cartas
Jul 2024 16h15
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VALDEMAR
Tanto assunto por aí, coisas interessantes, e abro a revista com uma matéria sobre Valdemar Costa Neto??!!!
É por essas e outras que perco a vontade de comprar a piauí. Vocês são melhores que isso, né? Ou não?
DANI LINDENBAUM_SÃO PAULO/SP
NOTA SINCERA DA REDAÇÃO: Não.
GEOPOLÍTICA
Demorou quase um século para a humanidade perceber a farsa da democracia ocidental liderada pelos Estados Unidos.
Só aceitam democracia se os eleitos forem subservientes. Intervenções violentas e destrutivas, imposição de exploração; bisbilhotar nosso plano econômico, bisbilhotar nossas centrífugas de enriquecimento de urânio. Nem dentro do próprio país se respeita a vontade da população, criam regras que dificultam a participação e já tentaram assassinar doze presidentes, tendo êxito em quatro.
A matéria Entre dois mundos (piauí_213, junho) mostra como a população é descrente do sistema, exausta, e ao ver piorar sua vida, abraça a extrema direita que oferece soluções rápidas, fáceis e definitivas, do tipo: “Vou matar o tigre da inflação com um tiro só” (Fernando Collor); “É polícia na rua e bandido na cadeia” (João Doria).
A China se tornou uma potência melhorando a vida do seu povo, e essa é a tendência, onde o Brics tem maior potencial tanto de população quanto de recursos. O Império Romano e o Império Mongol se esfacelaram por lutas internas; os Estados Unidos não têm lutas internas, mas não podem se impor militarmente, seu arsenal atômico é um mico, pois ninguém perde uma briga sem usar as armas que tem e o arsenal hoje pode destruir a Terra dezenas de vezes.
O que virá no lugar da democracia pode ser a autodeterminação dos povos, pois nenhum governo se mantém com a população monoliticamente contra.
O perigo são os transtornados.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
PLANO REAL
A piauí_213, junho, inovou ao trazer um significativo encarte com fac-símiles dos documentos, em folhas duplas, que formam A certidão de nascimento do real, em artigo de André Lara Resende. O economista conseguiu chamar a atenção para os detalhes e meandros do que hoje é literalmente moeda corrente no país. Temos de lembrar que pelo menos 40% da população brasileira de hoje sequer era nascida. É por isso, talvez, que o jovem não consiga avaliar os avanços nos governos tucanos e petistas – uma sequência aprimorada daqueles. Quisera outras mazelas sociais pudessem ter sucesso a partir de uma gênese tão detalhada, quanto fundamentada. Ou desejada, que é o aspecto principal do Plano Real, gestado por mais de uma década. Difícil saber o quanto foi vontade de uma solução social e o quanto foi uma elaborada ferramenta para derrotar Lula nas eleições de 1994 e 1998, mas fato é que funcionou.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA EDITORIALIZADA DA REDAÇÃO: O diretor da piauí também deveria publicar a certidão de nascimento de outras grandes invenções do Brasil, como o bolo de rolo, o filé à Oswaldo Aranha e o bolsonarismo moderado.
CAETANISMO
Leitor assíduo da revista, fiquei desconfortável com o artigo A síndrome caetanista (piauí_212, maio), assinado por Luigi Mazza. O autor do artigo, no afã de identificar, acertadamente, diga-se de passagem, certa impotência de parte da esquerda que se nega a entender a realidade do Brasil atual, comete não poucos erros e desentendimentos dos acontecimentos que evoca e, de quebra, interpreta de maneira simplista a Tropicália de Caetano – sim, porque existem outras. Para começar, a escolha do vídeo com artistas e políticos progressistas ao redor de Caetano, embora possa sugerir, como metáfora, um exemplo de distanciamento da realidade atual – nas palavras do autor, uma “negação” da derrota –, é, no mínimo, injusta ao escolher um momento que é, simplesmente, de descontração, como parte de uma estética política. Sim, é comum, diante de um ídolo, as pessoas se desarmarem um minuto, ainda mais nesses sufocantes tempos – será que o autor não se desarmaria diante de Tom Zé? Confesso que esteticamente não é bom, mas, num momento de descontração como este, precisaria ser? Às vezes, um cachimbo é só um cachimbo.
