questões vultosas

OS INCENDIÁRIOS

O jogo entre a Faria Lima e o governo
Imagem Os incendiários

6 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Quando o Banco Central aumentou a taxa de juros e sinalizou que novos aumentos estão a caminho, aconteceu o contrário do que se esperava. Com um sinal tão forte sobre o rigor da política monetária, o normal seria que a alta dos juros aplacasse a volatilidade do câmbio e derrubasse o dólar, que vinha subindo dia após dia, desde o anúncio do pacote fiscal do governo. Mas, nesses tempos que correm, com Lula na Presidência da República e Fernando Haddad no Ministério da Fazenda, o mercado criou um novo normal.

Um exemplo. Ao acompanhar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o mercado vigiava os movimentos de Gabriel Galípolo, o nome escolhido por Lula para suceder a Roberto Campos Neto no comando do BC. Se Galípolo votasse contra o aumento dos juros, nessa que foi sua última reunião antes de assumir a presidência do BC, seria um sinal de que estava orientado pelos interesses políticos do governo, e não pelas exigências da política monetária. O mercado queria ter certeza de que ele não romperia o período de silêncio de sete dias que antecede a reunião. Aos olhos da Faria Lima, seria um escândalo sem precedentes se o economista se encontrasse com Lula ou Haddad nesse intervalo. Como a decisão foi unânime, Galípolo deu provas de sua independência técnica, mas isso não resolveu nada.

O novo normal é assim: Campos Neto, então presidente do BC, não foi submetido à mesma vigilância sobre sua semana de silêncio. Tanto que, segundo a colunista Martha Beck, da Bloomberg, Campos Neto reuniu-se, sem constrangimento de qualquer natureza, com políticos e banqueiros durante o aniversário do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro. A festa aconteceu em Brasília, na véspera da reunião do BC. Nada disso triscou a credibilidade de Campos Neto no mercado.

Ao contrário. No dia da reunião do Copom, 11 de dezembro, o mercado estava mal-humorado, mas assim que saiu a notícia de que Lula teria que fazer nova cirurgia para tratar um hematoma intracraniano, espalhou-se uma onda de otimismo: a Bolsa subiu 1% e o dólar, pela primeira vez em nove dias, cedeu 1,3%. Na visão do mercado, se tudo desse “certo”, Lula não resistiria à cirurgia. Entre investidores, já se especulava quem seria o ministro da Fazenda no governo Geraldo Alckmin. Armínio Fraga e Persio Arida lideravam a corrida, nesta ordem.

Durou pouco. No dia seguinte ao aumento dos juros, o novo normal continuou na forma de pandemônio: a Bolsa caiu 2,74%, o dólar voltou a subir para 6 reais e o BC vendeu reservas para baixar a cotação. Torrou 4 bilhões de dólares. Não adiantou. No seguinte, vendeu mais 845 milhões de dólares. De novo, a moeda seguiu em alta. Na segunda-feira, 16, o BC vendeu mais 4,6 bilhões de dólares, mas o dólar fechou na maior cotação da história frente ao real até então: 6,09. No outro dia, bateu em 6,20, novo recorde, embora tenha fechado a 6,09 depois de nova intervenção do BC no câmbio. No dia 18, recorde outra vez: 6,26. No dia 19, recuou, depois de uma intervenção de nada menos que 5 bilhões de dólares feita pelo BC, e acabou fechando em 6,12.

O novo normal tem alguma contribuição das incertezas externas, sobretudo com as ameaças de Donald Trump, mas a explicação essencial está num verbo abstrato: crer. Como acontece no âmbito do pensamento mágico, a realidade é menos importante que a crença. Tanto que o real teve um dos piores desempenhos do mundo. Rivaliza com o bolívar da Venezuela (uma ditadura que acaba de definir a sucessão com fraude eleitoral), com o peso da Argentina (que está em recessão e com inflação anual de quase 200%) e com o rublo da Rússia (que está em guerra e sob sanções econômicas das potências ocidentais). O Brasil é uma democracia, a economia deve crescer mais de 3% em 2024, a inflação anual é inferior a 5% e o desemprego está em mínima histórica.

