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Wilson Tosta 26 Fev 2024
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Há seis anos, no dia 12 de março, o engenheiro eletricista Silvério da Silva Moron sentou-se em uma pracinha no Rio de Janeiro com uma placa onde se lia “Tiro dúvidas de matemática e física grátis” – e esperou. Demorou alguns dias para que um primeiro aluno se aproximasse. Era um estudante de engenharia com dificuldade no curso. Começou assim o projeto que Moron batizou de Adote um Aluno. O objetivo é um só, na expressão de seu criador: compartilhar conhecimento.
A princípio uma modesta iniciativa individual, o Adote um Aluno logo se ampliou. Um vídeo de Moron dando aula na praça viralizou nas redes sociais, e o professor foi convidado para o Encontro com Fátima Bernardes, na Globo. Mais alunos e professores voluntários foram atraídos para o projeto. No auge, em 2019, o Adote um Aluno chegou a oferecer aulas até de fotografia e contabilidade. No ano seguinte, porém, foi abatido pela pandemia – e quase morreu.
Durante a pandemia, Moron ajudou alunos por telefone e WhatsApp: resolvia equações, as fotografava e enviava para eles. Em outubro de 2021, ressuscitou sua criação, que já conquistou quase metade do número de voluntários e alunos que tinha antes. “Nós chegamos a ter 90 voluntários e atingir 450 alunos cadastrados. Agora estamos com 35 voluntários e cerca de 250 alunos”, diz.
Formado pela Universidade Gama Filho em 1977, Moron, hoje com 69 anos, trabalhou no Aeroporto Internacional do Galeão e teve duas pequenas empresas de engenharia elétrica – uma predial, outra de automóveis. Apaixonado por números, gostava de, em casa, depois do trabalho, resolver problemas de matemática e física, “para desestressar”. Começou a dar aulas particulares em 2003. Em 2018, resolveu lecionar de graça, na rua – em seu domicílio continuaria a ensinar os alunos pagantes. Lançou o Adote um Aluno na Praça Compositor Mauro Duarte, um corredor entre prédios que liga duas ruas do bairro de Botafogo. O lugar tem um parquinho, um canto para os cães e dois caramanchões, um deles ocupado por pessoas em situação de rua.
Hoje, ele segue dando aulas na praça onde tudo começou – e em mais três pontos da cidade: no Aterro do Flamengo (junto a uma passarela perto da Rua Almirante Tamandaré), no bairro Peixoto (Praça Edmundo Bittencourt) e no Humaitá (Largo dos Leões). “Eu trabalho com todo nível da matemática”, diz Moron. “Então tem aluno com dúvida em conta de multiplicação, em multiplicação de número decimal. E tem aluno, rapaz, com dúvida em derivada, limite, integral, já matemática avançada.” Com outros professores, o Adote um Aluno atende estudantes também nas praças Edmundo Rêgo (no Grajaú) e Xavier de Brito (na Tijuca). O projeto expõe suas atividades em páginas no Facebook e no Instagram.
As histórias contadas por alunos e professores do projeto mostram experiências de ensino bastante diversas – e sempre gratificantes para os envolvidos. Raphael Nascimento, de 32 anos, formado em engenharia de produção pela UniCarioca em 2022, foi o terceiro aluno de Moron na praça. Encontrou um atendimento individualizado que o ajudou a se manter em dia com o que os professores ensinavam na faculdade. “Tem gente que, por medo, acaba não perguntando e fica com dúvida. Aí o professor vai levando a matéria, que vai virando uma bola de neve, e a pessoa não consegue mais resolver o problema”, diz. “Com o Silvério, eu falava: ‘Não entendi aqui.’ Ele voltava, tinha paciência.” Mesmo na pandemia, Nascimento recorreu a Moron por telefone para esclarecer dúvidas.
A pedagoga aposentada Ana Beatriz Pereira, de 63 anos, graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre pela PUC-Rio, dá aulas de português na Praça Mauro Duarte, às terças e quintas. Atende sobretudo alunos do ensino fundamental e adultos que querem voltar a estudar. Mas já houve quem lhe pedisse ajuda para preencher formulários com correção – tal é a barreira que muitos brasileiros veem no idioma. “E tem uma dificuldade mais complicada, que é a de colocar no papel as próprias ideias”, diz a professora.
Cláudia Gurgel, de 55 anos, começou o trabalho voluntário depois da pandemia. Ela é doutora e mestre em direito e pesquisadora da área na UniRio, mas não leva questões legais para a pracinha de Botafogo: dá aulas de francês. Para chamar a atenção, abriu as atividades com um estudante famoso – o próprio Silvério Moron. “Ele foi meu primeiro aluno”, conta, lembrando como as pessoas paravam para observar a lição na pracinha. Gurgel tem alunos em diferentes níveis de proficiência. Só uma pessoa do grupo, uma mulher de meia-idade, está no nível avançado: “Quando ela entra em contato comigo no WhatsApp, escreve em francês.”
A educação ao ar livre esbarra em algumas dificuldades típicas da cidade e do país. Nem sempre é possível ficar na praça. Quando o Sol está forte ou chove, professores e alunos buscam refúgio no Shopping dos Sabores, uma galeria vizinha à praça, onde os comerciantes permitem a ocupação, fora do horário de almoço, de parte das cerca de quarenta mesas.
“Olha, tem os seus desafios”, diz Fernando Tanus, de 41 anos, voluntário do Adote um Aluno. Graduado em turismo, ele se especializou no ensino de português para estrangeiros. “Às vezes”, diz Tanus, “os moradores de rua se embebedam e fazem muito barulho, atrapalhando as aulas”. A praça também já foi palco de disputas amorosas. “Teve vez que um casal começou a brigar: ela gritava, saía e voltava…” Tanus também se admira com a quantidade de pessoas que logo de manhã passam no local bebendo cerveja no latão, aparentemente sem rumo.
Um de seus alunos é um refugiado russo de 34 anos, que conversou com a piauí sob anonimato. No Brasil há cerca de oito meses, ele estudou inglês e latim na Rússia e diz que essas línguas o ajudam no aprendizado do português. Deixou seu país em setembro de 2022 e passou temporadas no Cazaquistão, na Geórgia e na Turquia, antes de desembarcar no Brasil. Passou primeiro por São Paulo, mas queria se estabelecer no Rio. As lições de português já permitem que ele distinga as variedades locais do idioma. “É muito gostoso o sotaca carioca”, diz.