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UM CANCELAMENTO MISTERIOSO E INTRIGANTE

Imagem Um cancelamento misterioso e intrigante

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QUESTÕES MINERAIS

Quero parabenizar o jornalista Allan de Abreu por mais essa reportagem-denúncia: O predador (piauí_205, outubro).

Pra mim é muito difícil ler e constatar o que o Brasil continua fazendo com seu patrimônio ambiental, isto é, destruindo-o. É muito chocante saber que a emergência climática está aí, na nossa cara, e vemos governos e prefeituras deixando correr soltos os crimes ambientais promovidos pelos canalhas que só querem o lucro imediato e a qualquer custo, mesmo se esse custo for a inviabilidade da vida neste planeta. Vemos os órgãos públicos, que foram feitos pra proteger nossas matas, rios e montanhas coniventes com a criminalidade, deixando passar a boiada. Eles sabem que não serão punidos quando se aliam aos que têm uma única pretensão na vida: extorquir a terra e pilhar suas riquezas a qualquer custo. É muito difícil viver nesse país.

VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC

OUTUBRO

Há sempre uma teia costurada entre as reportagens da piauí, algumas vezes de forma explícita, em outras, clamando por um exercício “sherlock-poirotiano” de descoberta. Na edição 205, o nazismo da Segunda Guerra Mundial e depois dela foi um desses fios condutores. O retorno da história da passagem de Josef Mengele pelo Brasil (Um nazista na roça, piauí_205, outubro), trazida por Betina Anton – outro volume a adentrar minha biblioteca –, faz ressurgir muito da polêmica que ronda o falecimento do “Anjo da Morte”. Relatos inverídicos, exumação exigida e contestada, e até hoje a dúvida que paira sobre o que realmente aconteceu são elementos que beiram a teoria da conspiração. Sem contar a versão cinematográfica para a passagem de Mengele pela América Latina, interpretado por Gregory Peck em Os meninos do Brasil, baseado no livro de Ira Levin. Deixando de lado a ascensão do neonazismo em tempos correntes, é direta a conexão do trabalho de Betina com a obra de Otto Maria Carpeaux, resgatada por André Rosa (A ruína de uma nação), por meio de uma aventura em busca do livro perdido que é uma obra à parte. Para mim, Carpeaux integra o conjunto de personagens políticos e literários que iniciaram na química e revelaram o poder transformador dessa ciência ou a forma de reagir à sociedade por meio da química. A ele somam-se Primo Levi, obviamente, Anita Leocádia Prestes, Angela Merkel, Euclides da Cunha e Franz Kafka (sim, o tcheco iniciou na química e depois mudou para o direito, fazer o quê!). Carpeaux é mais um desses personagens que iniciaram seus estudos ou atividades na ciência e conseguiram contribuir um pouco mais pa­ra a humanidade do que a conservação da matéria ou o estabelecimento do equilíbrio dinâmico. Ainda que nem todas as interconexões das reportagens sejam evidenciadas, que “quimiquemos” a vida, pois.

P.S.: Em resposta à “Nota melancólica da Redação”, no que pese vocês alegarem que aqueles tenham sido os livros mais citados, não há espaço em minha biblioteca para escritos de negacionista criminoso e, até em função dos acontecimentos recentes, Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, também citado na piauí, é muito mais adequado para ocupá-lo.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

NOTA ESTATÍSTICA DA REDAÇÃO: Adilson, só queremos deixar claro que não estávamos sendo irônicos quando alegamos que os livros Xarab fica, A porta de Mogar e Quatro 3 estiveram entre os mais citados da história da piauí. A sessão The Bolsozapp Herald foi publicada ininterruptamente, de janeiro de 2020 a dezembro de 2021. E não houve uma única edição em que o ex-chanceler Ernesto Araújo não tentasse convencer o ex-presidente Jair Bolsonaro a ler alguns dos seus livros. Logo, faz sentido, do ponto de vista puramente matemático, dizer que Xarab fica já foi mais citado, na piauí, do que Rei Lear, Dom Quixote ou Dom Casmurro. Uma injustiça? Só para quem não se deixa levar pela bela literatura de Araújo. Dito isso, bom saber que Teerã, Ramalá e Doha terá vaga na sua estante!

