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O SOL EM KAFKA

Uma sueca busca luz entre as sombras do escritor
Imagem O sol em Kafka

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A sueca Ana-Maria Moreira cumpre todas as manhãs um pequeno ritual. Depois de tomar o café, ela garimpa em sua biblioteca um trecho da obra de Franz Kafka que para muitos pode soar surpreendente. Depois, coloca a frase em “The sunny side of Franz Kafka” (O lado ensolarado de Franz Kafka), perfil no X em que tenta transmitir a face mais luminosa desse escritor “cercado de sombras demais”, como ela diz. Feito isso, Moreira, que tem 46 anos, segue para seu trabalho como assistente de enfermagem de um lar de idosos com demência.

Em dezembro de 2022 – ano em que o perfil foi criado –, Moreira publicou esta frase que Kafka deixou em seus diários em 1912: “Cheguei ao escritório cantarolando.” Um ano depois, flagrou o autor de O castelo desfrutando, em 1914, de uma experiência simples e simpática: “A alegria de ficar deitado no sofá.” Esse recesso pacífico em meio ao tumulto do X, onde são mais frequentes a polêmica e os conflitos ideológicos, vem conquistando leitores. No ano passado, quando se celebraram os cem anos da morte de Kafka, o perfil chegou a 154 mil seguidores.

Judeu tcheco que escrevia em alemão, Kafka (1883-1924) não se consagrou como um escritor luminoso. Até seu humor tinha notas um tanto sinistras. Na leitura que fez de A metamorfose para amigos, em 1912, ele arrancou gargalhadas dos ouvintes, mas a graça, de acordo com Modesto Carone (1937-2019), seu mais consagrado tradutor no Brasil, vinha do “grotesco frio” que perpassa a narrativa. Não é essa a tônica do perfil “The sunny side of Franz Kafka”. As citações escolhidas por Moreira – quase sempre breves e todas em tradução inglesa – são alegres, inspiradoras. Em geral, elas não vêm da ficção do escritor tcheco.

Na adolescência, Ana-Maria Moreira começou a ler Kafka não pelas novelas e contos, mas por suas cartas e diários. “Descobri a pessoa Franz antes do autor Kafka”, conta. “Essa pessoa com que me deparei atrás das palavras escritas desde então me serviu como um consolador, um conselheiro e um comediante.”

Foi a partir dessa experiência que ela decidiu criar o perfil no X. Desejava se afastar da imagem de Kafka como um escritor depressivo e uma pessoa complicada: “Eu tinha experimentado o seu outro lado, e como essa parte dele significou para mim tantas coisas boas, eu quis compartilhar isso com outras pessoas também.”

Há um nítido contraste entre a ficção de Kafka e os trechos de sua prosa íntima que passam pela curadoria de Moreira. No mesmo ano de 1912 em que escreveu A metamorfose, sobre a transformação de Gregor Samsa em inseto e seu isolamento e inadequação ao mundo, Kafka comenta em carta a Felice Bauer, sua noiva, sobre o milagre que é um domingo depois de uma semana difícil – um milagre, conta o escritor, cujo “brilho” ele começou a ver “desde a manhã da segunda-feira” anterior.

No trecho de outra carta para Bauer, citada em “The sunny side of Franz Kaf­ka”, o escritor oferece à noiva conselhos que dificilmente teriam sentido para Josef K., o homem acossado por um sistema judicial absurdo em O processo: “Minha querida! Almoce direito! E fique calma! Não chore! Não se desespere!”

Há momentos depressivos nos diários, mas Moreira diz irem além disso: “Kafka tinha uma escuridão em si, porém essa escuridão não o dominava.” A mesma dualidade, acredita ela, está presente na obra ficcional: “Kafka podia revirar coisas do cotidiano até que se tornassem extraordinárias, assim como podia fazer do estranho algo extremamente normal.” Ela pondera que as histórias do gênio tcheco podem dar ao leitor a sensação de que está se perdendo em um labirinto. Mas a assistente de enfermagem acredita que há saídas: “Se você lê Kafka com algum humor, então você também vai achar alguns raios de sol entre as páginas.”

Moreira vive rodeada de “árvores, flores e vacas” em Halland, lugarejo sueco perto do mar. Nascida e criada na Suécia, ela é filha de mãe sueca e pai português. Na casa onde mora com o noivo, Jan, de 66 anos, o filho, Noah, de 22 anos, e o gato Banderas, Kafka “é quase um membro da família”. A assistente de enfermagem coleciona suas obras completas em inglês, sueco e no alemão original. As estantes também guardam exemplares em outras sete línguas, incluindo o português. Há fotos do autor na sala e na cozinha – retratos “simpáticos”, com os quais “se pode conversar”, diz ela.

“Acho que parte da minha família me vê como um pouquinho fanática”, admite Moreira. Mas seus familiares também se integram à mania kafkiana. O filho e o noivo contribuem com a coleção de livros. O bonequinho de crochê de Kaf­ka na escrivaninha de Moreira foi presente de sua irmã, Albertina, que mora em uma vila vizinha. E sua mãe passou por uma conversão: “Antes, ela pensava que Kafka era sombrio e chato, mas agora o acha bonitinho e engraçado.” Moreira conta que muitos jovens começaram a se interessar por Kafka graças a seu perfil no X, tendo encontrado identificação e apoio nas frases partilhadas.

Em junho passado, mês do centenário da morte de Kafka, ela fez sua terceira viagem a Praga. Dessa vez, foi visitar o túmulo do escritor no Novo Cemitério Judaico. Seguindo o costume judaico, a autora do perfil luminoso de Kafka depositou na sepultura pedras que levou da praia de Halland. “Eu amo visitar cemitérios”, diz Moreira. “Imagino que os mortos estão dormindo calmamente debaixo da terra.”

Ela andou pelas ruas percorridas por Kafka e visitou um jardim que o escritor considerava um dos lugares mais bonitos de Praga. “Imaginei Franz com um casaco chique e um chapéu, caminhando à minha frente.” Longe do país natal, Ana-Maria Moreira sentiu que Praga também era seu lar: “Para mim, Kafka é isso. Eu me sinto em casa na companhia das suas palavras.”


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