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SIGNO DE PEIXES

A linguista que nomeia animais aquáticos em Libras
Imagem Signo de peixes

4 min de leitura

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A professora e pesquisadora Shirley Vilhalva passou um bom tempo gesticulando em frente ao aquário do oscar, espécie nativa da bacia amazônica. Quem a visse em certo dia de maio, no Bioparque Pantanal, em Campo Grande, pensaria até que ela tentava se comunicar com esse peixe de 30 cm, que tem manchas alaranjadas irregulares ao longo do corpo e é conhecido pelo comportamento agressivo.

Era quase isso: Vilhalva, que é surda, observava o animal no esforço de encontrar um sinal específico para designá-lo. Ela estava criando, na Língua Brasileira de Sinais (Libras), um nome para o oscar.

Esse trabalho é parte do Projeto Ictiolinguística – junção de ictiologia, ramo da biologia que estuda os peixes, com linguística, área de formação de Vilhalva –, desenvolvido em parceria pelo Bioparque e pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). A ambição do projeto é criar nomes em Libras para os mais de 380 animais aquáticos presentes no Bioparque. Em um ano de atividade, 67 foram nomeados. Antes disso, para falar desses peixes em Libras, era preciso recorrer à datilologia – isto é, soletrar seus nomes com os sinais correspondentes ao alfabeto latino –, forma de comunicação bem mais demorada.

A equipe responsável pelo projeto é composta por cinco professores surdos, entre eles, Shirley Vilhalva. Aos 60 anos, é docente da UFMS, leciona Libras há quarenta anos e é pesquisadora de línguas indígenas de sinais há 32. Referência nacional nessa área, ela descende de indígenas da etnia guarani. Vilhalva e seus colegas contam com o amparo dos biólogos do Bioparque, que explicam as características físicas e comportamentais das diferentes espécies. A conversa entre os cientistas e os linguistas surdos é mediada por Beatriz Marques, tradutora de Libras.

Depois das lições de ictiologia, vem o trabalho de campo. Vilhalva desenvolveu um método próprio para a criação dos sinais, que ela chama de “sinergia”. A linguista faz gestos para chamar a atenção do peixe no aquário; assim que o animal se aproxima, ela tenta encontrar a característica mais marcante do movimento ou do corpo, como pintas e formato. “Eu percebo os sinais de uma forma mais energética. Sinto a energia do animal”, explica a professora, em entrevista à piauí, com tradução de Beatriz Marques. Vilhalva diz que essa percepção está alinhada às línguas indígenas de sinais.

Foi assim que ela procedeu no dia em que observou o oscar. Vilhalva experimentou vários sinais, mas o peixe sempre se afastava, o que ela interpretou como uma recusa. “Quando fiz o último sinal, eu entendi que ele aceitou, porque chegou bem próximo de mim no aquário e me mandou um beijinho”, brinca a professora. Um surdo que empregasse um método convencional, o lexical, para criar o novo sinal em Libras poderia se contentar com uma foto do peixe, sem vê-lo de perto.

Apenas pessoas surdas podem criar sinais em Libras, e a comunidade precisa validá-los por meio de uma banca especializada, também composta por surdos. Com a criação dos sinais para os animais marinhos não é diferente. Uma vez validado o sinal de um peixe, ele é gravado em vídeo e exibido no site do Bioparque Pantanal. Os visitantes surdos poderão encontrá-lo em um QR Code ao lado dos aquários.

Nas pesquisas prévias da equipe do Projeto Ictiolinguística, foram encontrados sinais específicos para apenas 5 dos mais de 380 animais presentes no Bioparque. Isso não elimina completamente a possibilidade de que certos peixes já tenham sinais próprios em algum lugar do Brasil.

Como qualquer língua, a Libras está aberta à criação espontânea de seus usuários e conhece variações regionais – o sinal da cor verde, por exemplo, é diferente no Rio de Janeiro, no Paraná e em São Paulo. “Independente de alguns peixes já terem sinal, os sinais do projeto serão criados para o Bioparque, e eles também poderão ser usados pela comunidade surda”, argumenta Beatriz Marques. É assim também nas línguas faladas, afinal, muitas vezes existem diferentes palavras para o mesmo bicho.

Maior aquário de água doce do mundo, o Bioparque Pantanal levou mais de onze anos para ser construído. Repetiu-se um enredo comum no Brasil: a obra atrasou, custou mais do que se previa de início e foi marcada por irregularidades – houve denúncias de corrupção envolvendo André Puccinelli (MDB), o governador de Mato Grosso do Sul que deu início à construção. O aquário abriu as portas à população em 2022.

Nada disso prejudica o Projeto Ictiolinguística, que nasceu depois dos enroscos governamentais. “Esse programa vem para conectar a inclusão com a pesquisa científica”, afirma a diretora do Bioparque, Maria Fernanda Balestieri. Os sinais criados pelo projeto tornarão o conhecimento sobre a fauna brasileira mais acessível para os surdos que visitam o parque – e para a comunidade surda em geral.

Consciente da responsabilidade que carrega, Shirley Vilhalva preocupa-se com o ritmo naturalmente moroso de seu trabalho. Seu método é exigente: ela às vezes leva um dia inteiro para nomear um único peixe em Libras. “É muito importante o surdo participar de um projeto inédito como esse, mas eu estou assustada com a quantidade de sinais que a gente ainda tem que criar”, diz.

O sinal escolhido para o oscar, pelo qual Vilhalva recebeu a aprovação do peixe, faz menção a um detalhe da cauda e às manchas alaranjadas no corpo do peixe. O movimento das barbatanas foi traduzido por suaves movimentos com a mão espalmada.


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É analista de produto digital na piauí