CANCELAMENTO

A matéria Está tudo dominado (piauí_205, outubro) trata de jornalismo tendencioso, tema que orienta o cancelamento da minha assinatura da piauí, depois de muitos anos.

Eu sairia calado, mas a matéria acendeu o desejo de manifestar meu descontentamento sobre as posições políticas da revista.

Acredito que as críticas da revista ao governo Bolsonaro foram e continuam pertinentes. Mas a campanha acabou e seguir tratando o governo Lula como bom, ou isento de críticas, é uma posição deveras equivocada. Trata-se de um grupo político com fortes denúncias de corrupção em gestões anteriores e que, no governo atual, já é merecedor de críticas à altura de sua postura perdulária e desrespeitosa com os esforços dos contribuintes.

São irritantes os frequentes excessos no posicionamento político da revista, manifestam-se como se houvesse o bandido e o mocinho nas atuais lideranças políticas, sendo que ambos são absurdamente terríveis, cada um à sua própria maneira. Por esse motivo, declino de seguir assinante e tenho buscado os conteúdos desejados em mídias mais isentas dessa paixão bandida.

Agradeço o serviço prestado por todos esses anos e que sejam felizes.

MARCELO DE CARVALHO TRINDADE_SÃO PAULO/SP

NOTA ESTUPEFATA DA REDAÇÃO: Mas a redação toda votou no Padre Kelson! Quer dizer, Kelvin! Quer dizer… Enfim, no candidato padre!

CARPEAUX

A edição comemorativa dos 17 anos da piauí, além de substancial pelo número de páginas, destaca-se, também, pela elevada qualidade das matérias apresentadas. Entre elas, destaco o maravilhoso trabalho de André Rosa (A ruína de uma nação, piauí_205, outubro), ao descrever a verdadeira saga para a obtenção de um exemplar precioso do livro Van Habsburg tot Hitler, que teve uma única edição em holandês, na Bélgica, no ano de 1938, de autoria do nosso Otto Maria Carpeaux, então refugiado de sua Áustria natal para o citado país, para escapar dos nazistas logo após o episódio conhecido como Anschluss, quando então Hitler anexou a Áustria. A aquisição da referida obra, à venda num sebo belga, já renderia uma história notável, uma proeza que demonstra todo o amor de André Rosa pela obra de Carpeaux, que em 1939 emigrou com sua mulher para o nosso país.

Judeu, seu nome de família, Otto Karpfen, adotou o Maria quando se converteu ao catolicismo. Ao emigrar, alterou o sobrenome para Carpeaux, pois a política de Vargas, principalmente a partir de 1935, restringia a entrada de judeus no país, pois havia grande aproximação com os alemães. Embora tivesse enorme bagagem cultural e falasse diversos idiomas, nada conhecia do português. Foi enviado para uma fazenda no Paraná, depois para São Paulo onde enfrentou enormes dificuldades. Assim como outro judeu que fugiu do nazismo durante a guerra, o húngaro Paulo Rónai, manteve contato com intelectuais como Álvaro Lins e Alceu Amoroso Lima, que lhe abriram caminhos na imprensa, pois rapidamente aprendeu nossa língua e apossou-se de nossa cultura. Nacionalizou-se em 1959 e escreveu diversos livros abrangendo diversos campos, mas principalmente a crítica literária. Em 1947 escreveu a monumental História da literatura ocidental, oito volumes abrangendo milhares de escritores, de Homero até a literatura moderna.

Esse grande mestre, que enriqueceu nossa cultura, morreu em 1978, aos 77 anos, vivendo conosco quase quarenta anos, também foi um crítico e resistente da ditadura militar, com suas análises precisas de nossa realidade política, devido à sua enorme experiência com o fascismo europeu. A publicação de O fim da canção, capítulo do livro desenterrado de um sebo belga por André Rosa, é uma bela homenagem à memória de nosso grande Carpeaux, que tanto amou nosso país.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

O MANUAL

É com extremo júbilo que venho manifestar meu encanto com o Manual do muambeiro mirim, publicado na piauí_204, setembro, esperando que seja transformado em uma seção fixa pelo seu eminente caráter pedagógico e patriótico.

