cartas
Abr 2024 16h15
9 min de leitura
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Costumo ler a briosa piauí antes de dormir. Trata-se da minha revista de cabeceira. Como ontem estava sem sono, emendei três matérias seguidas da edição de março: Deltan Dallagnol (O messiânico), Antonio Candido (Histórias em torno de um livro…) e Mickey Mouse (Sem pai nem mãe). Não entrarei em minúcias sobre o tipo de sonhos que a combinação de tais leituras induziu, mas posso dizer que nem o Zolpidem causou semelhantes níveis de lisergia e alucinação. Obrigado por isso.
EDUARDO DE LIMA GALDURÓZ_IBIÚNA/SP
NOTA IMPARCIAL DA REDAÇÃO: Mas com o Botafogo que é bom não sonhou, né?
É certeza que muitos leitores se sentirão nocauteados com a leitura das matérias O messiânico e “Um poder político extraordinário”. Pqp! Inacreditável! Só mesmo lendo a matéria O que eu tenho a ver com tudo isso para se ter um pouco de esperança. Vai, Brasil!
MÁRIO RODOLPHO LEONE JR._SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP
OUTRA NOTA IMPARCIAL DA REDAÇÃO: Esse aqui tem cara de quem sonhou com o Botafogo.
Começo meu ritual piauístico me deliciando com as capas. Foi hilário ver os generais orelhudos, em posição de sentido, olhando o Sol quadrado.
Vou me deter no apaixonante texto do João M. Salles (O que eu tenho a ver com tudo isso, piauí_210, março), que tem a minha eterna gratidão pela piauí existir. Assino há muitos anos, pois preciso ter a certeza de receber em casa, em vez de peregrinar pelas bancas. João descreve seu amor pelo alvinegro e me levou ao passado do Glorioso. Eu era estudante e perto do colégio, num arremedo de hotel, se concentravam os jogadores. Pedi autógrafos. Tenho um tesouro: Nilton Santos, Garrincha, o goleiro Leão, o time todo.
A doçura da descrição da derrocada de 2023 me fez lembrar as Odes de Pablo Neruda. O que importa são as palavras no lugar certo. O relato do jovem, que nem sabia o porquê de ser botafoguense, me emocionou. Obrigada por contar o segredo da estrelinha, ao final de todos os textos. Minha família agradece por revigorar nossa paixão. Nossa estrela seguirá nos motivando.
CLARA DAVIDOVICH_RIO DE JANEIRO/RJ
MAIS UMA NOTA IMPARCIAL DA REDAÇÃO: Na piauí toda a redação também é botafoguense sem saber por quê. É deveras emocionante.
BOTAFOGO
Por ser Flamengo, já sofri bastante do outro lado do Maraca, mas não tenho sequela. Até porque sempre gostei mais de futebol bem jogado do que do meu time de coração, daí a requerer, com toda ironia possível, o meu lugar de fala.
O texto O que eu tenho a ver com tudo isso captura o leitor já nos primeiros parágrafos, dos quais destaco a alusão à enorme tristeza a que uma partida pode levar um torcedor: “Essa tristeza não é uma pose. É a verdade. O absurdo da situação – o contraste entre o tamanho da dor e a frivolidade do motivo – define a condição do esmagado.”
Nem Nelson Rodrigues pinçaria uma palavra tão forte para tal opressão, tão real quanto nonsense.
O trecho referente à SAF e ao Textor merece atenção, assim como a saída de Luís Castro por um capricho milionário de cr7. É como se o príncipe saudita Bin Salman tivesse mandado esquartejar o Manequinho, símbolo do clube. Entretanto, o texto cresce com Tiquinho, o não instagramável. E ganha contornos de drama a partir do jogo contra o Flamengo no segundo turno, a primeira derrota no Tapetinho, já com outro gajo d’além-mar no timão.
