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Guilherme Henrique Jan 2025 19h07
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Sentado à mesa na qual notas fiscais e pilhas de livro dividem espaço com um computador antigo, Cleber Aquino, de 43 anos, atende ao telefone: “Adris, vou enviar outro endereço, é na Rua Treze de Maio. Passa lá, por favor.”
Ele fala com Adriano, motorista da Kombi branca que percorre as ruas de São Paulo para o Sebo do Messias, um dos mais tradicionais de São Paulo, atrás de livros, discos e às vezes até móveis usados. “Uma professora catedrática da PUC nos ofereceu os livros de sua biblioteca, mas, chegando lá, ela já havia doado. Agora quer vender os móveis. Eu compro, porque negociamos tudo, mas não é nosso foco. Nesse caso, pagamos menos”, explica Aquino, gerente do sebo, que deu sinal verde para Adriano completar a aquisição.
Pendurados na parede ao lado da mesa do gerente, há um terço e retratos dos papas João Paulo II e Bento XVI. “Aqui era o lugar dele. Seu Messias era muito católico”, lembra Aquino. “Rezava três vezes e beijava o terço todos os dias quando ia embora.”
Ele se refere a Messias Antonio Coelho, fundador do sebo, que morreu em 19 de dezembro, aos 83 anos, de insuficiência cardíaca, depois de cinquenta dias internado no Hospital Sírio-Libanês. Com o avanço da idade, ele foi se afastando do trabalho aos poucos, conta sua filha Daniela Coelho, de 51 anos, que a partir de agora vai administrar a loja com a irmã, Lilian Coelho, de 53 anos. “É um processo de sucessão que vem desde a pandemia”, diz ela.
O Sebo do Messias tem cerca de cinquenta funcionários e acumula um estoque de 400 mil produtos, entre livros, revistas, jornais, CDs e LPs, além de tevês antigas, móveis, toca-discos, bonecas e videogames. Parte desses itens fica exposta na loja na Praça Dr. João Mendes, no Centro de São Paulo. Outros estão armazenados no subsolo da Igreja de São Gonçalo, ao lado do sebo. Alugado há décadas pelo comerciante, esse depósito não é aberto aos clientes.
Ao longo do ano passado, as irmãs cuidaram, com cautela, dos projetos de expansão do sebo. Inauguraram duas bancas em frente à igreja, cada uma com 8 m² e abrigando 5 mil produtos, sobretudo livros e discos. Só a primeira, aberta em maio, chegou a ser vista pelo fundador. “Queríamos esperar o Messias para inaugurar o segundo ponto, em novembro, mas ele foi internado”, lamenta o gerente. Espaços similares podem surgir nos próximos meses. “A gente precisa derreter livro”, diz Aquino, arriscando uma metáfora para se referir à necessidade de levar a palavra escrita para novos espaços, mas também vender seu gigantesco estoque.
Em março do ano passado, com Messias ainda no comando, o sebo incrementou drasticamente o acervo que já acumulava na loja e no subsolo da igreja. Arrematou 2 milhões de livros no leilão do estoque da Saraiva, rede de livrarias que, com uma dívida de 674 milhões de reais, teve a falência decretada pela Justiça de São Paulo em 2023. O valor pago por essa montanha de livros não foi revelado à piauí.
Uma frota com vinte caminhões transportou os volumes até um galpão alugado na Sé. De lá, eles estão sendo levados para o primeiro andar do sebo, reformado e recém-inaugurado. “Nós tiramos os plásticos dos livros para vendê-los como usados”, diz Daniela.
Aquino cuida para que o espaço reformado e com livros seminovos à venda não comprometa o caráter do sebo. Ele mostra a placa que orienta o público na direção do novo recinto: “Solicitei ao rapaz da manutenção que escrevesse à mão, a fim de manter o ar caseiro. Não queremos que fique com cara de livraria.” Em uma bancada apinhada de títulos, amontoavam-se exemplares de Vivendo como um guerreiro, biografia do youtuber e comediante Whindersson Nunes (com Gabriel Chalita), lançado pela Editora Serena.
O gerente lembra que conversava com Messias sobre a possibilidade de abrir uma filial do sebo na Avenida Paulista: “Pessoalmente, como colaborador, meu sonho é ter um ponto lá. Tem um pessoal que frequenta aquela região, mas não vem aqui no Centro.” Pergunto se o chefe gostava da ideia. “Acho que ele estava disposto, mas mineiro é desconfiado”, responde Aquino. A filha Daniela despista. “Se nós vamos expandir? Isso será fruto do trabalho. A intenção é sempre crescer.”
Mineiro de Guanhães, município na região do Vale do Rio Doce, Messias tinha 23 anos quando se estabeleceu em São Paulo, em 1964. Trabalhou como vendedor da Lex Editora, dedicada ao universo jurídico. “Ele foi conhecendo os sebos e percebeu que aquilo dava dinheiro”, observa Aquino.
Messias adquiriu, então, uma biblioteca com cerca de 5 mil livros de um advogado recém-falecido e alojou tudo na casa de um cunhado, enquanto buscava um lugar para fazer suas vendas. No início de 1970, criou o Sebo do Messias, que já funcionou na Avenida Brigadeiro Luís Antônio e na Rua Quintino Bocaiúva. “Isso aqui era a vida dele. Não tinha férias ou lazer”, conta Daniela. Além das duas filhas, o livreiro deixou dois netos e a mulher, Julian, com quem foi casado por 57 anos.
Aquino também é mineiro, da cidade de São Lourenço. Conheceu Messias há duas décadas, quando passou a visitar o sebo, aos 20 e poucos anos, por indicação de uma namorada. Ficou amigo do comerciante, que ao descobrir que o jovem pensava em voltar para Minas, ofereceu-lhe emprego, pois precisava de ajuda para organizar o site do estabelecimento. A amizade estreitou-se. “Às vezes a gente discordava, cada um pensando de um jeito”, diz Aquino. “Mas, agora, estou com um pouco de medo, pois quero fazer as coisas do jeito que ele faria.”
Dois dias antes de morrer, Messias ligou para Aquino do hospital para fazer um gracejo. Perguntou se o funcionário ainda se lembrava do endereço do chefe, que ele próprio ditou em seguida. “Estava fraco, mas lúcido. Lembrou até o cep”, conta o gerente. “Daí, em tom de brincadeira, pediu que eu chamasse um carro de aplicativo para buscá-lo, e arrematou: ‘Mas quem vai pagar é você.’” A recordação deixa Aquino emocionado. “Com a rotina aqui, ainda não tive tempo de sofrer”, diz ele, com a voz levemente embargada.