esquina
Pedro Tavares Out 2024 12h50
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
A fumaça das queimadas sufocava Brasília naquela tarde no final de agosto, e por isso o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), liberou o home office. Presidindo a sessão com plenário esvaziado, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) abriu a ordem do dia passando a palavra a Juliana Kolankiewicz, do MDB de Mato Grosso – uma suplente que naqueles dias ocupava o lugar de Juarez Costa, hoje de volta ao cargo. “Deputada, não sei se usei a pronúncia correta desse sobrenome polaco difícil, com muitas consoantes”, desculpou-se Cavalcante. “Quase”, respondeu ela, sorrindo.
Abaixo da mesa diretora fica a bancada dos taquígrafos, responsáveis por registrar tudo o que é dito nas sessões. Com um lápis fosforescente, como prefere, Fernando Mesquita taquigrafava o discurso da deputada em um bloco de papel preto. Não se preocupou em escrever todo o sobrenome. Taquigrafou apenas “Juliana Ko”.
De quatro em quatro minutos, os taquígrafos se revezavam no acompanhamento dos discursos, para a transcrição de cada um não ficar muito grande. Quando uma colega veio tomar seu lugar, Mesquita dirigiu-se até o Departamento de Taquigrafia da Câmara (Detaq) e abriu seu computador para ver a transcrição automática gerada pelo sistema de inteligência artificial Whisper e fazer as correções, com o auxílio de suas anotações no bloco preto. Em menos de uma hora, a fala da deputada já estava disponível no site da Câmara.
“Quando as pessoas precisam consultar alguma fala, elas não vão ao vídeo ou ao áudio: vão ao texto”, diz Juliana Baldoni, diretora do Detaq. No Congresso, desde o ano passado, o trabalho dos taquígrafos é auxiliado pelo programa Whisper, que transcreve em tempo real os discursos parlamentares. “A máquina auxilia na transcrição inicial do produto. Mas depois temos que consertar o que ela fez errado, com as regras internas de padronização do texto”, explica Baldoni. Por isso, os taquígrafos, que continuam responsáveis pela correção da transcrição dos discursos, e não podem dispensar as suas anotações. Mesquita teve de corrigir, entre outros erros cometidos pela máquina, o sobrenome da deputada. Tal como Cavalcante, a inteligência artificial perdeu-se nas consoantes de Kolankiewicz.
A União Interparlamentar (UIP), órgão internacional que estabelece relações entre os parlamentos do mundo todo, lançou há um ano um conjunto de indicadores que definem os congressos efetivamente democráticos. Um deles é a transcrição integral das falas parlamentares com auxílio da taquigrafia. No Brasil, a prática é antiga: a Assembleia Constituinte de 1823, primeira experiência parlamentar do país, já tinha um departamento de taquigrafia. A data da instalação da Constituinte, dia 3 de maio, foi fixada inclusive como o Dia do Taquígrafo.
Atualmente, o trabalho do taquígrafo na Câmara se desenvolve em cinco etapas. Começa pelo apanhamento, que é o registro realizado em plenário (enquanto a inteligência artificial também faz sua versão). Nessa etapa, o profissional emprega o taquigrama, um conjunto de sinais criado com a finalidade de agilizar a transcrição simultânea.
Há vários métodos de taquigrama e um dos mais utilizados é o de Oscar Leite Alves, criado em 1929. Nele, a palavra “presidente”, por exemplo, é escrita com apenas dois signos que juntos parecem a letra P, só que mais inclinada e alongada. Algumas palavras são representadas pelo mesmo signo, como “pé” e “pode”, diferenciando-se pela força do traço no papel. Por causa dessas diferenças sutis, explica Baldoni, muitos taquígrafos ainda preferem fazer anotações a lápis, dispensando o tablet.
Enquanto faz o apanhamento, o taquígrafo também estabelece a roteirização, que é a listagem de todos os oradores, com o horário em que cada um falou. Em seguida, nos computadores do Detaq, é feita a correção da transcrição automática. Na quarta etapa, o texto é encaminhado à equipe de supervisão, que cuida da redação final, deixando o discurso mais fluido e ajustando tudo aos padrões do Congresso (a palavra “parlamentar”, por exemplo, é grafada sempre com inicial maiúscula), sem, contudo, deixar escapar o estilo de cada orador. Depois, produz-se a íntegra do texto, que, por fim, é indexado, junto de um sumário de quatro linhas, elaborado por inteligência artificial.
Esse método de trabalho, com o uso do taquigrama, é empregado apenas na Câmara. “Nos momentos de caos, é a ele que a gente recorre, e aqui sempre tem caos”, diz Baldoni. No Senado, cujas sessões são menos agitadas, o taquigrama foi dispensado, mas não os taquígrafos. Eles ainda são encarregados de acompanhar todos os discursos, para poder roteirizar a sessão e fazer a conferência do que a transcrição automática registrou.
O ex-deputado federal Miro Teixeira lembra que, no seu longo período na Câmara – foram onze mandatos –, nunca se contestou a correção do trabalho dos taquígrafos. “Sempre foram profissionais seríssimos. Eram mudos no plenário. Entravam e saíam sem dar palavra. No máximo, respondiam ao nosso ‘bom dia’”, conta. Ele acredita que a taquigrafia jamais será totalmente substituída por recursos tecnológicos: “Nunca vai existir uma autonomia absoluta da máquina.”
Os novos recursos, porém, impõem mudanças à profissão. Oficialmente, não existe mais o cargo de taquígrafo parlamentar, que hoje se chama analista legislativo de registro e redação. Os critérios para admissão de um profissional da área não são mais os mesmos.
Juliana Baldoni aprendeu o taquigrama com seu avô, que era taquígrafo do Judiciário federal. Em 2009, quando foi admitida em concurso do Congresso, ela escrevia 120 palavras por minuto. Hoje, basta que o taquígrafo consiga escrever oitenta palavras por minuto. “Não preciso mais de um velocista”, diz ela. Desde 2016, a equipe do Detaq vem diminuindo: o departamento teve uma redução de 30% no quadro de profissionais. No último ano, a produtividade dos taquígrafos aumentou em 10%, no volume de registro, graças à transcrição automática. Agora, só se abrem concursos para repor profissionais que tenham deixado o Congresso.
Embora mais rápida, a transcrição automática produz erros que não seriam cometidos no processo feito inteiramente por humanos. “Temos que tomar muito cuidado para não sermos induzidos pela tecnologia que, às vezes, reescreve determinada frase, alterando o sentido”, adverte a taquígrafa Denise Amaral. O supervisor Lucas Azevedo de Carvalho diz que os deslizes da inteligência artificial estão exigindo atenção redobrada de seu setor. Ele lembra um erro que acabou passando pela revisão: um deputado falou “derramamento de óleo” e a máquina escreveu “aterramento de óleo”.
Um taquígrafo do Senado Federal que não quis se identificar recorda um erro ainda mais embaraçoso, que passou batido. A frase original era “o rio estava limpo, mas turvo”. Na transcrição automática, a frase ficou assim: “O rio estava limpo masturbo.” Baldoni lembra de outra gracinha da inteligência artificial, felizmente corrigida a tempo. Um senador disse que foi “interpelado no avião”. A máquina cravou que o político “entrou pelado no avião”.