A evolução de drama a tragédia não tardaria. Documentarista de mão cheia que é, talvez João pudesse começar um filme sobre o suplício no início do segundo tempo do jogo contra o Palmeiras. Ele mesmo poderia estrelar a primeira cena, ao pedir o fim do jogo no primeiro minuto do segundo tempo, com 3 a 0 no placar depois de um show de bola no primeiro.
Já a sequência seria toda baseada na diferença entre otimismo e esperança, em última análise o que rege o botafoguense. Ou o Botafogo, que há de se refazer do suplício para fazer brilhar a estrela solitária, tão solitária quanto a dor de cada um.
SÉRGIO BANDEIRA DE MELLO_RIO DE JANEIRO/RJ
QUARTA NOTA IMPARCIAL DA REDAÇÃO: Mas isso seria um documentário ou uma condenação ao eterno sofrimento, à moda Sísifo?
Só queria registrar que, depois de ler a deliciosa edição de março, comprei uma camiseta do Fogão. Por favor, não contem para a minha família gremista.
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
QUINTA NOTA IMPARCIAL DA REDAÇÃO: Ramiro, querido, passa aqui no administrativo da piauí pra pegar sua assinatura vitalícia.
A matéria O que eu tenho a ver com tudo isso discorre sobre a saga do Botafogo, que ajudou Rodrigo Maia a evitar um problema com a Lava Jato, na qual seu apelido na lista da Odebrecht era Botafogo – e ele alegou que, assim como o time, também nunca ganhou nada.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
QUINQUAGÉSIMA OITAVA NOTA DA REDAÇÃO: Ao estilo Botafogo, ele prometeu um Ulysses Guimarães, e entregou um Arthur Lira.
É emocionante para um velho torcedor o texto sobre o Glorioso. Meu pai, juiz no Norte de Minas, julgou por bem pedir demissão, uma vez que a sociedade local não aceitava suas sentenças contra assassinatos, roubos e outras atividades, mormente quando praticadas por membros da elite local. Alguns tiros pela madrugada reforçaram essa decisão.
Após breve passagem pelo Espírito Santo, a família mudou-se para o bairro do Humaitá, no Rio. Menino de classe média, pouco havia a fazer. O possível foi feito: aprendi a nadar na Lagoa Rodrigo de Freitas, catava marisco nos muros da Praia do Flamengo. No mais, havia peladas sem hora pra acabar e clássicos contra moradores de favela.
O resto do tempo era dedicado ao Botafogo. Naquela época a escalação era: Oswaldo, Gerson e Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo, Octávio e Braguinha. Certa feita, Oswaldo me disse que para aqueles bundões só faria defesa com uma única mão. E assim fez até o final. Aos pontas-direitas, Nilton Santos marcava com palavrões variados, impedindo que tocassem na bola. Até que Ávila levou um total desajeitado que o driblou diversas vezes – o que fez com que Nilton Santos declarasse que seria melhor contratá-lo, pois contra ele não jogaria. Surgia o caçador de passarinhos e de laterais, o Garrincha.
SEBASTIÃO MAURÍCIO D. PESSOA_RIO DE JANEIRO/RJ
DUCENTÉSIMA NOTA IMPARCIAL DA REDAÇÃO (PERDENDO A CONTA…) Se seu pai ainda estivesse na ativa, a gente ia pedir pra ele soltar uma sentença anulando retroativamente aquele 4 a 3 pro Palmeiras.
OPERAÇÃO LAVA JATO
Reportagem de fôlego feita por uma competente força-tarefa de jornalistas revela os meandros de uma operação feita por outra força-tarefa que acidentalmente chegou a um grandioso esquema de corrupção envolvendo a nata da administração pública (O messiânico, piauí_210, março). Movidos pela ambição de se tornarem os paladinos da justiça e diante de uma teia de provas escamoteadas, robustas redes de proteção, contas bancárias cifradas no exterior e da percepção de uma intransponível dificuldade de combatê-lo dentro do devido processo legal, tentaram passar ao largo dos parâmetros processuais contando com a pressão de uma opinião pública escandalizada, municiada diariamente pela imprensa. Acabaram dando com os burros n’água, graças aos serviços prestados por um hacker que acabou dando o motivo para que a Justiça anulasse tudo o que havia sido apurado. E vida que segue.
