esquina
Roberto Kaz Set 2024 16h03
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
O pronunciamento, em tom grave, foi publicado no Instagram em 19 de maio. “Fala aí, galera, quem fala aqui é o Gabigol da Torcida”, disse Jeferson Sales, o mais famoso sósia do jogador. “Eu não ia nem falar nada agora, ia esperar o desenrolar das coisas, até porque não quero julgar nem passar pano pros últimos fatos”, explicou.
Ele se referia à crise surgida dias antes, quando o centroavante do Flamengo foi fotografado usando uma camisa do Corinthians em casa. “Mas, depois de receber inúmeras mensagens, tanto de apoio, de amigos e familiares, quanto de zoação, mas também ameaças, eu resolvi falar. Antes de ser sósia eu já era flamenguista e eu vou continuar sendo Flamengo”, garantiu Sales, na rede social.
Naqueles dias, ele vinha sendo alvo de agressões virtuais, em função da bronca da torcida com Gabigol. “Tu é flamenguista mesmo ou vai lá chupar o Gabigol no Corinthians?”, escreveu um torcedor. “Acabou a palhaçada de sósia, Gabigol não existe mais no Flamengo”, escreveu outro. Sales conta que chegou a receber uma ameaça física em privado: “O cara falava assim: ‘Já que a gente não pode pegar o outro vai pegar você mesmo.’”
Jeferson Sales tem 39 anos, é pai de três filhos, de três relacionamentos, e mora numa casa em Paciência, bairro a quase 60 km do Centro do Rio. Perdeu a mãe na infância, morou com os avós, depois com o pai, e chegou a dormir na rua, para fugir de situações de violência doméstica. Aos 16 anos, se mudou para a casa de uma namorada, na comunidade de Nova Jersey, e passou a trabalhar como pedreiro. Aos 18 anos, ingressou na Aeronáutica e por lá ficou até os 22, quando foi contratado pela Ambev para trabalhar em uma fábrica de cerveja, com salário de 3 mil reais. “Eles iam no quartel buscar militares que não tinham advertência no currículo”, conta.
Foi na fábrica que um supervisor descobriu o dom de Sales para sósia. “Eu não achava, mas um dia, nas férias, pintei o cabelo como o do Gabigol e fui para o Maraca.” O ano era 2019, o adversário era o San José, da Bolívia, e o resultado ficou em 6 a 1 para os donos da casa. Ali, com a torcida em êxtase, Sales virou o “Gabigordo”, apelido surgido espontaneamente, nas redes sociais. “Naquela época eu tinha 16 kg a mais”, justifica.
Gabigol vivia então a sua primeira e mais profícua temporada no Flamengo – terminaria o ano com os títulos dos campeonatos Carioca e Brasileiro, e com a Taça Libertadores. Na onda dessa popularidade, Sales passou a ir mais aos jogos de seu time. Também se adequou à inconstância estética do jogador. Se Gabigol platinava o cabelo, Sales também platinava. Se Gabigol colocava dread, Sales também colocava. Se Gabigol raspava a barba, Sales também raspava. Copiou o jogador até nas tatuagens: “Tenho a Taça Libertadores numa das pernas, que nem ele.”
O empenho rendeu dividendos. Já sob o nome artístico Gabigol da Torcida, Sales abandonou o trabalho na Ambev e passou a viver de aparições em festas e publicidades no Instagram, onde tem 540 mil seguidores. Já fez vídeos para Gillette, Warner Bros., Leroy Merlin, Banco Pan e Betnacional, sua atual contratante, para a qual publica dezesseis stories por mês. Sales diz que os contratos lhe garantem uma renda mensal fixa de 6 mil reais, mas há meses em que faz 15 ou 20 mil. “Em 2022, eu ia fazer uma publi pra Brahma se o Flamengo tivesse passado pra final do Mundial.” Não passou.
No mesmo ano, Sales concorreu a deputado estadual pelo PTB. Recebeu 1 842 votos. Hoje é filiado ao Republicanos. Cogita concorrer a vereador por Itaguaí, cidade próxima do Rio, onde costuma pescar. “Meu foco vai ser o esporte. As crianças estão muito tempo no celular.”
Sales já tinha sentido na pele o risco envolvido no trabalho de sósia. “Foi num jogo contra o Atlético Mineiro, em Belo Horizonte”, conta. “Tomei uma voadora nas costas durante o segundo tempo, quando o Flamengo estava perdendo por 1 a 0.” O autor do golpe pediu desculpas depois, ao reencontrar o Gabigol da Torcida numa partida do Flamengo contra o Corinthians, em São Paulo.
Dessa vez, no entanto, Sales preferiu se precaver, recorrendo àquele que é uma das autoridades máximas do futebol: o líder de torcida organizada. Em uma conversa no canal de YouTube Oh, Meu Mengão, ele relatou ao apresentador Frederico Schuh, vulgo Lula da Raça, as ameaças que vinha recebendo. Schuh fez um apelo à confraria rubro-negra: “Tá vendo esse cara que tá aqui do meu lado? Ele é um torcedor do Flamengo, que celebra as vitórias e se entristece com as derrotas, junto com a gente, na arquibancada. Por isso peço de forma encarecida, como irmão de arquibancada que eu sou: não confundam as coisas. Não façam ofensas a esse cara. Respeite esse nosso irmão. Ele é semelhante ao Gabigol. Ele não é o Gabigol.”
Na mesma live, Anderson Macula, atual presidente da Raça Rubro-Negra, garantiu que Sales não seria mais perturbado: “Fica tranquilo que na Raça a torcida vai ser totalmente orientada – e quero estender esse pedido a todas as organizadas do Flamengo: irmão, tem que respeitar os sósias.”
Com o salvo-conduto garantido, Sales compareceu ao Maracanã, na segunda quinzena de junho, para assistir ao jogo entre Flamengo e Bahia pelo Campeonato Brasileiro. Usava calça branca, tênis vermelho e uma camisa 10 escrita Gabigol da Torcida nas costas (o número estava desatualizado, porque Gabigol perdeu o direito de usar a 10 após a crise). No estádio, cumprimentou outro sósia de Gabigol (“Aqui não tem guerra”) e caminhou em direção ao setor Oeste da arquibancada, onde costuma ficar. “Aí, Gabigordo!”, gritou um torcedor. “Gabigol fodeu com ele”, comentou outro.
Instalou-se na primeira fileira, ao lado de Santa Cruz, um torcedor conhecido da crônica esportiva que até hoje assiste aos jogos com o ouvido colado num radinho de pilha. Um fã pediu para gravar um vídeo. “Ô Tite, bota o meu sósia pra fazer gol na parada”, disse Sales, para a câmera. Outro fã pediu um alô para um grupo de WhatsApp do Flamengo em João Pessoa. Um terceiro pediu um abraço “para o Normando, do Kaldeirão do Norma, lá do Piauí”. Até o fim daquela noite, Sales atenderia a mais de cinquenta pedidos de vídeos e fotos.
Gabigol começou o jogo no banco de reservas, como vem ocorrendo desde que Tite assumiu o comando do Flamengo, no ano passado. Aos 18 minutos do segundo tempo, entrou em campo. A torcida o aplaudiu. “Parece que já esqueceram o ódio. Eles vão do inferno ao céu muito rápido”, comentou Sales, aliviado. O jogo terminaria em 2 a 1 para o Flamengo, com gols de Gerson e David Luiz.