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Leandro Aguiar Dez 2024 17h39
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Cerca de quatrocentos indígenas aguardavam em frente ao prédio da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais. Egressos de várias partes do estado de Minas, representavam três povos – xakriabá, pataxó e maxakali – e estavam lá para uma ocasião especial: naquela tarde de 30 de outubro, a UFMG daria o título de doutor a uma indígena pela primeira vez em seus quase cem anos de atividade.
O grupo recebeu com algum alvoroço a integrante famosa da banca examinadora: a escritora mineira Conceição Evaristo, doutora em literatura comparada. Joziléia Kaingang, natural da Terra Indígena Guarita, no Rio Grande do Sul, doutora em antropologia social e uma das diretoras do Ministério dos Povos Indígenas, também foi arguir a tese orientada por Ana Flávia Moreira Santos. Só depois chegou a estrela do dia: Célia Xakriabá, de 35 anos, deputada federal pelo Psol de Minas Gerais, para defender seu trabalho de doutorado em antropologia, intitulado Ancestraliterra: sabedoria indígena na política e na universidade.
Quando desceu do carro em frente ao prédio, Célia Xakriabá foi recebida “como uma noiva”, nas palavras dela. Seu vestido, porém, não era branco, mas amarelo, com padrão de onça, e foi desenhado pela própria dona. Na cabeça, um cocar com 231 penas – uma alusão ao artigo 231 da Constituição, que garante aos indígenas direitos sobre suas terras originárias.
Ladeada pelo pajé Deda Xakriabá, que entoava preces protetivas, a deputada entrou no auditório. Cânticos xakriabás, pataxós e maxakalis vieram da parte do público. Entre o ritmo dos maracás e os versos nos idiomas originários, destacava-se uma palavra de ordem em português: “A universidade vamos indigenizar.”
Conceição Evaristo estava na banca por uma razão importante: Célia Xakriabá elaborou a sua tese a partir da ideia de “escrevivência”, termo criado pela escritora para designar um texto calcado na experiência particular da etnia e do gênero e engajada na vida de uma coletividade. Tomando como exemplo a história e a cultura de seu povo, Célia investiga na tese como o pensamento e o conhecimento indígenas têm sido recebidos em instituições que não foram projetadas para os povos originários. Não se trata de um estudo antropológico clássico, em que um observador externo descreve os costumes de um grupo, mas de um relato em primeira pessoa – um gênero de pesquisa conhecido como autoetnografia.
A narrativa acompanha a formação da autora – que começou, nos anos 1990, sob um pé de manga: era a sala de aula na Terra Indígena Xakriabá, em São João das Missões, Norte de Minas Gerais (uma escola seria construída alguns anos depois). Graduada no ensino médio na mesma região, Célia mudou-se para Belo Horizonte, em 2009, para estudar pedagogia na UFMG. Antes rodeada por indígenas, teve de lidar com o que chama de “racismo da solidão”. Encontraria a mesma realidade na Câmara dos Deputados, em 2023 – só há quatro indígenas entre os 513 integrantes da casa.
Depois de formada, ela retornou ao seu território como professora do ensino fundamental. Ensinava matemática a partir das “formas geométricas da pintura corporal indígena”. Dois anos mais tarde, em 2015, Macaé Evaristo, hoje ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania e à época secretária de Educação de Minas Gerais, convidou-a para integrar a pasta. Célia percorreu o estado com o objetivo de ouvir o que os indígenas queriam para a educação. Em 2016, ingressou no mestrado em desenvolvimento sustentável na Universidade de Brasília (UnB).
Concluiu o mestrado em 2018 e no ano seguinte engatou o doutorado em antropologia. No meio dos estudos, fez sua primeira campanha eleitoral em 2022 e foi eleita deputada com mais de 100 mil votos. Com um pé na academia e outro no Congresso, enquanto escrevia a tese para a UFMG combatia o marco temporal, que busca limitar as terras indígenas à extensão ocupada em 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal.
Em maio de 2023, quando a Câmara aprovou o projeto, Célia chegou a virar a noite no Congresso. Por sua oposição veemente ao marco temporal, um processo de cassação foi aberto contra ela e outras cinco deputadas de esquerda no Conselho de Ética. O processo acabou arquivado.
Neste ano, depois de participar do Acampamento Terra Livre, evento que reuniu 8 mil indígenas em Brasília, Célia decidiu que era hora de se dedicar à escrita da tese.
“Existem forças invisíveis que cuidam de mim”, disse ela à banca. “Às vezes, quando estou dispersa, pessoas me ligam da Terra Indígena para me lembrar disso. Vivenciamos um momento de ansiedade climática e existencial, mas até aqui faço tudo com um sorriso. Sem romantizar o cansaço, é possível sair inteira da universidade e pensar o processo da escrita de um jeito que não nos adoeça. É o que tenho feito também no Congresso.”
Conceição Evaristo elogiou a “audácia” da deputada em produzir uma tese com ares poéticos, remetendo à palavra falada dos xakriabás. “O primeiro embate entre o colono e o colonizado é o embate da linguagem”, disse. A escritora criticou a academia por sua “política de citações”, que consagra quase sempre homens brancos. No trabalho de Célia, praticamente todas as referências bibliográficas são de autores e autoras indígenas e negros.
Joziléia Kaingang concordou. “O roubo colonial foi também um roubo epistêmico”, argumentou, pois, segundo ela, teria fomentado o desprezo pelo pensamento não europeu. “A presença de estudantes indígenas dá outra cara à universidade”, concluiu.
A banca concedeu o título de doutora a Célia Xakriabá. A antropóloga e seus quatrocentos parentes encaminharam-se para a comemoração num galpão próximo à UFMG. Ao som da banda de forró Swing Bad Boy, composta por músicos xakriabás, os indígenas festejaram noite adentro sua primeira doutora. “Mas não a última”, garante a deputada.