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OS OLHOS DO CORTIÇO

Grupo de teatro encena a história do Chora Vinagre
Imagem Os olhos do cortiço

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A comunidade pobre criada por Aluísio Azevedo em O cortiço, romance de 1890, acordava às cinco da manhã, abrindo “não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas”. Na Lapa, no Centro do Rio de Janeiro, um cortiço mais modesto e da mesma época que o do livro resistiu às reformas urbanas e à especulação imobiliária: o Chora Vinagre.

Na Rua dos Inválidos, números 122-124, detrás de uma fachada simples do século XIX, alinham-se 69 cômodos, de 12 m² cada, em dois pisos, onde moram 55 pessoas. O lugar abriga uma infinidade não de portas e janelas, mas de memórias, que o grupo Teatro ao Redor recuperou na peça 69 cômodos, apresentada no próprio Chora Vinagre em três noites de abril.

A reportagem da piauí acompanhou a apresentação do dia 21 de abril, domingo. Por volta das seis e meia da tarde, cerca de quarenta espectadores já se aglomeravam ao redor de uma barraca de açaí, na esquina da Rua dos Inválidos com a Avenida Henrique Valadares, enquanto aguardavam o início do espetáculo.

É um lugar cercado de história. Dali se vê o edifício em estilo neoclássico que abrigou uma unidade do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops), órgão de repressão do Estado Novo de Getúlio Vargas e da ditadura militar instaurada em 1964. A poucos metros, está a Casa das Pretas, espaço de eventos e debates públicos que foi o último lugar onde a vereadora Marielle Franco esteve antes de ser assassinada, em março de 2018. “A ideia de começar a peça com essa esquina foi para criar uma conversa entre o real e o fabulado. No perímetro tem todos os elementos históricos e simbólicos”, diz Alex de Oliveira Teixeira, ator e codiretor do espetáculo, com Clarisse Zarvos (que atua no espetáculo). Também fazem parte do elenco a diretora musical Rach Araújo e a atriz Zeza Barral.

Teixeira tomou conhecimento da existência do Chora Vinagre em 2018, em uma reportagem do Jornal do Brasil. “Bati o olho na matéria e falei que esse lugar dava uma peça”, ele conta. Em 2022, seu grupo ganhou um edital da Prefeitura do Rio de Janeiro para montar 69 cômodos no ano seguinte, em uma temporada de um mês e meio no Teatro Ipanema. No dia 10 deste mês de agosto, 69 cômodos vai voltar aos palcos, em uma exibição única no Circo Crescer e Viver, na Cidade Nova, no Centro do Rio.

Os cortiços eram uma opção de moradia para a população pobre no século XIX. Um dos maiores no Rio foi o Cabeça de Porco – provável modelo do fictício Cabeça de Gato criado por Aluísio Azevedo –, na região da Gamboa. Foi derrubado em 1893, por ordem do prefeito Barata Ribeiro. Os moradores desalojados ocuparam uma área, o Morro da Providência, construindo ali a primeira favela do Rio (para lá também se mudaram, em 1897, soldados que retornaram da Guerra de Canudos, aos quais o governo havia prometido um imóvel, o que não aconteceu).

A política higienista de Barata Ribeiro foi expandida, entre 1902 e 1906, pelo prefeito Pereira Passos. Foi quando se realizou o chamado “bota abaixo”: moradias populares, praças e igrejas históricas foram demolidas no Centro do Rio, abrindo espaço para Avenida Central (atual Rio Branco) e para os prédios faustosos do Theatro Municipal e do Museu Nacional de Belas Artes.

Erguido provavelmente no final do século XIX, o Chora Vinagre sobreviveu às reformas. Por muito tempo, foi habitado somente por famílias portuguesas, e os brasileiros não eram aceitos. Em meados dos anos 1950, a carioca Edia Pinto conseguiu vencer a resistência do dono português e foi morar lá com o filho pequeno. Na peça, Clarisse Zarvos faz a jovem mãe que chega ao cortiço e Alex Teixeira interpreta o português.

Na exibição de 21 de abril, Edia Pinto, com 92 anos, acompanhava a cena atentamente, sentada em sua cadeira de rodas, apesar da visão debilitada depois de um AVC. Na época, ela ainda morava no cortiço – era a mais antiga moradora do local. Ao longo de toda a peça, atores, espectadores e moradores se misturaram na experiência imersiva da encenação. Edia Pinto morreu no início de maio, duas semanas depois da exibição de 69 cômodos.

Amparado em pesquisa histórica e em entrevistas com os moradores, 69 cômodos enquadra-se no gênero conhecido como teatro documentário. O espetáculo incorpora também histórias e personagens de outras comunidades populares, como as do prédio Iapi da Penha, os conjuntos habitacionais da Pavuna e o Minhocão da Gávea. A ideia, diz o diretor, é que a peça circule pela cidade.

Na encenação no cortiço, em seguida a cada cena, um vídeo curto com histórias dos moradores-personagens era projetado nas paredes. Depois de ser representado de forma cômica por Teixeira, o sambista Genaro da Bahia, de 92 anos, saiu de sua casa, no número 19 do Chora Vinagre, para cantar a sua composição Na minha cozinha mando eu. A cadela Preta do Vô, fiel companheira do cantor, aproveitou o clima de roda de pagode para cumprimentar o público com lambidas.

No número 28, mora a atriz Leah, uma mulher trans que no ano passado deixou o bairro do Engenho de Dentro, onde era vítima de transfobia, e foi acolhida pelo Chora Vinagre. A equipe do Teatro ao Redor fazia suas últimas filmagens no cortiço quando a conheceu – e logo a convidou para integrar o elenco.

Leah é quem conta ao público uma das versões da origem do nome do cortiço, que foi tombado em 1987: “Isso aqui era um mercado de venda de pessoas escravizadas na época colonial. Aí, nesse período, os senhores de engenho cortavam com faca a carne dos pretos e pretas e jogavam pimenta e vinagre. A vila tem a cara de pau de manter esse nome: Chora Vinagre, que é um dos primeiros, senão o primeiro cortiço da Lapa.”

Ao final da apresentação em abril, Teixeira pediu à plateia que fechasse os olhos e se concentrasse nas sensações provocadas pelo ambiente. O cheiro do sabão de coco, das roupas penduradas nos varais, se misturava ao odor de coentro e de outros temperos que emanavam de uma casa onde se cozinhava feijão. O barulho de uma descarga sanitária veio dos banheiros de uso comum. Uma tevê com volume alto espalhava as vozes de uma mesa-redonda esportiva. A leveza das coisas no entorno parecia se misturar com algo imemorial e doloroso. Era a experiência de uma noite no Chora Vinagre. E então os espectadores abriam os olhos.

Errata: a diretora musical Rach Araújo foi erroneamente identificada como atriz.


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Repórter da piauí