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UM GRINGO EM GOIÁS

O youtuber americano que se encantou com a cultura brasileira
Imagem Um gringo em Goiás

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Pastel, garapa de cana, buchada, PF com arroz e feijão. Clinton Manigault, youtuber americano, provou esses pratos bem brasileiros pela primeira vez em novembro do ano passado. “Não acredito que até hoje eu não sabia que isso existia”, disse em um vídeo compartilhado em seu perfil pessoal, quando experimentou o singular sabor do pequi.

Manigault é o criador e apresentador de um canal do YouTube chamado Goony­Googles, que em janeiro contava com 328 mil inscritos. De início, era só mais um entre tantos canais sobre cinema, televisão e streaming tocados por críticos amadores. Com o tempo, porém, ele encontrou um diferencial: tornou-se um entusiasmado divulgador da música e do cinema made in Brazil. Embora em inglês, seus vídeos conquistaram fãs brasileiros. E foi graças aos incentivos entusiasmados dos seguidores que ele veio a comer pequi em Goiânia.

Tudo começou em 2020, enquanto o nova-iorquino radicado na Carolina do Norte trabalhava remotamente com gestão de suprimentos. Isolado em casa pela pandemia, ele passou a comentar filmes e séries na plataforma de vídeos. “Eu estava procurando algo para fazer, como todo mundo. Assistia a muitos canais de YouTube naquela época e muitas pessoas me falavam para fazer algo parecido, porque gosto de conversar, rir e brincar”, conta.

Ele comprou um microfone e resolveu fazer reacts – vídeos que registram a reação imediata do youtuber a filmes, músicas e vídeos. Com um enquadramen-
to fixo e uma tela dividida reproduzindo o que estava assistindo, começou a pro­duzir conteúdo para o GoonyGoogles. Os primeiros registros do youtuber, um homem negro de 38 anos, foram comentários a respeito de Lovecraft country, série cujo tema forte é o racismo. “Eu tinha muito para falar sobre assuntos da série: direitos civis, segregação racial nos Estados Unidos”, diz.

Manigault não se ocupava só com lançamentos: ele também comentava filmes que não tinha visto na época da estreia nos cinemas, como os da franquia Harry Potter e o sul-coreano Parasita. E assim chegou a uma “história de gângster do Brasil”: Cidade de Deus. O filme de Fernando Meirelles, de 2002, o impressionou pela construção dos personagens e a similaridade da trama com conflitos sociais dos Estados Unidos. Que horas ela volta?, Central do Brasil e Bacurau, entre outros filmes brasileiros, passaram a figurar no canal, ao lado de séries como Breaking Bad e Westworld.

O comentário sobre Carandiru, feito a pedido de espectadores, não foi positivo: Manigault achou que a narrativa apressada não se aprofundava nos melhores personagens. Ainda assim, por mistérios dos algoritmos, o vídeo foi indicado a muitos usuários brasileiros. Vários deles deixaram comentários recomendando que Manigault ouvisse um rap sobre a chacina de 1992 na casa de detenção em São Paulo.

“As pessoas me disseram para ouvir uma música sobre o massacre, de um grupo de rap. Hip-hop é meu gênero favorito, mas nunca ouvi o hip-hop brasileiro. Estou interessado em ver o que vai rolar”, diz Manigault no início do vídeo. Ele gostou de tudo que ouviu: os beats, o modo de cantar de Mano Brown, a letra que acompanhou na legenda em inglês – e Diário de um detento, dos Racionais, impulsionou sua incursão pela música brasileira, em particular aquela feita por artistas negros.

Pelos ritmos e versos de Sabotage, Facção Central, Tim Maia, Jorge Aragão, Elza Soares, Cartola e Zeca Pagodinho, ele foi conhecendo o Brasil e fez a virada definitiva do GoonyGoogles para os temas brasileiros. Nos reacts, busca referenciais dos Estados Unidos para falar do que ouve: diz que a música de Jorge Ben Jor poderia estar na trilha sonora de filmes de blaxploitation (o cinema popular negro dos anos 1970) e que a postura de Alcione lembra a das divas da música americana.

Com o sucesso entre o público brasileiro, o GoonyGoogles passou a se descrever como “um canal baseado nos Estados Unidos que experimenta a arte brasileira através da música e do cinema”. A definição, porém, deve ser atualizada em breve, pois o canal já não está baseado nos Estados Unidos, e sim no Brasil.

Uma visita ao país já estava nos planos do youtuber quando uma amiga que fez pelas redes sociais o convidou a passar um tempo em Goiânia, onde ela mora. A mudança veio em boa hora para ajudar Manigault a superar uma crise de depressão e ansiedade. “Eu estava tão nervoso com a viagem em si que não me preocupei se seria difícil ou não. Quando cheguei, me senti em casa”, diz o youtuber, que desembarcou em Goiás em novembro passado durante uma das maiores ondas de calor ocorridas no Centro-Oeste.

A adaptação ao clima não é o único desafio: ainda tateando no aprendizado de português, Manigault precisa encontrar um emprego que possibilite sua permanência no país. Também procura meios de profissionalizar seu canal – por causa dos direitos autorais das músicas que comenta, não pode monetizar os vídeos.

Ao chegar ao Brasil, ele não fez alarde, mas desde suas primeiras saídas à rua foi abordado por pessoas que perguntavam se era o “gringo do YouTube”. Depois de compartilhar a localização e a intenção de ficar no país, mais seguidores passaram a reconhecê-lo. Também vem recebendo ofertas de hospitalidade em diversas cidades. Por aqui, teve a oportunidade de ver shows de artistas que figuraram em seus reacts, como Dexter, Black Pantera e Racionais, e aumentar seu repertório com novos nomes, como Liniker, Marisa Monte e Lia de Itamaracá.

Suas experiências no país aos poucos estão virando vlogs no canal, inclusive a jornada para obter itens que julga indispensáveis à vida no Brasil: CPF, cartão do SUS, ventilador e um par de havaianas. Em uma viagem a São Paulo, ganhou de um tatuador a possibilidade de gravar as famosas sandálias no braço. “É para comemorar a primeira coisa brasileira que tenho”, diz.


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Jornalista e escritora, publicou o livro de poemas Em Obras (Urutau) e a coletânea de contos Papéis (edição da autora)