Mas o mercado crê que o governo não está interessado em cuidar da saúde fiscal e controlar a trajetória ascendente da dívida bruta, como se chama a soma de todos os compromissos financeiros do setor público e do BC. A relação do mercado com Haddad se deteriora desde abril, quando o ministro revisou as metas do arcabouço fiscal, indicando que não faria o superávit prometido em 2025 e 2026. Depois, o governo excluiu do cálculo do superávit o gasto com alguns programas sociais e com a ajuda ao Rio Grande do Sul em razão das enchentes. Em novembro, ao anunciar o pacote de ajuste das contas, Haddad propôs isenção tributária para quem ganha até 5 mil reais por mês – benefício que seria compensado com a tributação maior sobre quem ganha mais de 50 mil mensais. A Faria Lima ficou em chamas: achou o pacote fraco e rechaçou a ideia de discutir ajuste junto com medidas de aumento de gasto.

No pacote de Haddad, a conta fecha: cobra-se dos mais ricos para financiar a isenção dos mais pobres. Em um evento no dia 12 de dezembro, porém, o gestor Luis Stuhlberger, da Verde Asset, festejado no mercado pelos bons retornos que entrega aos seus clientes, duvidava que a tributação dos ricos seria aprovada no Congresso – e, mesmo assim, acreditava que o governo manteria a isenção aos mais pobres. Ou seja: a conta não fecharia. Stuhlberger não tinha informação concreta sobre essa manobra. Era achismo. No dia seguinte, outro investidor que estava no mesmo evento me disse que a previsão de Stuhlberger era “bem plausível”, embora ele tampouco tivesse informação a respeito.

No governo Bolsonaro, as previsões – de crescimento do PIB, de inflação – e a realidade tinham um descompasso: o mercado sempre achava que o cenário era mais róseo e previa números melhores do que a economia acabava entregando. Prevalecia a crença em Paulo Guedes, o Posto Ipiranga. Agora, o descompasso permanece, só que com sinal trocado: o mercado está sempre prevendo números piores. Por isso, as manchetes dos jornais vivem noticiando “surpresas”. Em setembro, “PIB do Brasil cresce 1,4% no segundo trimestre, acima do esperado”. Em outubro, “Geração de empregos formais surpreende”. Em dezembro, “PIB surpreende de novo e sobe 0,9% no terceiro trimestre”.

Hoje, a dívida bruta que agita tanto o mercado corresponde a 78,6% do PIB. Na gestão de Guedes na Fazenda, a relação dívida-PIB, antes da pandemia, era quase igual: 76%. A Faria Lima não parecia insatisfeita. Quando o Congresso aprovou os 600 reais do auxílio emergencial na pandemia, o mercado contentou-se com uma declaração de Guedes de que a ajuda seria por pouco tempo. Prolongou-se até o ano eleitoral, pois Bolsonaro queria cavalgar nas urnas com o benefício. O mercado não gostou, mas absorveu. Quando o governo deu calote dos precatórios e enterrou o teto de gastos, o mercado torceu o nariz, mas o dólar não passou de 5,60. Entre 2021 e 2022, a relação dívida-PIB caiu para 71,7%, o governo colheu os louros de um feito histórico, mas quando o economista Bráulio Borges explicou que a queda histórica decorrera mais da alta da inflação do período do que da responsabilidade fiscal da gestão de Bolsonaro-­Guedes, o mercado fez que não viu.

A Faria Lima pode agir com irracionalidade, guiar-se por interesses meramente financeiros e mover-se por inclinações ideológicas – mas, ainda assim, seus efeitos na economia são reais. E Lula terá que resolver o pepino. Se o governo não controlar a política fiscal, o dólar e os juros altos podem explodir o bolso dos brasileiros – e implodir seu mandato. O novo normal carrega duas lições. A primeira: é descabido que um país que cresce e emprega tenha chegado a esse extremo. A segunda: a Faria Lima é perversa com um governo de esquerda, pode até torcer pela morte de Lula, mas o Tesouro precisa dela para refinanciar os títulos da dívida.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época