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AS COLMEIAS DE TERRA

A arqueologia ajuda povos da floresta a proteger a Amazônia
Imagem As colmeias de terra

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A Terra do Meio é uma vasta porção de território no Centro do Pará que abriga um mosaico de terras indígenas e unidades de conservação. Margeada ao Norte pela Transamazônica e a Oeste pela BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, ela forma uma ilha de florestas conservadas em meio a uma região de alto desmatamento e vem sofrendo intensa pressão de grileiros e garimpeiros. Por isso foi selecionada como uma das áreas de estudo de uma pesquisa que busca novos sítios arqueológicos na Amazônia. Caso algum fosse descoberto ali, isso obrigaria o Estado brasileiro a protegê-los, como manda a lei.

Nessa pesquisa, os cientistas estão recorrendo a um instrumento capaz de mapear o relevo de uma área, mesmo que ela esteja coberta por mata fechada. Batizado de LiDAR – acrônimo em inglês para “detecção e alcance da luz” –, o instrumento emite pulsos de laser e é acoplado a um avião. Nos últimos anos, vem revelando a existência de estruturas de terra monumentais, como estradas, canais e até pirâmides construídas pelos ancestrais dos povos indígenas amazônicos.

Formações desse tipo nunca haviam sido observadas na Terra do Meio. “A gente não imaginava que fosse encontrar coisas ali”, disse a arqueóloga Cristiana Barreto, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi e uma das coordenadoras do projeto. “Era a nossa área de teste.” Daí a surpresa quando foram processadas as primeiras imagens capturadas por LiDAR: “Nunca tínhamos visto nada parecido com aquilo.”

Barreto estava se referindo a grandes estruturas elevadas dispostas de forma circular, como se fossem pétalas de uma margarida. Várias delas aparecem próximas umas das outras, formando um padrão similar ao de uma colmeia. Os arqueólogos não sabem o que eram essas formações. “Estamos interpretando como se fossem casas com lixeiras no entorno”, disse o arqueólogo Vinicius Honorato de Oliveira, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), ao mostrar as imagens ao público pela primeira vez durante um evento em outubro.

A alguns quilômetros dali, o LiDAR revelou outra estrutura inesperada na Terra do Meio: uma grande vala circular com 20 a 40 cm de profundidade, cercando uma área de terra preta, como é chamado o solo que os antigos indígenas transformavam para tornar mais fértil. Ao projetar a imagem da vala, Oliveira arriscou que talvez se tratasse dos vestígios de uma antiga cerca ou paliçada. “Mas estou pensando alto, vocês podem me dar outras ideias”, continuou o arqueólogo, dirigindo-se a uma plateia que incluía 52 representantes de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais da Amazônia, inclusive moradores da reserva extrativista onde as colmeias de terra tinham sido descobertas.

No vale do Rio Guaporé, em Rondônia, o LiDAR mostrou uma rede de linhas ortogonais num padrão nunca antes visto. No Acre e no Amazonas, a ferramenta revelou que havia geoglifos – estruturas geométricas esculpidas na terra – em áreas inéditas. Um deles tem mais de 300 metros de largura – extensão maior que a do Maracanã.

Em muitas áreas, as estruturas eram ligadas por estradas e caminhos que formavam uma rede interconectada. “Está muito claro que temos que repensar a própria categoria de sítio arqueológico para incluir coisas mais expandidas”, disse Cristiana Barreto. “Estamos documentando a diversidade das formas de ocupar a floresta.”

Nas próximas etapas, os pesquisadores pretendem visitar e escavar as colmeias da Terra do Meio e estruturas vistas em outras áreas sobrevoadas. Os estudos devem render artigos em revistas acadêmicas, mas antes disso o grupo pretende usar as imagens de LiDAR para tentar cadastrar os sítios arqueológicos recém-­descobertos no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Para nós, é mais importante protegê-los que publicar”, disse a arqueóloga.

As primeiras imagens do Amazônia Revelada foram apresentadas num evento em Manaus, do qual a piauí participou a convite da organização. Na fala inaugural, o idealizador do projeto, o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da USP, explicou que outros pesquisadores que usaram o LiDAR no passado não conversavam com os moradores dos territórios sobrevoados. “Essa maneira de produzir conhecimento reproduz uma prática colonialista”, afirmou. “Não faz sentido fazer isso sem consultar as populações locais para ver se existe de fato interesse em apoiar a iniciativa.”

O projeto atual ouviu os povos da floresta antes de iniciar os sobrevoos com o LiDAR e chamou-os para discutir os resultados, com o objetivo de formar conexões entre os pesquisadores e as populações locais. “A gente atravessou momentos muito difíceis no Brasil, e o que nos sustentou foram as redes de parceria, amizade e colaboração que nos ajudaram a atravessar esses quatro anos”, disse Neves, referindo-se ao governo Jair Bolsonaro, que fragilizou a proteção à Amazônia e aos povos tradicionais. “Temos que criar novas redes para que estejamos mais fortes caso as coisas se compliquem nos próximos anos.”

Neves e seu grupo vinham tentando fazer arqueologia com os povos indígenas antes do projeto. As escavações do sítio Monte Castelo, em Rondônia, contaram com a participação de tuparis que circulam por aquele território. Em Manaus, Osmar Maintaka Tupari relatou que seu povo não costumava dar valor aos pedaços de cerâmica que volta e meia encontravam. “Depois de participar de trabalhos de campo, entendemos que eles podiam contar uma história sobre o que aconteceu no passado”, afirmou. O LiDAR pode ajudar a realizar um velho anseio dele e de seus parentes. “Pretendemos com esses estudos demarcar a terra que futuramente possa servir para nossos filhos e netos.”

A luta pelo território é o que unia todos os povos reunidos naquele auditório, observou Neves. Como a arqueologia trata o tempo todo da dimensão territorial, pode abrir uma possibilidade poderosa de diálogo entre eles. “A relação com o território é o idioma comum que permite uma conversa entre populações que olham para o mundo de jeitos totalmente diferentes.”

Mas restam desafios importantes até que aquela seja de fato uma arqueologia inclusiva, como notou Vanda Witoto, liderança indígena do Alto Solimões que participou do evento. “Os achados arqueológicos são uma ferramenta importante para reconhecimento da nossa presença na Amazônia há milhares de anos”, afirmou. Ela defendeu que arqueólogos indígenas ocupem espaços na academia e lembrou que há mais de vinte profissionais indígenas da área no Amazonas – entre eles, Carlos Augusto da Silva, arqueólogo de origem apurinã e munduruku que é um dos coordenadores do projeto. “É importante considerar os indígenas não só como convidados da reunião, mas em todo o processo”, disse Witoto.


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)