cartas
Dez 2024 17h46
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RIR PARA NÃO CHORAR
Nesses tempos bicudos em que prevalece o mau humor, nada mais prazeroso do que a leitura do artigo do André Boucinhas, Riso sem meio-termo (piauí_218, novembro). Por evocar o Bruxo do Cosme Velho em uma de suas obras mais marcantes, Memórias póstumas de Brás Cubas, que tão tardiamente vem sendo apreciada no exterior, empurra os leitores para uma releitura desse romance delicioso, que demonstra a genialidade de Machado e sua verve humorística. Parabéns ao articulista.
Já que estamos no terreno da grande arte, parabéns também à piauí pelas seis videoaulas sobre a obra de Tom Jobim, sob o comando do excepcional intelectual e excelente violonista Arthur Nestrovski e a doce voz de Paula Morelenbaum, em memória aos trinta anos da morte do compositor.
Importante também, ainda no terreno da cultura, o texto Dentes postiços (piauí_218, novembro), de Lira Neto, memorialista que se celebrizou pelos três volumes da biografia de Getúlio Vargas, que é um capítulo do livro Oswald de Andrade: mau selvagem. O escritor cearense mostra que é um craque das biografias.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
LIRA
A história das capitanias hereditárias continua em pleno vigor na metade da segunda década deste século (O sequestrador, piauí_218, novembro). É até difícil de acreditar como um ser tão asqueroso feito esse Lira continua mandando e desmandando no Congresso Nacional e, pior, ainda consegue arrebanhar o voto dos eleitores de regiões paupérrimas deste país. Que sistema tenebroso é esse em que os piores elementos, os seres mais desqualificados, corruptos e malignos são eleitos e reeleitos por uma população carente de tudo, de educação, de saúde e se deixam enganar por essas mentes malignas, se entregando nas mãos deles? Que falta faz uma educação nos moldes do ensino de Paulo Freire, que, além de libertadora, possa incutir na população a importância, o valor e as consequências de seu voto. Sem isso, será o eterno ciclo vicioso onde se elegem as pessoas mais vis e que só se interessam por poder e grana.
VALÉRIA VIEIRA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
PERIGO
Perturbadores os perfis divulgados recentemente pela piauí. Os textos sobre Nikolas Ferreira (A peça de reposição, piauí_217, outubro) e Gilberto Kassab (O homem da planilha, piaui_218, novembro) mostram pessoas sem nenhuma noção de humanidade – nem individual e muito menos coletiva –, que é condição imprescindível para quem está na posição de organizar a convivência entre as pessoas. Kassab só tem em mente o poder a qualquer custo; a mediocridade de Nikolas Ferreira dá pra cortar de faca, ele não tem nenhum conhecimento a respeito de qualquer assunto.
Já Arthur Lira (O sequestrador, piauí_218, novembro) é um gângster e não existe a menor possibilidade de ele ter qualquer atitude decente.
São três pessoas das mais importantes e influentes; isso explica nossos dias. Considerando que todos têm votos e representam a maioria da população, a perturbação já beira o desespero. Os que são seres humanos estão nas matérias da seção Esquina: Axé no Olimpo e Amor no Coletivo (piauí_218, novembro), onde as conquistas materiais são apenas acessórios.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
GATOS E FERAS
Fiquei sensibilizado com a história do Aderbal (Em memória de um gato, piauí_218, novembro), pois nossa Bombom está beirando os 18 anos, falsa siamesa que é, com uma pata sem função desde que a resgatamos. Faltam-lhe dois dentes, um pedaço da orelha e um dos olhos foi vazado em uma briga de rua. Também passou por um atropelamento ou surra, não sabemos. Ainda que Roberto Kaz não tenha nos brindado com uma foto de Aderbal, fui conhecê-lo no Instagram.
Melhor assim do que lidar com as demais agruras que o mundo e a piauí nos revelam. Pelo menos literatura e música foram escolhidas para rechear parte da edição, em contraponto ao alçapão do fundo do poço a que chegamos e continuamos a seguir.
Mas Lira Neto subverteu a tese de Millôr Fernandes (que dizia que a Academia Brasileira de Letras é formada por 39 membros e um morto rotativo), ao afirmar que Oswald de Andrade enviou cartas para os quarenta membros da ABL pedindo voto (Dentes postiços, piauí_218, novembro). Talvez não tenha corrigido a informação no livro, mas será um deleite saber mais da biografia desse rebelde literário. Vinicius de Moraes habitou essa e mais uma publicação literomusical do mês, integrando A longa arte de Antonio Carlos Jobim (piauí_218, novembro), de Arthur Nestrovski. O jovem poeta no período da guerra se revela um quase guru para Tom Jobim na maturidade. É bom saber das feras culturais que nos rondaram e que ainda há os que se debruçam em seus trabalhos e vidas para não nos deixar esquecer.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA IMPRESSIONADA DA REDAÇÃO: Rapaz, você já pensou em doar as células da Bombom para a ciência? Ela é um case de resistência e longevidade.
SAUDADES
Ao ler a edição passada (piauí_218, novembro) só consegui extrair uma percepção comum à maioria das matérias: imponência. Quando observei com calma o tamanho daqueles navios cargueiros em Bangladesh (A ver navios), percebi que estava me aventurando em assuntos de tão igual imponência: as artimanhas orçamentárias bilionárias no Congresso (O sequestrador), a influência política nacional de Kassab (O homem da planilha), a fixação da centro-direita (A ameaça autoritária, ainda e Bolsonarismo Shrek) e até mesmo a chegada da morte para os nossos amados bichinhos (Em memória de um gato). Com esta última matéria tive um aperto um pouco maior no coração ao lê-la, já que no início deste novembro completou-se um ano da morte da minha Eminha, que viveu conosco por 18 anos aqui em casa.
