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ARTISTA ENTREVISTO

Um jovem de Goiânia desponta na arte das fotogravuras
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A cena tem lugar em um terreiro de candomblé. É possível discernir as figuras femininas e masculinas que tomam parte da cerimônia, todas vestidas de branco. Mas elas não estão delineadas com nitidez. O artista preferiu enfatizar não as formas, mas o movimento dos corpos. As personagens parecem imersas em uma ventania coreografada.

A fotogravura Corpo que gira integra a exposição itinerante Favela é giro. Idealizada pelo Museu das Favelas, de São Paulo, a mostra coletiva agora está em cartaz no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia. É a cidade em que mora o autor de Corpo que gira, Marcelo Ramalho, de 25 anos, que retratou na obra o terreiro que frequenta na capital de Goiás.

O trabalho não foi impresso sobre uma única folha, como geralmente se faz na gravura. E seu suporte é um material bem pouco nobre: pedaços de papelão. Cada retalho de papel traz uma fração da imagem. A composição é como um mosaico, que o artista montou deixando entrever brechas entre as partes – um índice da condição social de Ramalho. Ele habita um lugar pouco usual, considerando suas origens e raça: “Sou uma pessoa preta que cresceu no Jardim Goiás, um bairro que é majoritariamente habitado por pessoas brancas.”

Atualmente, essa área é um dos metros quadrados mais caros de Goiânia, por causa de sua proximidade com um shopping. Mas a família do artista goiano tem uma posição precária no bairro. “Até hoje, minha mãe luta para ser reconhecida como proprietária da casa onde moramos. Oficialmente, ela é tida como posseira”, conta.

Marcelo Ramalho é o nome artístico que Marcelo Henrique Martins Domingos adotou, recorrendo a um dos sobrenomes de sua mãe. Desde cedo, ele foi estimulado pelos pais a desenhar, depois que eles ficaram encantados com a habilidade do garoto de 2 anos para copiar desenhos da Turma da Mônica. Na adolescência, Ramalho foi se aperfeiçoando em cursos de figura humana, ilustração de moda e pintura experimental. Entre 2016 e 2021, mergulhou no mundo da ilustração. Adotou então o primeiro nome artístico, Urubu, que depois deixou de lado.

Não foi só a acuidade na reprodução dos personagens de Mauricio de Sousa que despertou a família para o potencial artístico de Ramalho. Seu pai, Marcelo Bento Domingos, de 51 anos, atendia, como encanador e eletricista, uma considerável clientela de artistas – o que lhe deu certa credencial para perceber que havia algo mais nos trabalhos que seu filho fazia. “Eu lembro de ir aos ateliês do Siron Franco e d. j. Oliveira, de apreciar as pinturas e ficar fascinado”, recorda Domingos.

A mãe, Laudienes Martins Ramalho, de 56 anos, apreciava outra arte: veio de uma família repleta de músicos em Tocantinópolis – cidade que era goiana quando ela nasceu e desde 1988 pertence ao Tocantins. Quando se mudou para Goiânia, aos 17 anos, ela sonhava em ser cantora. Sem oportunidades para se lançar nessa carreira, trabalhou (e ainda trabalha) como empregada doméstica. Hoje divorciados, os pais do artista seguem apoiando o filho.

Em 2017, Ramalho entrou no curso de licenciatura em artes visuais, na Universidade Federal de Goiás. Também iniciou um curso técnico voltado para pintura, enquanto trabalhava como designer. A tripla jornada acabou exaurindo sua saúde. Ele começou a questionar se um jovem negro que ajuda a sustentar a família poderia mesmo se tornar artista.

Durante a pandemia, mais um baque: Ramalho foi diagnosticado com a doença de Crohn, uma inflamação crônica que ataca o aparelho digestivo. Como os sintomas eram severos, decidiu trancar a faculdade. Desde então está em tratamento, mas conseguiu voltar à universidade em 2022, trocando a licenciatura pelo bacharelado. Deixou o design como fonte de sustento e começou a trabalhar como assistente de fotografia no Sertão Negro – Ateliê e Escola de Artes, um centro de formação de artistas afrodescendentes.

Hoje, Ramalho administra trabalho, estudos e carreira artística de forma mais saudável. Sua personalidade segura se reflete até na forma que encontrou para se vestir. Em um dia de produção no ateliê de gravura na universidade, ele podia ser visto com uma camisa polo vinho, calça de alfaiataria e tênis pretos. Seus dreads presos em um penteado baixo, rente aos ombros, conferiam ao figurino um ar fashionista, mas descontraído.

Ramalho também afinou a linguagem de seu trabalho, que hoje ele considera um híbrido entre a gravura e a fotografia. Na entrevista à piauí, o artista detalhou o passo a passo de seu processo. A primeira etapa é imprimir, em folhas de papel sulfite de tamanho A4, cópias de imagens que buscou na internet ou de fotografias que ele mesmo tirou. A fase seguinte é embeber os papéis em querosene, para dissolver o pó de carbono presente na tinta em cartucho das impressoras. Quando se faz isso, a imagem parece derreter.

Ele compõe então um sanduíche com o papel sulfite e o papelão. Esse conjunto será comprimido entre os dois rolos da prensa de gravura. Para conseguir o resultado desejado, é preciso rodar com rapidez a alavanca que movimenta os rolos. Sob pressão, a imagem na folha de sulfite embebida em querosene se transfere para o papelão. Foi dessa forma que Ramalho chegou às figuras vaporosas de Corpo que gira.

A maturidade do seu trabalho impressionou o curador Paulo Henrique Silva, que incluiu três fotogravuras de Ramalho no Panorama da arte contemporânea em Goiás, em cartaz no equipamento municipal Galeria de Artes Antônio Sibasolly, em Anápolis. “Ele cria uma relação dialógica entre as imperfeições da superfície – o papelão – e da narrativa que propõe nas imagens”, diz Silva.

Ramalho ainda está lutando para se inserir no mundo da arte. Mas o reconhecimento por curadores como Silva já confirma a confiança que seus pais depositaram nele. Houve, porém, um momento de dúvida. Certo dia, Domingos aconselhou o filho a seguir medicina ou direito. Ramalho ouviu com calma e replicou: “Não é essa minha vocação. Fui criado para ser artista, é isso o que eu sei fazer.”


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.