspirada capa do ilustrador Kleber Sales, presta uma justa homenagem a diversas personalidades nacionais, que deixaram marcas profundas na sua passagem pelo mundo através da arte. O principal destaque é Zé Celso: embora longevo – esse paulista de Araraquara sempre radicalizou nas suas múltiplas atividades nos seus 86 anos plenamente vividos – e, caso tivesse sobrevivido às sequelas do incêndio que o vitimou, continuaria revolucionando nosso teatro. Foi o campeão da transgressão assim como a inspirada Rita Lee; Oswald de Andrade, cuja obra O Rei da Vela foi desenterrada do ostracismo pelo gênio de Zé Celso; Glauber Rocha, que com Deus e o Diabo na Terra do Sol projetou mundialmente o Cinema Novo; João Gilberto e sua batida mágica no violão atravessaram todas as fronteiras com a bossa nova, movimento que revolucionou a música popular brasileira; Chacrinha e sua genial irreverência foi um marco na nossa tevê; Hélio Oiticica (e seus Parangolés e Penetráveis) foi o criador do termo Tropicália, que inspirou Caetano na denominação do tropicalismo, outra revolução na MPB; Clóvis Bornay e suas fantasias vencedoras do Carnaval; Grande Otelo, artista múltiplo e grande ator, das inesquecíveis parcerias com Oscarito nas chanchadas da Atlântida; Cacilda Becker e Marília Pêra, divas de nosso teatro; Gal Costa e sua perfeição vocal. Saravá!
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
Prezados, é verdade: rondando o grupo dos queridos que se foram sempre haverá Gotham… e quando o Buda acertou uma pedrada certeira na lâmpada, foi então que ele atingiu a iluminação.
MAX KRICHANÃ_FORTALEZA/CE
MANTO TUPINAMBÁ
Creio que não há muita dúvida sobre a origem do manto tupinambá no museu dinamarquês (Longe de casa, piauí_182, novembro 2021, e A volta do manto tupinambá, 27 de junho de 2023, no site da piauí). Explico: sou estudioso da figura de João Maurício de Nassau-Siegen, governador do Brasil Holandês. Ele era primo do rei Frederico III da Dinamarca. Quando João Maurício saiu do Brasil, os navios dele estavam abarrotados de “curiosidades” brasileiras. Chegando à Holanda distribuiu uma enorme quantidade destas curiosidades para amigos, reis, príncipes etc., pois não iam caber mesmo na casa dele, a Mauritshuis em Haia. Em 1654, João Maurício contemplou seu primo com os famosos quadros de Albert Eckhout. Depois ele se arrependeu dessa doação e queria os quadros de volta, o que não aconteceu.
Pessoalmente, tenho por 99% certeza de que o manto tupinambá fazia parte da distribuição das curiosidades e que um dos contemplados foi Frederico III. Tanto Frederico como João Maurício eram ávidos colecionadores desse tipo de objeto.
Fico na esperança de ter contribuído para esclarecer a origem do manto tupinambá.
JOHAN SCHEFFER_CASTRO/PR
NOTA INVESTIGATIVA DA REDAÇÃO: Será que esse caso pode ser usado como precedente para que Bolsonaro diga que apenas distribuiu curiosidades e presentes para amigos em Miami?
CASO EVANDRO
Ao ler o artigo sobre o Caso Evandro (O labirinto, piauí_203, agosto), penso que o erro todo esteve na confissão dos “envolvidos”. Não que eu queira justificar a tortura sofrida pelas pessoas, que é absurda e estarrecedora. Porém, no momento em que você confessa que realizou um crime hediondo desse, lembrando que não foi um assalto a banco ou um roubo de celular, mas um crime contra uma criança e da maneira como ele foi realizado, faça o que quiser, mas não diga que cometeu tal aberração.
Essa história me faz lembrar um caso contado por um colega mineiro em que o tio dele disse o seguinte: “Se sua esposa pegar você na cama com outra mulher, você nega, passou uma semana, você nega, passou seis meses, você nega. Depois de um ano ela ficará na dúvida se o fato realmente aconteceu.”
