esquina
Karla Monteiro Jan 2025 18h59
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O ar estava irrespirável em Belo Horizonte. Fazia mais de 150 dias que não chovia, e a fumaça das queimadas continuava vagando pelo céu da cidade na manhã de 28 de setembro passado. De dentro do carro, com as janelas fechadas, a artista Isabela Prado, de 51 anos, aponta para as placas que ela instalou nas esquinas: “Acaba Mundo”, “Mendonça”, “Serra”, “Zoológico”, “Leitão”…
No mesmo formato das placas com o nome das ruas, mas com as cores invertidas (letras azuis sobre fundo branco), as sinalizações feitas pela artista indicam os cursos d’água que, no passado, antes da construção da capital mineira, corriam a céu aberto. Graças a essas placas, pedestres e motoristas descobrem agora que estão trafegando por cima de rios invisíveis – ou invisibilizados, como Prado prefere dizer.
No volante, seu marido, o professor de economia Gilberto Libânio, segue o caminho dos riachos, enquanto Prado conta que o projeto urbanístico de Belo Horizonte – cidade inaugurada em 1897 – seguiu um traçado geométrico muito regular, que não permitia linhas curvas. A solução encontrada no planejamento da capital foi sumir com 160 km de rios e córregos sinuosos, que ajudavam, entre outras coisas, a escoar a água das chuvas. Canalizados, eles agora passam incógnitos sob diversas ruas.
O Mendonça, por exemplo, corta o bairro da Savassi: ruas Levindo Lopes, Antônio de Albuquerque, Alagoas, Santa Rita Durão, Pernambuco… Já o Córrego da Serra desce pelo bairro Funcionários: ruas Aimorés, Piauí, Maranhão… E o Zoológico atravessa os bairros Santo Antônio e Lourdes: ruas Espírito Santo, Felipe dos Santos, Rio de Janeiro… Todos eles correm na direção do Arrudas, o principal ribeirão de Belo Horizonte, que atravessa, debaixo do asfalto, o Centro da cidade.
No cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua Pernambuco, Prado diz: “Essa esquina acho muito legal. Chamo de esquina de rios, porque nela o Mendonça se encontra com o Acaba Mundo e com o Serra, correndo os três até o Centro. Passam debaixo do Parque Municipal e desaguam no Arrudas.”
Isabela Prado colocou 233 placas em 233 esquinas de Belo Horizonte, como conclusão de dezoito anos de pesquisa. Antes de partir para a intervenção no espaço urbano, com a instalação das placas, ela explorou diversos formatos para a representação imagética da trama de rios invisíveis. Criou, inclusive, um broche de ouro, de 9,5 cm, que indicava, na escala de 1:10 000, os últimos 950 metros de leito natural do Ribeirão Arrudas. Também fez performances pelas ruas, tocando violino e convidando as pessoas a encostar o ouvido na tampa dos bueiros para ouvir o fluxo dos córregos ocultos.
Mineira e mãe de três filhos, Prado interessou-se pelos rios invisíveis quando retornou em 2006 ao Brasil, depois de cinco anos nos Estados Unidos, onde fez mestrado em artes na Universidade de Indiana. Naquele ano, o governador Aécio Neves estava empenhado na construção da chamada Linha Verde, uma ligação viária direta de cerca de 40 km entre Belo Horizonte e o aeroporto de Confins. A obra incluiu o tamponamento definitivo do Arrudas.
Recém-chegada, Prado não pôde acreditar que um curso d’água central para a história de Minas Gerais seria apagado da paisagem. “Talvez por eu ter passado tanto tempo fora, minha relação com o território era outra”, diz ela. “Às vezes, quem está inserido nem percebe o que está acontecendo.”
A propaganda do projeto feita pelo governo, estampada em grandes dimensões em outdoors e nos ônibus urbanos, escancarava contradições. Parte da nova via estava sendo chamada de boulevard. “O que vem à cabeça quando se pensa em boulevard? Um lugar com muitas árvores, agradável de passear, com um ribeirão correndo”, diz Prado. “Mas não. O boulevard era o longo trecho em que cimentariam completamente o Arrudas, o Boulevard Arrudas.”
O apagamento dos rios não lhe saiu mais da cabeça: “Fui me lembrando de como, aos domingos, eu ia tomar sorvete com os meus irmãos e era possível ver um pedacinho do Acaba Mundo ainda a céu aberto.” Prado começou então a pesquisar a “trama entre rios e ruas”. Buscou mapas antigos, do tempo da construção de Belo Horizonte.
A princípio, a artista pensou em elaborar uma série de desenhos a partir da sobreposição das linhas regulares projetadas por urbanistas com o emaranhado fluvial da bacia do Arrudas. Só depois seu trabalho derivou para a intervenção urbana. Esse trajeto artístico está documentado no livro Sobre o rio, organizado em 2022 por Prado, que é também professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Como em todas as regiões do Novo Mundo que se civilizaram dentro de um regime colonial e periférico, as cidades surgiram e cresceram numa batalha contra o meio ambiente”, escreve Guilherme Wisnik, crítico de arte e urbanismo, no ensaio A vida invisível, presente na obra organizada pela artista. Sobre o projeto de Prado, ele diz: “[É um] Trabalho de sensibilização e informação, que nos tira do torpor alienante de pensar que a urbanização, como face visível da civilização, representa a vitória da empresa racional sobre a natureza amorfa. Pois, se estou pisando o asfalto de uma rua que encobre um córrego chamado Acaba Mundo, e ali encontro sua gentil identificação numa placa urbana, nunca mais serei o mesmo.”
O carro para no semáforo da Praça Marília de Dirceu, no Lourdes, bairro de classe alta de Belo Horizonte. “Kalil mora ali”, diz Prado, apontando para o prédio onde vive o ex-prefeito Alexandre Kalil (Republicanos). A artista lembra que foi na gestão dele que conseguiu autorização para colocar suas placas nas esquinas, depois de muitas batalhas com a burocracia municipal.
Uma semana antes de Prado começar a instalação das placas, Belo Horizonte foi atingida por um dos piores temporais da sua história. Durante três horas do dia 28 de janeiro de 2020, caíram 175,6 mm de água na região Centro-Sul. No Lourdes, os bueiros foram insuficientes para escoar a enchente – e acabaram explodindo, furiosos. O bairro ficou submerso, com carros de luxo boiando nas ruas, entre cafés, restaurantes e lojas de grife.
Como informa a placa de Isabela Prado em uma das esquinas da Praça Marília de Dirceu, a vingança das águas coube ao Córrego do Leitão.