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A carreira ímpar de Luiz 83, das pichações ao museu
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Em uma manhã de agosto, Luiz dos Santos retirava seus quadros da parede de uma galeria de São Paulo. Negro, 1,83 metro de altura, ele vestia uma calça de moletom e uma camiseta de algodão – roupas confortáveis, apropriadas para esta que é a atividade menos glamourosa da vida artística: a desmontagem de uma exposição. “Para mim, isso é coisa rápida”, diz ele. Críticos, curadores e galeristas de São Paulo talvez não o conheçam como Luiz dos Santos, mas certamente acompanham atentamente as obras assinadas por Luiz 83. O nome artístico refere-se a 1983, ano de seu nascimento.

Divididos em três séries, os 24 trabalhos, que Luiz 83 embrulhou cuidadosamente em plástico bolha há três meses, são bem representativos de sua obra singular. São desenhos a guache ou nanquim sobre papel, de pequenas dimensões (a maior delas tinha 23,5 cm de comprimento por 32 cm de altura), nos quais o artista retorce, estica ou fragmenta letras do alfabeto. Sete esculturas – três em fibra de vidro, pintadas com tinta automotiva azul, e quatro em bronze, com banho de pátina cinza – completavam a exposição intitulada Síntese da forma.

Quem observasse o conjunto poderia pensar que as explorações geométricas de Luiz 83 prestam tributo a Amílcar de Castro (1920-2002), Franz Weissmann (1911-2005) e Emanoel Araújo (1940-2022). O autor, no entanto, esclarece que suas primeiras influências são outras. “Não é que eu não conhecia esses nomes, eu só não ficava pensando nisso”, diz Luiz 83. A sua conversa é com a arte de rua: “A minha primeira referência era o pixo, e minha preocupação era como reinventar as formas do alfabeto.”

Antes de ser o artista Luiz 83, Menezes foi o pichador conhecido como Mort City ou Negão. “Eu era chamado assim pelos meus amigos, era tão estrutural que achava normal, só rindo mesmo”, comenta, sobre o segundo apelido. Mais tarde, ele adotou como nome ins, que pode ser tanto a sigla de “induzindo a neurose em Sampa” como a abreviação de “impacientes”.

Luiz 83 começou a fazer pichações em 1998, quando morava na Cidade Ademar, bairro da Zona Sul de São Paulo próximo ao Aeroporto de Congonhas. Pela mesma época, também experimentou o grafite. O jovem foi impactado por um estilo de pixo nascido nas calçadas de São Paulo, o “tag reto”, que bebe da estética do punk rock e do gótico e se caracteriza por letras longilíneas. Com o tempo, porém, ele sentiu que as convenções da arte de rua estavam ficando estreitas. “No pixo e no grafite, é tudo muito engessado. Você cria sua marca e fica ali repetindo, como se fosse um carimbinho”, explica.

Em casa, a mãe, Marinalva Miranda dos Santos, que havia ambicionado ser atriz e trabalhava como empregada doméstica, não tinha muito tempo para a formação cultural dos filhos. Viu a rotina apertar quando o marido partiu e ela ficou sozinha, responsável por quatro crianças – Luiz era o mais velho. “Era outro corre, outro ritmo da vida e da mente”, lembra. O registro de nascimento do artista inclui o sobrenome paterno Menezes, que ele prefere não usar por não ter relações com o pai.

Em 2010, um amigo de longa data, Michel Onguer, chamou Luiz para integrar a equipe de montadores de exposições de uma empresa. “Parecia um trampo massa, o Michel vivia viajando”, recorda. A profissão anterior de Luiz, segurança de supermercado, era desgastante: “Os bandidos chegavam, assaltavam a loja, te jogavam no chão, era muito risco. Eu já estava injuriado.”

Seu primeiro serviço como montador, ofício que desempenha até hoje, foi em um leilão da galeria Fortes Vilaça (hoje, Fortes D’Aloia & Gabriel). Ali encontrou a oportunidade para ver de perto obras que só poderia conhecer em livros. “Tem colecionador de arte no Brasil, os grandes, que tem acervo muito melhor que o de muitos museus”, diz Luiz 83.

Desde 2006, ele frequentava exposições em galerias como a Choque Cultural. “Já via amigos da rua produzindo obras de arte. Então, eu entrei também e já fazia umas esculturinhas.” Mas foi o trabalho de montador que o motivou a se profissionalizar.

Autodidata, Luiz 83 se impôs, a partir de 2010, um prazo para desenvolver sua produção artística: quatro anos, duração típica de um curso universitário de artes visuais. “Arregacei as mangas, pesquisei muito, experimentei. Focava na produção e não na venda. Também buscava lugares para expor, para construir um portfólio.”

A estratégia deu certo. Ele ainda não está no centro do mundo artístico, mas vem conquistando espaço. Síntese da forma foi apresentada na galeria Arte 132, que fica em uma casa ampla em Moema, na Zona Sul de São Paulo. É um bairro de classe média e alta, mas deslocado do circuito tradicional de arte, que se concentra nas regiões do Jardim Paulista, Cerqueira César, Vila Madalena, República e Barra Funda. Sua principal participação em exposições coletivas se deu em 2022, na 37ª edição do Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Ele agora está de volta à instituição, com dezoito desenhos em papel e uma escultura em fibra de vidro na coletiva Mãos: 35 anos da mão afro-brasileira, inaugurada em outubro e que se estende até 3 de março. A exposição homenageia uma mostra pioneira no exame da contribuição dos negros para a história da arte do país, Mão afro-brasileira, organizada por Emanoel Araujo em 1988. A curadoria é assinada por Claudinei Roberto da Silva, que acompanha a produção de Luiz 83 há onze anos.

O artista já planeja seus passos para 2024. “Tenho que focar em exposições fora do país e conseguir uma galeria”, diz. A seriedade com que ele projeta sua carreira vem temperada por um olhar irônico sobre o mundo da arte e os clichês da crítica. Perguntado sobre a amplitude de sua produção, que inclui também fotografia e performance, Luiz 83 fala de si mesmo em tom debochado: “Mêo, como dizem, me tornei um artista multimídia.”


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.