O que essa história vem mostrar é que ao confessar, o assunto acaba.
Você verbalizou que fez e não tem mais nada a dizer, tudo que você disser será remetido à sua confissão, seja ela verdade ou mentira.
LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP
NOTA PERPLEXA DA REDAÇÃO: A tortura é proibida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. É considerada uma “violação grave” da Convenção de Genebra, de 1949. É proibida pelo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, de 1966. Está banida do mundo civilizado pela Convenção Contra a Tortura, de 1984. É crime inafiançável e imprescritível pela Constituição do Brasil, de 1988. É, de fato, absurda e estarrecedora – e, depois da palavra tortura, é recomendável nunca escrever “mas, porém, contudo, entretanto, todavia”.
PALIATIVO
Me chamo Rafael, sou médico, e amante da piauí, revista que tive o prazer de conhecer há dois anos. Estava lendo o artigo da última edição, Brutalidade, presente (piauí_203, agosto), escrito por Fernando de Barros e Silva, de quem sou fã de carteirinha, junto da galera do Foro de Teresina e os demais escritores da revista.
Em relação ao artigo, gostaria de fazer uma ressalva quanto ao dito no final do texto que “o Brasil entrou na fase de cuidados paliativos”; hoje em dia temos um conceito mais amplo de que cuidado paliativo é o tratamento de um sofrimento grave relacionado à saúde. Então, se considerarmos a situação triste e lamentável da segurança pública brasileira, nem nessa fase estamos, porque o sofrimento é avassalador. Espero ter retribuído tanto conhecimento compartilhado por vocês.
RAFAEL ADVINCULA ZARATTINI_EUNÁPOLIS/BA
ANÁLISE E CRÍTICA
Pedi para a banca reservar a revista piauí para eu ler. Compro um exemplar a cada edição. Eu tinha uma ótima impressão a respeito do jornalismo da revista, até que duas matérias chamaram minha atenção, pois não mereciam ser publicadas. Eis os motivos:
a) A matéria sobre a cantora baiana Gal Costa (A viúva, piauí_202, julho) deixou em segundo plano a vida artística da cantora e destacou sua vida íntima com profusão de detalhes. Qual seja, fofoca.
b) Uma overdose de tevê russa (piauí_203, agosto) é relatada por alguém com uma ideia já formada sobre a Rússia, Gary Shteyngart comenta um trecho e a seguir escreve sobre sua posição pessoal a respeito da Rússia num tom de quem está nos revelando a verdade. O relato somente valeria a pena se fosse feito por uma pessoa isenta, um jornalista que tenha compromisso de reportar o que assistiu com o menor viés possível.
Ele diz muitas bobagens. Um exemplo: A palavra ukraína não é beira, mas, sim, compreendida como fronteira. A palavra tem origem no verbo ukrai, que, no idioma russo antigo, era cortar, partir. Ukrai ser glha mene (corte o queijo para mim). Sei disso porque sou filho de ucranianos e aprendi o idioma com minha família. Parte do atual território ucraniano foi invadida pela Lituânia e ficou cortada da Rússia por duzentos anos. A Lituânia também invadiu a Polônia e a esta foi entregue o governo da Ukraína, que depois fez parte do Império Austro-Húngaro. A Polônia tentou polonizar a Ukraína. O jornalista não estudou a história da Ucrânia. Orest Subtelny, professor de história e ciências da Universidade de York, em Toronto (Canadá), é um autor ucraniano que publicou Ukraine: A History, um livro com cerca de oitocentas páginas que deve ser lido para a compreensão da história da Ucrânia e para que não se diga tantas bobagens.
DANIEL STRUTENSKEY DE MACEDO_INDAIATUBA/SP
NOTA DISLÉXICA DA REDAÇÃO: Concordamos. Gary Shteyngart diz muita bobagem. Por sinal, é o que nos atraiu naquele texto. Só lamentamos que a definição da palavra ukraína não seja uma bobagem de Shteyngart, mas da própria tevê russa. E, aproveitando o ensejo, já deixamos os leitores avisados: a próxima fofoca a sair em nossas páginas levará o título A cantora e tratará apenas da viúva.