É preciso que nossa sociedade civil abra mão dos benefícios com que este órgão de Estado [Exército Brasileiro] nos brinda desde a República. É certo de que doravante nada de meios-fios pintados, nem qualquer informação atual sobre transporte de valores, a sagacidade de vender e recomprar no momento oportuno, além da proteção contra vizinhos ávidos para participar deste aprisco formidável.

Por outro lado, estaremos livres da única coisa que restou como ensinamento da missão francesa que veio organizar esta laboriosa classe. Sempre que surpreendido por inimigos internos em seus nobres místeres, bradar com ar ofendido ça m’enerve!.

SEBASTIÃO MAURÍCIO DUARTE PESSOA_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO AO ESTILO DO MANUAL: Prezado muambeiro mirim, você também se enerva sempre que um civil – esse ser de classe menor – escreve uma carta, a ser tornada pública por uma revista comunista, onde ele desdenha das Forças Armadas? Tenha calma, e espelhe-se nos grandes generais de pijama, como o nosso querido senador Hamilton Mourão, que acaba de apresentar um Projeto de Lei propondo a anistia para quem participou da intentona golpista do 8 de janeiro. Em vez de reagir com o fígado, use o cérebro! E também o Centrão!

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Como liderança e cacique do povo Paiter-Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia, me manifesto aqui sobre a matéria Sangue ancestral (piauí_205, outubro) de autoria do jornalista Bernardo Esteves. De início, destaco a importância de um conteúdo específico que diz respeito ao meu povo. Assim, o texto traz novamente para o debate público, tal como pesquisadores (como Carlos Coimbra Jr. e Ricardo Ventura Santos, da Fundação Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro) e veículos da mídia já fizeram no passado, a grave questão da comercialização de amostras biológicas dos Paiter-Suruí e de outros povos indígenas, que foram coletadas por pesquisadores estrangeiros nos anos 1980. Essa situação, que causa muita revolta e dor no meu povo, já se arrasta por décadas e precisa ser definitivamente resolvida pelo governo brasileiro. Nesta manifestação quero também deixar muito explícita, de forma a esclarecer qualquer mal-entendido, quanto à relação entre o pesquisador Carlos Coimbra Jr. e equipe e o povo Paiter-Suruí. Coimbra esteve pela primeira vez em nosso território muitas décadas atrás, em 1979. São, portanto, muitos anos de envolvimento, respeito e amizade entre o meu povo e Coimbra, um dos mais destacados pesquisadores no campo da saúde dos povos indígenas no Brasil. As pesquisas em saúde que Coimbra coordenou no território Paiter-Suruí ajudaram a melhor conhecer e mesmo contribuir para atenuar graves crises sanitárias, além de terem influências sobre as políticas públicas em saúde indígena no país. Ao longo dos anos aconteceram inúmeras visitas de parentes paiter-suruís ao Rio de Janeiro, à Fiocruz e a outras instituições, quando foram recebidos por Coimbra, o que reflete várias frentes de atuação em apoio a causas indígenas. Nesse cenário, a representação das circunstâncias atribuídas à atuação de Coimbra na matéria da piauí, que possivelmente decorre de compreensões que “misturam” fatos históricos – o que é inclusive indicado como possibilidade na matéria –, não reflete a realidade das situações e a visão dos Paiter-Suruí sobre o pesquisador. Nosso povo reconhece e valoriza parcerias com pesquisadores e pesquisadoras que desenvolvam investigações e iniciativas que respeitem a ética e são comprometidos com os direitos indígenas e a justiça ambiental e social. Que nosso apreço e respeito por Carlos Coimbra Jr. e seu grupo de pesquisa na Fiocruz sejam amplamente divulgados e que fiquem como o efetivo registro dos fatos.

ALMIR NARAYAMOGA SURUÍ, CACIQUE-GERAL DO POVO PAITER-SURUÍ_TERRA INDÍGENA SETE DE SETEMBRO, RONDÔNIA

ERRATA

O texto Em busca do elo perdido (piauí_205, outubro) afirma que, em 1973, a epigrafista americana Linda Schele estava acompanhada de seu marido quando tentou decifrar o mural de 96 Glifos, em um sítio histórico maia. Na verdade, o parceiro de Schele na empreitada era o estudante de graduação Peter Mathews. A correção foi incluída na versão digital do texto.


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