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piauí_240 02 Set 2026
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FUTEBOL
Escrevo para elogiar o texto Depois da derrocada (piauí_239, agosto), de João Brizzi Pequeno. O ensaio me levou para muito além da campanha brasileira na Copa do Mundo. Ao discutir a perda de identidade da Seleção e as transformações do nosso futebol, o texto me fez voltar à rua onde aprendi a jogar bola.
Cresci jogando futebol na Rua Franco de Sá, em Piedade, bairro periférico da Zona Norte do Rio de Janeiro, a poucos quilômetros do Engenhão. A rua era estreita e já tinha alguns carros, mas jogávamos mesmo assim. Era golzinho, toque livre, cascudinho e qualquer outra modalidade que coubesse naquele pedaço de asfalto. A bola transformava a rua em campo.
Até a violência atravessava nossas partidas. Quando começava um confronto armado, cada um corria para sua casa ou para sua vila. Nós nos abaixávamos e saíamos correndo. Depois, quando era possível, a vida seguia – e a bola voltava a rolar.
Daquelas partidas nasceu, em 2006, o Franco Futebol Clube. Disputamos vários campeonatos e conquistamos dois. E havia um sonho compartilhado entre nós: todos queríamos, em algum momento, ser jogadores de futebol.
Nas Copas do Mundo, esse sentimento ganhava outra dimensão. Enfeitávamos a rua com as cores do Brasil e nos reuníamos para assistir aos jogos. A Seleção não estava apenas na televisão. Ela fazia parte da nossa infância, das conversas, das brincadeiras e da ideia de que aquele futebol praticado entre carros, muros e portões tinha alguma relação com Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano e tantos outros.
Por isso me chamou especialmente a atenção a reflexão de João Brizzi Pequeno sobre um futebol brasileiro que passou a mandar seus principais talentos cada vez mais cedo para o exterior. O ensaio mostra como a formação deixou progressivamente de ter como horizonte a permanência dos jogadores nos clubes brasileiros e passou a prepará-los para uma venda rápida ao mercado europeu. Ao mesmo tempo, o autor provoca uma questão importante sobre a identidade que queremos recuperar: a do futebol criativo e envolvente ou simplesmente a de uma Seleção capaz de vencer de qualquer maneira.
Hoje, quando passo pela Rua Franco de Sá, ninguém mais joga bola ali. Há muito mais carros do que na minha época, e praticamente não existe espaço para aquelas partidas que pareciam intermináveis. A rua continua lá, mas uma parte da experiência que tivemos desapareceu.
Talvez tenha sido por isso que Depois da derrocada tenha me tocado tanto. Ao perguntar o que sobrou da Seleção Brasileira, o ensaio também me fez pensar no que sobrou do Brasil que formou a nossa relação com o futebol. No meu caso, um país em que uma rua estreita de Piedade podia virar campo, sede de um clube, arquibancada em época de Copa e lugar onde um grupo de garotos sonhava em ser jogador.
Nenhum de nós chegou à Seleção. Mas algumas das amizades construídas naquela rua continuam comigo até hoje.
Parabéns a João Brizzi Pequeno pelo ensaio e à piauí pela publicação.
FELIPE DUARTE_RIO DE JANEIRO/RJ
Venho, por meio desta, manifestar minha insatisfação com a matéria Depois da derrocada (piauí_239, agosto). Gostaria de inquirir a respeito da omissão, no texto, da vitória brasileira na Copa América de 2019. Não entendi a opção por não incluir esse episódio na reconstrução do histórico recente da Seleção Brasileira.
Alinhado a esse fato, penso que a construção da matéria foi feita de forma pouco profunda ao se propor a analisar as correlações entre o futebol apresentado pela Seleção Brasileira, a trágica carreira de Neymar Jr. e as consequências políticas desses mesmos fatos.
Utilizo este e-mail como forma de registrar meu descontentamento com uma matéria que se apresenta muito distante da qualidade textual historicamente apresentada pela revista (inclusive na presente edição). Infelizmente, o autor, João Brizzi, mostrou-se pequeno demais para atender às expectativas de um leitor acostumado à excelência jornalística e narrativa.
