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Adriano Alves Fev 2025 14h20
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Correr pelas ruas de Petrolina, em Pernambuco, e da vizinha Juazeiro, na Bahia, é algo que faz parte da vida cotidiana de Antônio dos Santos, de 60 anos. Como mototaxista, ele atravessa diariamente as duas cidades entre 7 e 18 horas. Como maratonista, costuma treinar quatro vezes por semana, sempre às 4h30 e, às vezes, também às 19 horas, seguindo um trajeto de 10 a 15 km, em média, por dia. Além disso, Santos gosta de vasculhar as ruas de Petrolina e Juazeiro atrás de um velório. As antigas carpideiras do sertão eram contratadas para chorar nos enterros. O maratonista, ao contrário, corre por vontade própria até o lugar onde a morte acabou de passar.
Para lembrar as despedidas de que já participou, ele as registra em pequenas brochuras de capa dura. Numera os velórios pela ordem em que os visitou e anota a data, o nome do morto, o local e o horário da visita – tudo ao lado do desenho de uma cruz, inspirada nos avisos de falecimento dos jornais impressos.
Já preencheu catorze cadernos, que dividem espaço na sua sala com as mais de duzentas medalhas que conquistou em maratonas. Prefere brochuras de capa preta. Quando não encontra o modelo de que gosta nas papelarias locais, usa cadernos azuis.
As páginas contam com mais de 9 mil nomes, em sua maioria de pessoas que Santos não conheceu em vida. O mototaxista chegou a visitar dez velórios em um só dia. Só no caminho para a entrevista à piauí, no ano passado, parou em dois, numerados como 8 623 e 8 624. No ano passado, Santos compareceu a 875 homenagens fúnebres. Nos primeiros dez dias deste ano, já somava 22. Curiosamente, esse estranho hábito nasceu do pavor que ele já teve dos mortos.
Antônio dos Santos vive em Petrolina com a irmã. É solteiro, mas tem uma filha que mora com a mãe. Começou a correr relativamente tarde, incentivado por colegas: entrou para a Associação Petrolinense de Atletismo aos 37 anos. Dedicado, tornou-se um atleta bem-sucedido em competições de amadores.
Hoje, ele treina sozinho e às vezes em grupo. Quando se atrasa para o encontro da equipe, seus colegas já sabem que ele parou em algum velório no caminho. Até fazem piada a respeito: apelidaram o amigo de Antônio dos Caixões ou Antônio dos Velórios.
Todos os dias, Santos visita as funerárias de Petrolina e Juazeiro, para saber a agenda de funerais. Eles seriam mais numerosos em seus cadernos se ele não tivesse morado cinco anos em Campo Formoso, cidade de pouco mais de 71 mil habitantes, na Bahia. Ali, conseguiu ir a apenas 121 velórios. “Ai, meu Deus, nesse lugar não morre gente, não?”, reclamava para amigos.
Santos não abandona a mania de velórios nem quando está viajando. Antecipadamente, pesquisa o endereço dos locais em que se fazem cerimônias fúnebres, como fez em Aracaju, no Sergipe, onde foi a dois velórios. Em Juazeiro do Norte, no Ceará, visitou o Centro de Velório Anjo da Guarda. Na sua própria região, já se deslocou de moto ou de ônibus só para visitar velórios em cidades como Dormentes, em Pernambuco, e Casa Nova, na Bahia.
Ele guarda uma frustração de sua visita a Santiago do Chile, onde participou de uma maratona: não conseguiu ir a um velório sequer. Seus caderninhos ficaram sem um registro internacional. Fez questão, porém, de visitar um cemitério histórico da capital chilena, pois também admira a arte tumular.
Vinte anos atrás, se alguém chamasse Antônio dos Santos para um enterro, ouviria um enfático “não”. Ele tinha horror a qualquer coisa relacionada à morte. Quando sabia que uma casa estava abrigando um defunto, evitava até passar pela rua.
Em 2006, chegou à conclusão de que precisava enfrentar o medo da morte – até porque havia um local de velórios no trajeto de seus treinos. “Me ensinaram que tinha que passar a visitar, que assim eu perderia o medo”, conta.
O maratonista acatou o conselho e começou a frequentar os velórios no meio das suas corridas. Olhava o caixão e depois voltava ao treino. O morto número 1 dos cadernos é uma senhora que sofreu um acidente em 2006. Nos dezenove anos em que vem anotando o nome de quem se foi, o maratonista percebe uma mudança relevante nos costumes fúnebres: “Agora, o pessoal não quer mais velar em casa, é mais nos centros de velório.”
E o que foi feito do antigo pavor dos mortos? “Hoje, até durmo dentro de um caixão e não estou nem aí”, conta, orgulhoso. Para ele, a morte tornou-se “uma amiga”. Mas o maratonista espera que ela não o alcance tão cedo: deseja viver pelo menos até os 100 anos. Porém, como sabe que “a vida é uma interrogação” (nas palavras dele), Santos já anda em busca de um sucessor – alguém que continue o seu trabalho com os cadernos, depois que ele for obrigado a protagonizar o seu próprio velório.
Enquanto isso não ocorre, Santos segue com seu ritual nas cerimônias que encontra pela frente. Sempre respeitoso, aproxima-se dos parentes do morto para transmitir seus pêsames, depois reza um Pai-Nosso diante do falecido. “Muita gente pensa que é promessa, mas hoje para mim é como se fosse uma devoção”, diz.