esquina
Leandra Souza Out 2024 12h57
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Os rituais mais marcantes do Dia de Finados, como acender velas no túmulo de pessoas queridas, são católicos. Mas a evangélica Cibele Souza, de 32 anos, gosta do modo como o 2 de novembro é celebrado em Curuçá, cidade paraense onde mora há vinte anos. “Eu acho interessante, porque geralmente as pessoas ficam tristes ou choram. E aqui, não”, diz a servidora pública do município. “O cemitério fica bem iluminado. Eles organizam tudo para as homenagens, é muito bonito.” Souza só não é fã do quitute mais popular da festa, que ela acha uma sobremesa “sem graça”: a manicuera, espécie de mingau feito a partir da fermentação da mandiocaba, variedade adocicada da mandioca.
Com 41 mil habitantes, Curuçá, a 140 km de Belém, se intitula a “Terra do Folclore”. Festas e manifestações culturais ocupam o calendário da cidade quase o ano todo. No Carnaval, a atração principal é o bloco Pretinhos do Mangue. Em junho, as comemorações ficam por conta do Arraiá, da quadra junina. Em julho, acontece o Festival do Folclore. E, em novembro, Finados tem o jeito festivo do tradicional Dia dos Mortos mexicano, mas à moda curuçaense.
O Cemitério São Bonifácio, patrimônio histórico do município, é enfeitado e iluminado. Na praça em frente, há música, contação de histórias e barracas de comida e bebida. “É um encontro de famílias e um acontecimento cultural”, diz Paulo Barbosa, que pesquisa a história da cidade. “As famílias de Curuçá festejam Finados como se fosse um evento social. As pessoas se arrumam todas com a melhor roupa para ir ao cemitério e enfeitam os túmulos de seus familiares.”
Os preparativos começam no mês anterior à celebração, com a limpeza de mausoléus e túmulos. As famílias de mais posses contratam pessoas para esse serviço (em visita ao cemitério em outubro, a piauí foi abordada por dois homens que se ofereciam para limpar jazigos). Finados tornou-se uma oportunidade para alguns reafirmarem seu status social. Bandas são chamadas para tocar as músicas favoritas dos distintos falecidos junto a suas sepulturas. “Quem está em volta fica curioso e pensa: ‘Olha fulano de tal, ele com certeza foi uma pessoa de representatividade, porque a banda está tocando no túmulo dele’”, explica Barbosa.
O Cemitério São Bonifácio foi inaugurado em 1856, como parte de uma política higienista das autoridades municipais. O objetivo era afastar os sepultamentos para os limites da cidade – até então, os mortos eram enterrados na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na região central. Foi depois dessa mudança que certas cerimônias fúnebres, como o translado do corpo para o cemitério, se tornaram mais festivas. Há até uma tese de doutorado dedicada a essa transformação cultural: Saudades, reencontros e manicuera: espetacularidades entrecruzadas de afeto na iluminação dos mortos em Curuçá-PA, defendida pela professora de português Valéria Sales no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará.
A agente de serviços gerais da delegacia local, Marta Lima, de 56 anos, mora desde que nasceu na esquina oposta ao São Bonifácio. Quem é supersticioso pode ter restrições à vizinhança dos mortos, mas ela diz que é um “local normal”. Lima refuta crendices sobre “visagens” – visões de fantasmas nos arredores do cemitério. “Isso é uma lenda”, afirma. “Eu moro aqui, e cansei de brincar de bola e tomar cachaça aí na frente. Nunca vi nada.”
As mulheres que criaram Lima – sua mãe e sua avó – estão sepultadas em um jazigo logo na entrada do cemitério, para onde ela também espera ir quando chegar a hora fatal. “Quando eu morrer, quero fazer tchau pro pessoal que passar”, diz, com uma bela gargalhada. Entusiasta da festa de Finados, ela aprendeu com a mãe e a avó a fazer uma boa manicuera. O processo é trabalhoso: depois de fervida por mais de um dia, a mandiocaba é ralada e espremida. O líquido resultante é fervido novamente. “Depois, coloca o arroz e a massa espremida da mandiocaba dentro”, ensina Lima. E só sai ruim se o cozinheiro errar a receita: “Tem pessoas que não gostam porque não sabem fazer.” Talvez Cibele Souza ache a manicuera “sem graça” porque ainda não provou a que é preparada por Marta Lima.
Não é só no Dia de Finados que a morte é pretexto para festa em Curuçá. Em São João do Abade, um distrito do município, o velório e o translado do morto para o Cemitério São Bonifácio são acompanhados de música e regados a cachaça, vinho e cerveja, não importa o dia. “Vem música, vem reza. Quem chora, chora. Quem acha graça, acha. Quem dança, dança. E tem quem bebe cerveja, cachaça”, diz o professor aposentado Orlando Saraiva, de 75 anos, que viveu por 35 anos em São João do Abade e hoje mora em Belém. “Sou religioso, católico praticante, e gosto muito desse tipo de coisa. O enterro em Abade é a coisa mais linda que existe.”
A piauí acompanhou uma cerimônia fúnebre em São João do Abade – e é tal como Saraiva descreve. Enquanto o corpo era velado, ouvia-se cânticos católicos, se consumia cachaça, vinho e cerveja à vontade, mas sempre com respeito aos parentes do morto. Um cortejo animado de pelo menos duzentas pessoas acompanhou o caixão do distrito até a cidade – o transporte do corpo é chamado de “frete” pelos moradores locais. “Ninguém vem triste não, não tem como chorar”, diz Saraiva.
São pelo menos 4 km de São João do Abade até o Cemitério São Bonifácio, e a distância é percorrida a pé. Amigos e familiares carregam o caixão – os homens levam o morto na primeira metade do caminho, e as mulheres fazem o trecho final. Nem todos entram no cemitério para a última despedida. Muitos permanecem na entrada, confraternizando e bebendo. Brindam à memória de quem já não pode mais beber.