O maior tropeço, porém, vem do (des)entendimento do tropicalismo (sempre o de Caetano!) tão somente como uma mistura do arcaico e moderno, como síntese desses elementos e como expressão anacrônica de uma identidade. É possível chegar até aí, mas, se o autor quisesse avançar mais, enxergaria nessa miscelânea também a constatação da violência inevitável desse encontro e não só na identidade entre contrários. Sim, porque, curiosamente, é verdade, o autor cita o caráter violento do tropicalismo (“um país exuberante, mas terrivelmente violento”), para, logo depois e durante todo o artigo, focar no dado da identidade, na harmonia “engraçada” e “exótica” entre contrários. Se desenvolvesse mais o dado da “violência”, talvez enxergasse no tropicalismo (caetanismo?) algo além do que um simples “caráter de classe”, como quer enxergar. Nisso, é sempre bom lembrar que um dos filmes que Caetano assumidamente via como detonador de suas ideias era justamente o violentíssimo Terra em transe, de Glauber Rocha, ou que as performances dos tropicalistas eram recheadas de cenas provocativas – como apresentar-se com uma pistola apontada para a cabeça num programa de televisão. O anacrônico, no tropicalismo de Caetano, aparecia como o dado violento diante de uma parte da sociedade – a da esquerda da década de 1960 – que se pensava moderna (não seria esse dado violento também o atual “bolsonarismo”?). Penso até que Bacurau – com sua aposta simplista e autocomplacente na ancestralidade – é o antitropicalismo, por excelência. Ali, apesar das tentativas, não há violência, há evocação de um “povo” ainda idílico e, pior, essencializado. Nesse ponto, concordo completamente com o autor: Bacurau é moralista e sua finalidade é a catarse simples. Nada mal como exemplo de negação da realidade! Ponto pro Luigi! Mas, em seguida, eu diria que o desalento que o autor do artigo assume, ao ver as performances de certa esquerda atual que não consegue lidar com o dado brutal de uma sociedade que assume o grotesco e a violência, é o irmão siamês do tom debochado e violento que os tropicalistas lançavam para a esquerda dos anos 1960, que procurava o “povo”, ali, onde ele nunca estava (o autor não enxergou isso?). Aliás, a bibliografia sobre essa constatação da procura equivocada pelo “povo” é grande e, aqui, não cabe evocar apenas o excelente artigo de Roberto Schwarz, sem entendê-lo de todo.
Por fim, penso que a sede por diagnosticar a cegueira da esquerda diante de uma realidade que a violenta fez com que o autor procurasse algo para além do cachimbo. O autor poderia seguir outro caminho. Na dúvida, seria mais pródigo ficar com Valter Hugo Mãe, que, em vez de ficar limitado ao exercício de autoimolação, evoca a existência de alguns que ainda pensam. Aí, talvez, resida a saída, de uma parte da “inteligência” brasileira que acredita que para realmente entender o “povo” é necessário desdenhar, debochar e caricaturar o pouco de inteligência que se produziu no Brasil (mas não é exatamente isso que fazem os “bolsonaristas”?). É ficar atento e forte, pois corremos o risco de, ridicularizando as inteligências raras desse país, tonificarmos a realidade violenta e a ignorância que parte da esquerda teima em não compreender. Como dizemos aqui no Nordeste, de um giro, se pode fazer um jirau.
KLEITON DE SOUSA MORAES_FORTALEZA/CE
ERRATA
Ao contrário do que foi publicado na reportagem O político que escapou das urnas, da piauí_213, junho, Leila e Samyra (já falecida) são as irmãs mais velhas (e não as mais novas) de Valdemar Costa Neto.