MATHEUS COELHO_CAMPINAS/SP
ENCONTRO NA ESQUINA
Sou um leitor voraz e fiel da piauí, e já me manifestei, por duas vezes, através de cartas publicadas. A primeira foi sobre um texto infindável de uma aranha exótica. A segunda, laudatória, ao colunista Fernando de Barros e Silva, que analisa com precisão os exóticos momentos que ora nos engolfa.
A presente é para, sem desmerecer os grandes temas sempre abordados, agradecer ao coletivo de autores que nos conduz à seção Esquina, com apresentação de pessoas absolutamente amáveis (no sentido de merecedoras de elevado afeto) como antídoto e contraponto a golpistas de todos os gêneros, políticos corruptos, influencers sem noção, idiotas que alcançaram lugar de fala e espaço, pastores cúpidos, enfim, toda essa malta atuando como protagonista na defesa dos altos interesses da nação e de quebra, como bônus, tentam estragar o nosso dia.
Portanto, fica aqui o registro de agradecimento ao bravo grupo empenhado em tão meritória missão.
SEBASTIÃO MAURÍCIO DUARTE PESSOA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA ARQUIVÍSTICA DA REDAÇÃO: A primeira esquina da primeira edição desta nobre revista versava sobre Roberto Jefferson…
GRAMPINHO
Esta é minha primeira carta à revista, e, também, meu primeiro pedido (reconheço a deselegância). Se arrisco fazê-lo, é por acreditar que existem vários leitores como eu, que têm na piauí sua sã companheira na loucura do transporte público das grandes cidades; que, com ela, são balançados e dobrados e espremidos pelas multidões; que a encaixam como possível em mochilas, sacolas e axilas, mas nunca a deixam para trás.
Meu singelo pedido é mais um grampinho na lombada para nossa valorosa camarada. Os dois pobres que hoje suportam sozinhos o peso dessa augusta publicação mal se aguentam. Mês passado, na Sé, um deles não resistiu, e, tentando saltar aos trilhos, rompeu-se em dois. É pedir demais mais um amigo para esses dois pequenos, que tanto sofrem em sua nobre missão?
Talvez a equipe da Redação me admoeste (com alguma razão), dizendo que não trato minha piauí da maneira que ela merece, que seus amassados são a prova de meu descaso. São a prova, sim, mas do prazer e da qualidade dos textos, que, de tanto que nos permitem viajar, nos obrigam a levá-los junto nas viagens que fazemos.
Admito que meu pedido carece de força. Seguirei sendo um leitor fiel, até mesmo se a piauí abandonar os grampinhos e passar a se vender em folhas soltas. Mas, se for esse o sombrio futuro, já adianto outro pedido: uma edição especial, que traga de brinde um grampeador.
GUSTAVO DE CARVALHO E SILVEIRA_SÃO PAULO/SP
NOTA CAPITALISTA DA REDAÇÃO: Você já parou para pensar no custo adicional de um grampo numa revista de circulação planetária, com tiragem na casa dos milhões de exemplares, Gustavo? Você sabia que em 1987 a American Airlines cortou uma única azeitona de cada salada servida a bordo, e isso resultou numa economia anual de 40 mil dólares? Que 40 mil dólares em 1987 equivalem a mais de 100 mil dólares nos dias de hoje? E que 100 mil dólares equivalem a quase 650 mil reais na cotação atual? É isso que você quer para a piauí, Gustavo? Que sacrifiquemos todo o investimento em reportagem em nome de um grampo na lombada? Pela ditadura dos dois grampos, hoje e sempre!
EUNICE PAIVA
Ainda não li o livro Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva, nem vi o filme brasileiro que traz o mesmo título, candidato brasileiro à indicação ao Oscar de filme estrangeiro e aplaudido em todos os circuitos de cinema internacionais por onde tem passado. Mas só de ler o artigo de Fernando de Barros e Silva (Mas onde é aqui?, piauí_217, outubro), fiquei emocionado e ao mesmo tempo consternado diante do desprezo do Brasil pela sua história, pavimentando a realidade do reacionarismo, da violência e da desigualdade social em que vivemos. Ainda estamos aqui.
ERIVAN SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA
CORREÇÃO DE NOME
Venho fazer uma pequena correção ao texto de Fernando de Barros e Silva na reportagem Mas onde é aqui?, no seguinte trecho:
“Rubens Paiva sabia pilotar avião. Nos primeiros dias de abril, enquanto os militares organizavam a bagunça autoritária, ele retirou de Brasília, no teco-teco de um amigo, Waldir Pires e Darcy Passos, do primeiro escalão do governo deposto.”
A bordo do teco-teco estavam Waldir Pires e Darcy Ribeiro, membros do primeiro escalão do governo Jango. O livro de Marcelo Paiva também contém este equívoco com o nome dos tripulantes.
Um abraço a todos e parabéns pelas excelentes reportagens.
CARLOS DE GÓES MASCARENHAS FILHO_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA AGRADECIDA DA REDAÇÃO: Carlos, você tem toda a razão. A correção foi feita na versão digital do texto.