ANDRÉ SANCHES_campinas/SP
QUESTÕES VULTOSAS
Escrevo este e-mail após a leitura do texto A reconquista do futuro (piauí_239, agosto). Li o texto com grande interesse e, durante boa parte dele, com admiração. É uma análise histórica e conceitualmente sofisticada, capaz de reconhecer nuances, contradições e responsabilidades que raramente cabem nas simplificações do debate político brasileiro. Justamente por isso, sua conclusão me decepcionou.
Depois de uma reflexão tão cuidadosa, chegar à ideia de que, diante das alternativas eleitorais, resta essencialmente uma única escolha possível parece pouco coerente com a complexidade construída pelo próprio texto. A conclusão acaba reproduzindo a lógica binária que há anos empobrece nossa discussão política: de um lado Lula; do outro, Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro. Ao eleitor caberia apenas decidir qual dos dois males considera menos aceitável.
Também me parece frustrante a virtual exclusão de qualquer possibilidade fora desses dois polos. Existem outros candidatos, projetos e perspectivas políticas que, embora tenham menor projeção na opinião pública e sejam menos favorecidos pela dinâmica das redes sociais, mereceriam justamente o olhar de quem se propõe a analisar uma eleição para além de sua superfície. Uma análise dessa qualidade seria o espaço ideal para examiná-los com a profundidade que o debate público normalmente não permite.
O paradoxo é ainda maior quando o texto reivindica a necessidade de o Brasil encontrar caminhos melhores. Se parte relevante dos problemas que enfrentamos foi construída durante o protagonismo desses mesmos campos políticos, é estranho concluir que a saída necessariamente precise estar em um deles. Aceitar como inevitável o cardápio oferecido pela polarização também contribui para que outras alternativas jamais se tornem relevantes. Assim, uma análise que critica com precisão tantos dos padrões e problemas da política brasileira termina, paradoxalmente, por propor justamente a manutenção da lógica que os sustenta.
Por fim, causa estranheza a proposta de acompanhar profundamente o processo eleitoral quando a conclusão sobre o voto parece definida de antemão. Uma análise política continuada só é intelectualmente interessante se conservar alguma possibilidade real de revisão das próprias convicções. Caso contrário, corre o risco de deixar de ser investigação para se aproximar, ainda que involuntariamente, de campanha.
Foi justamente a qualidade do texto que tornou sua conclusão tão frustrante. De uma reflexão tão sofisticada, eu esperava não necessariamente uma resposta diferente, mas uma resposta tão complexa quanto as perguntas que o próprio autor soube formular.
TIAGO DORNELLES FROHLICH_SANTA MARIA/RS
O artigo A reconquista do futuro, do cientista político Sergio Fausto, publicado na piauí_239, agosto, constitui-se de uma rápida resenha dos fatos políticos ocorridos no país desde os anos JK até os dias atuais. A leitura da mesma confirma o registrado no subtítulo do referido texto: A necessidade de líderes com “uma certa ideia do Brasil”.
Do otimismo dos denominados Anos Dourados, período em que houve um florescimento das artes em geral, em 1956 foram editados livros icônicos de nossa literatura, como Grande sertão: veredas e Corpo de baile, do Guimarães Rosa, e O encontro marcado, do Fernando Sabino. Em 1958 apareceu João Gilberto interpretando Chega de saudade, que inspirou a bossa nova, que explodiu pelo mundo. Nesse mesmo ano levantamos na Suécia o primeiro título do Campeonato Mundial de Futebol. Na época havia o Cinema Novo, no qual se destacaram nomes como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Cacá Diegues e muitos outros diretores que projetaram nosso país no cenário internacional. Porém a alegria durou pouco, pois de 1964 até 1985 vivemos sob a ditadura militar, tendo ocorrido entre 1968 e 1974 os denominados anos de chumbo.
Após a democratização, com a inflação crônica herdada dos militares e levada ao extremo pelos governos sucessores, o brasileiro só foi ter alguma tranquilidade após o Plano Real e um governo que deixou um legado fundamental, mas que foi negado pelo seguinte, também sob a égide de um partido social-democrata, o Partido dos Trabalhadores, que, em vez de somar com o adversário, preferiu guerrear e buscar apoio político num Congresso conservador e reacionário. Embora tenham ocorrido progressos na área social, houve problemas de gestão na economia que geraram a crise atual, inclusive com o advento de um governo de extrema direita e as consequências melancólicas para a nação. Após o retorno ao poder do petismo, estamos sob o risco da volta dessa extrema direita reacionária nas próximas eleições em outubro, pois a total ausência de líderes tornou inevitável a atual polarização entre políticos que não apresentam nenhum plano concreto de desenvolvimento, assim como a desmoralização total das instituições, que são a sustentação da ordem democrática.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
O QUE SERÁ?