LUIS ROBERTO BEOLCHI_SANTOS/SP
MILÉSIMA SEGUNDA NOTA ETC. ETC.: Por que essa carta não fala nada do Botafogo?
Nunca consegui ser simpático ou ter esperança na Lava Jato, e a excelente matéria O messiânico (piauí_210, março) me fez revisitar aquelas primeiras impressões e, por que não, confirmá-las.
Desde os primórdios, pelas falas de seus idealizadores e entusiastas, dentre eles Dallagnol, tudo na operação sempre me pareceu saturado de um maniqueismozinho cafona e até mesmo infantil a embotar qualquer possibilidade de cognição séria e confiável dos eventuais ilícitos cometidos nas administrações do PT.
Lembro que, no fatídico dia do PowerPoint dos balões, Dallagnol avisou que não tinha provas, mas convicções, palavra típica de um homem movido por razões divinas. Muita fé e pouca técnica. Quando as certezas da fé, sinceras ou não, norteiam a atuação do servidor público, que deveria pautar-se pela legalidade estrita, a segurança jurídica, bem como os direitos e garantias individuais historicamente conquistados pagam o pato. Depois de tanta injustiça, fica, ao menos, o aprendizado. Não vou falar “Eu avisei”, é deselegante, mas que eu avisei, eu avisei.
FERNANDO GOMES SCHETTINI_MURIAÉ/MG
MILÉSIMA TERCEIRA: Nem essa.
PAULO FREIRE

A senhora Francisca de Brito, retratada na reportagem “De repente, eu aprendi” (piauí_207, dezembro 2023), lê a edição da revista. Ela é uma das alunas alfabetizadas pelo método de Paulo Freire no município de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963. Foto de Marileide Matias.
PIAUÍ_209
A cantora irlandesa Sinéad O’Connor lançou um hit poderoso no final dos anos 1980, Nothing compares 2 U. Até hoje, ao ouvirmos os primeiros acordes já nos reportamos a ela. Taylor Swift não tem algo assim. É claro que os fãs de Swift são capazes de lembrar vários sucessos dela e cantarolar. Mas somente os fãs são capazes de tal intento. É porque Sinéad O’Connor estava no ápice de sua carreira em uma outra época, a dos videoclipes, da MTV, do império televisivo. Outra excelente banda de origem irlandesa, o U2, também teve seus hits, bem como a banda americana R.E.M (Losing my religion). Swift é da nossa época fragmentária da internet, do streaming. Tudo isso me veio à mente depois do excelente ensaio de Roberto Muggiati (A Big Sister do pop, piauí_209, fevereiro). O que ele fez foi uma verdadeira aula da cultura pop e seus adorados e adoradores. Mas fica difícil listar numa edição tão rica e de tanta qualidade o que há de melhor. Essa minha mensagem poderia ser dirigida ao ótimo texto sobre César Aira, de Alejandro Chacoff (O mago). Ou a triste descrição de Mônica Manir sobre as sequelas que a pandemia nos deixou (Sob o peso do mundo). Mas fico com outro assunto. A síntese, no Diário do Geraldo (Minhas férias radicais), sobre a CPI que o padre Júlio Lancellotti sofre: Para agradar àqueles adoradores do inominado, abra uma igreja, enriqueça à custa dos pobres ao invés de ajudá-los. Nocaute certeiro em quem merece.
GERALDO MAGELA MAIA_BELO HORIZONTE/MG
ERRATA
O procurador Eduardo Pelella, ao contrário do que informou a reportagem, não fazia parte do grupo de Telegram para o qual Deltan Dallagnol enviou mensagens.
As correções foram inseridas na versão digital.