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Luigi Mazza Jul 2024 16h49
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Luciano Medeiros olhou para um lado, depois para o outro, e disparou: “Tô sentindo cheiro de maconha. Como pode, se aqui só tem bolsominion?” Por volta das nove da noite, a plateia ia se avolumando no Circo Voador, a mais tradicional casa de shows da contracultura carioca. Camisetas pretas em profusão – com estampa de bandas antigas como Led Zeppelin, ou homenageando filmes como De volta para o futuro. Medeiros, de 49 anos, trajando uma blusa azul e um rubríssimo boné do MST, era uma notável exceção na paisagem.
“Fiz questão de vir assim”, gabou-se. Encostado numa palmeira, bebericando ao lado da esposa, definiu Lobão em duas palavras: “Decepção total.” Tinha 19 ou 20 anos quando comprou pela primeira vez um disco do cantor carioca. Considerava-se um jovem “meio doido” e contestador, e enxergava em Lobão as mesmas qualidades. Por isso, ficou chocado com sua guinada reacionária nos anos recentes. Ainda assim, Medeiros – hoje professor de física numa universidade federal – fez questão de ir ao show. Para manter intactas as boas memórias, ele tenta separar o Lobão bolsonarista do Lobão músico. “Não sei se Chopin era de esquerda”, justificou.
Bolsonarista, a essa altura, talvez seja um termo datado para qualificar o compositor de Revanche. Depois de percorrer Brasília com manifestantes verde-amarelos pedindo a cabeça de Dilma Rousseff, em 2014; de tocar o Hino Nacional na guitarra, enrolado na bandeira do Brasil, durante um ato na Avenida Paulista em 2016; de ter propagado as polêmicas de Olavo de Carvalho; de ter vociferado contra a Lei Rouanet, contra Chico Buarque, Caetano, Gil e meio mundo, Lobão se retratou. Em 2019, foi um dos primeiros a pular do jet ski bolsonarista. Chamou o ex-astrólogo de “traiçoeiro” e disse que se opor a Bolsonaro era um gesto de “higiene moral”. Mas nem todos o perdoaram, e a pecha de reacionário persiste.
O Circo Voador, frequentado principalmente por gente progressista, sofreu nas redes sociais ao anunciar o show da turnê comemorativa 50 anos de vida bandida. Um gaiato insinuou, no Instagram, que haveria “open bar de grama” para o público. Outro comentou: “Vida bandida ganhou outro sentido depois do 8/1.” Apesar do barulho, os 2,2 mil ingressos esgotaram. A apresentação aconteceu no dia 11 de maio, sábado.
Soraya Coelho, mulher de Medeiros, preferia não ter ido. Ela também é professora, mas não de universidade – dá aulas de matemática para detentos do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Só topou acompanhar o marido porque ele insistiu. “Não sei o que eu tô fazendo aqui”, disse. “Tenho uma raaaaiva do Lobão…”
“Existiram vários Lobões até hoje”, reflete o DJ Lencinho, ao introduzir a conversa com a piauí. Jornalista e quadrinista, Lencinho – ou Carlos Smith – desempenha diferentes funções no Circo Voador, onde trabalha há mais de vinte anos. Quase sempre apresenta os artistas da noite com um breve discurso. Naquele sábado, vibrou: “Ele estava com saudade do Circo Voador, e a gente estava com saudade dele também. Então recebam aí – com muita, mas muita, muita alegria –, senhoras e senhores, no palco do Circo Voador… Lobão!”
Ao dizer que houve vários Lobões, Lencinho quis frisar que, antes de se tornar símbolo de uma extrema direita caricata, o músico teve um passado que deve ser respeitado. “Quando o [então prefeito] Cesar Maia fechou o Circo, em 1996, um dos artistas que estava ao nosso lado era o Lobão. Ele inclusive tocou na reabertura, em 2004.” Tocou também muitas outras vezes, a última delas em 2015. “O Lobão tem história com essa lona e com o rock. Se depois você quer tomar um chope com ele, é outro papo. Mas ele tem história.”
Em 2018, iniciando uma nova turnê pelo país, Lobão disse à coluna de Ancelmo Gois, do jornal O Globo, que não tocaria no Rio – isso porque, “por razões ideológicas, o Circo Voador não me considera bem-vindo”. Segundo ele, pessoas ligadas à casa de shows andavam criticando suas opiniões políticas nas redes sociais. O Circo prontamente negou; disse que suas portas sempre estiveram e continuariam abertas para Lobão. Mas o show não aconteceu, e restou um azedume que só agora, seis anos mais tarde, foi superado.
O cantor, apesar das rusgas, nunca deixou de ser amigo de Maria Juçá, diretora do Circo Voador, o que facilitou a negociação de seu retorno, intermediada pela produtora Top Link Music. “O Circo tem essa coisa de ser um lugar de conciliação”, prossegue Lencinho. “A arquibancada parece que abraça o palco. E o artista se sente abraçado pela plateia.”
Uma modesta banca de suvenires, instalada à direita do palco, vendia camisetas com o rosto do Lobão a 100 reais. Ali, os fãs podiam pagar também por um meet & greet com o artista – isto é, pela oportunidade de conhecê-lo no camarim. A atração custava 300 reais (no Pix, 280). Faltando trinta minutos para o show, o vendedor contou que foram compradas várias camisetas, mas ninguém tinha pagado para encontrar o músico.
Lobão fez, na tarde daquele sábado, uma passagem de som tranquila. O espetáculo não exige muito: ele toca guitarra o tempo todo, acompanhado apenas por um baixista e um baterista. Terminados os preparativos, o cantor subiu para o camarim junto de sua mulher e recebeu amigos para uma confraternização. De lá, ouviu o show de abertura, feito por Arnaldo Brandão, antigo parceiro musical com quem chegou a formar banda, no final dos anos 1970, ao lado de Arnaldo Baptista. Com Brandão, Lobão compôs o hit Blá, blá, blá… eu te amo (Rádio Blá).
Os dois são amigos há décadas, mas não se falam tanto desde que Lobão se mudou para São Paulo. “Até lamento, porque eu poderia ter falado algumas coisas para ele, sobretudo em relação ao Olavo de Carvalho”, diz Brandão, rindo. Ele conta que, quando soube da possibilidade de abrir o show naquela noite, pensou: “Caralho… tudo bem, vou tocar, mas está arriscado não ter ninguém.” Espantou-se com os comentários no Instagram. Surpreendeu-se quando viu a pista lotada.
Lobão entrou e saiu do palco sem fazer comentários políticos. Música, aplauso, música. Antes de cantar Mais uma vez, lançada em 1999, disse: “Essa resume uma coisa que aprendi na minha vida: sempre, sempre recomeçar tudo de novo. Tudo outra vez.” Brandão, que gostaria de ter passado mais tempo com Lobão no camarim – para “conversar sobre tudo, o mundo, a loucura de estar vivo” –, ficou com a impressão de que o amigo virou a página. “Largou o lado dionisíaco e agora tá no lado apolíneo.”
DJ Lencinho esbarrou em Lobão logo depois da apresentação e, como sempre faz com os artistas, perguntou: “E aí, se divertiu no palco?” Lobão respondeu: “Pô, curti muito.” E foi embora. “Fiquei feliz por ele”, diz Lencinho.