Uma dúvida sobre a Nota Cronológica da Redação (Cartas, piauí_239, agosto): se vocês disseram que Consuelo Dieguez está apenas começando sua busca pela gênese do caso Banco Master que chegará até os Homo sapiens e neandertais, há a esperança de que venha uma continuação de Os imortais, de Paulliny Tort, com esse master viés? O que podem adiantar sobre esse feat? Aguardo ansioso.
JAMES CASSIANO_RIO BRANCO/AC
NOTA FRANCA DA REDAÇÃO: Soa como uma boa ideia, James, mas sejamos realistas. Beethoven fez feat? Camões fez feat? Frida Kahlo fez feat? Cleópatra fez feat? Consuelo Dieguez tampouco o fará.
CARTUNS
O nível das charges da última edição foi para o fundo do poço, com muita grosseria dispensável. Que voltem cartunistas mais inteligentes e criativos.
FATIMA BUENO_BRASÍLIA/DF
Sou leitor da revista há muitos anos, por isso sinto-me no direito – ou até mesmo dever – de criticar os quadrinhos de Adão Iturrusgarai. Eles estão cada vez mais cansados, datados e sem graça.
“Rasputinho”? Francamente...
Há espaço para gente bem mais talentosa nas páginas da piauí.
JORGE ROCHA NETTO_CAXIAS DO SUL/RS
NOTA FUTURISTA DA REDAÇÃO:

FÉ E PODER
Felippe Aníbal viu a construção do poder por dentro. Mérito dele e privilégio nosso saber como se deu a ascensão de Guilherme Cunha Pereira, O publisher missionário (piauí_238, julho).
Para além da atuação na imprensa e na Gazeta do Povo, é importante o peso da Opus Dei nessa história, especialmente por conseguir subverter a crítica de Dan Brown, autor de O Código da Vinci, a seu favor. Aliás, a atuação da prelazia não é pequena e mereceria uma reportagem de peso, ainda que seu autor precisasse de garantias físicas e mentais para a empreitada.
A política da extrema direita está fortemente associada a fundamentalismos religiosos e, não por menos, a triste imagem que ilustra o artigo de Lilia Schwarcz (A lógica do of course, piauí_238, julho) é de um messiânico Trump. Por aqui, bater continência à bandeira norte-americana se associou a vestir Jesus Cristo com a Estrela de Davi e dizer que são todos símbolos cristãos. Isso antes até do “tariflávio”, que exemplifica o fascismo moderno com cores múltiplas e significados extensos e intensos. Perto do fim do milênio passado, analistas europeus apontavam outro extremismo religioso como uma das mazelas sociais a serem enfrentadas e que causaria enorme dano à estabilidade política internacional: o islamismo. Tal qual os palpiteiros futebolísticos, acertaram apenas metade do placar.
Mas um contraponto é necessário, pois o melhor dos vices atuais, Geraldo Alckmin, tem seu pé na Opus Dei, mesmo que o negue. Outro elemento para a sugerida reportagem.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
KINDLE
Adoro sair com minha piauí debaixo do braço. Do tamanho de um outdoor, ela carrega um certo pedantismo exibicionista pseudointelectual de quem a leva pelas ruas. Mas a versão para o Kindle tem suas vantagens práticas, que acabaram me conquistando. Ainda assim, gostaria de saber se algum editor ou repórter já fez essa experiência de leitura, porque os cartuns na versão digital são ilegíveis de tão pequenos.
Por isso, rogo aos editores que ampliem os cartuns, para que eu possa apreciar esses artistas. Exceto, é claro, caso vocês resolvam trazer de volta o Gotlib. Nesse caso, podem deixar ilegível mesmo.
NORTON TAVARES DA SILVA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA AGRADECIDA DA REDAÇÃO: Informamos por meio desta que a piauí acaba de trocar o seu conhecido slogan. Sai o antiquado “para quem tem um parafuso a mais” e entra o moderno “para o leitor pedante, exibicionista e pseudointelectual”. Obrigado, Norton.
Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação: