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YES, NÓS TEMOS BANANA

O remake de Vale tudo e a nova ordem global
Imagem <i>Yes</i>, nós temos banana

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Aestreia de Vale tudo está prevista para o próximo dia 31 de março. A novela das nove da Globo começa no mesmo dia que os militares comemoram – no mundo real ainda é disso que se trata, eles de fato comemoram – o 61º aniversário do golpe de Estado que destituiu João Goulart do poder, nos idos de 1964. Tão longe, mas tão perto. A data este ano cai numa segunda-feira, e muito provavelmente tudo não passa de uma coincidência um pouco constrangedora, mas que fala à imaginação. Nem sempre foi assim, uma casualidade.

A inauguração oficial da televisão em cores no Brasil, por exemplo, aconteceu de forma deliberada no dia 31 de março de 1972, por imposição dos militares. A primeira transmissão colorida ocorreu, na verdade, durante a Festa da Uva de Caxias do Sul, em 19 de fevereiro, com a presença do general Garrastazu Médici, então na Presidência. A Globo teve lugar de destaque nas festividades.

Walter Clark, à época diretor-geral da emissora, se refere à festa da seguinte forma, em sua autobiografia, O campeão de audiência:

Para aumentar ainda mais o brilhareco da Rede Globo, convoquei um grupo de artistas para aparecer na festa, de surpresa. Quando o desfile começou, surgiram na avenida Jô Soares, Tônia Carrero, Francisco Cuoco e outros. Foi uma ovação danada. Sucesso arrasador. O Médici e dona Scylla chamaram o Jô e a Tônia para assistir ao desfile com eles. Os outros artistas foram paparicados, só deu Globo.

Embora a família Marinho tenha colaborado com a ditadura praticamente do início ao fim, nem sempre as relações da Globo com os militares foram tranquilas. Houve momentos de tensão.

O caso de Roque Santeiro é emblemático. A estreia estava prevista para o final de agosto de 1975. Seria a primeira novela em cores no horário nobre da emissora, uma forma de comemorar dez anos de existência e reafirmar a hegemonia já então conquistada. Depois de passar meses a fio negociando com os militares – tudo era submetido à Divisão de Censura de Diversões Públicas –, a Globo recebeu, a uma semana da estreia, o comunicado de que a novela não poderia ir ao ar naquele horário. Mais do que isso, a trama teria que passar por cortes substantivos para que pudesse ser exibida mais tarde. A crise entre a emissora e o governo se arrastou por uma semana, sem que se chegasse a um acordo, como era praxe.

Na noite de 27 de agosto, depois da exibição da música de abertura da novela, Cid Moreira, que havia acabado de apresentar o Jornal Nacional, reapareceu diante das câmeras e leu, ao vivo, um editorial assinado por Roberto Marinho. O texto expunha o problema aos telespectadores e assumia discordâncias com os militares. Foi a primeira divergência pública da Globo com o governo, segundo o relato da jornalista Laura Mattos, autora do livro Herói mutilado: Roque Santeiro e os bastidores da censura à tv na ditadura (Companhia das Letras). Àquela altura, 36 capítulos de Roque Santeiro já estavam finalizados. Foram para a lata de lixo.

A novela de Dias Gomes seria exibida, em nova versão, dez anos mais tarde, de meados de 1985 a fevereiro de 1986. O presidente já era José Sarney, e o país vivia o começo da Nova República (essa que não se sabe ao certo se chegou ao fim, ou se foi sem nunca ter sido). Apesar da distensão política, a turma da tesoura ainda estava operante. Laura Mattos conta que a Divisão de Censura de Diversões Públicas produziu um calhamaço de 597 páginas sobre Roque Santeiro, entre comentários, recomendações e cortes.

A ênfase das restrições dizia respeito ao que se chama de “moral e bons costumes” (seja lá o que isso signifique). Trajes “audaciosos”, linguagem com “malícia acentuada”, abordagens de “adultério, prostituição e insatisfação sexual”, tudo isso atormentava a mente dos censores. Mas havia também preocupação com “mensagens favoráveis ao movimento dissidente da Igreja Católica”, numa alusão à Teologia da Libertação.

A despeito de tudo, Sinhozinho Malta e Viúva Porcina caíram nas graças do público. Roque Santeiro é a novela de maior audiência da história da tevê brasileira. Como havia feito com Bole-Bole em Saramandaia (1976) e com Sucupira em O bem-amado (1977), Dias Gomes transformou a cidadezinha imaginária de Asa Branca numa alegoria do país. “Ao rir de Asa Branca, o Brasil na verdade está rindo de si mesmo”, disse na época José Wilker, o Roque Santeiro, à revista Veja.

Expressão figurada de uma realidade, a alegoria era recorrente na obra de Dias Gomes e foi uma arma eficaz para driblar a censura. Vale tudo está muito distante desse universo. Nem alegoria, nem metáfora, nenhum recado cifrado, nada de subentendidos, a novela de Gilberto Braga chegava com a pretensão de ser o retrato escarrado do Brasil.

Escrita em parceria com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a versão original de Vale tudo estreou em maio de 1988. No final daquele ano, a inflação acumulada em doze meses ultrapassaria a marca surreal dos 900%. O país vinha de dois planos de estabilização frustrados – o Cruzado, em 1986, e o Bresser, em 1987. Em 1989 seria a vez do Plano Verão, que também naufragou. Quem cresceu depois do Plano Real, de 1994, não tem ideia do que era viver num país em que o dinheiro derretia, evaporava, se desfazia ao longo do mês.

A perda de parâmetros e a sensação de vertigem que decorrem da corrosão da moeda compõem a atmosfera de Vale tudo, são uma espécie de substrato da novela. O que deflagra a trama, no entanto, é a corrosão moral. Gilberto Braga a resumiu na seguinte pergunta: “Vale a pena ser honesto num país onde todo mundo é desonesto?”

É complicado afirmar que o país era especialmente corrupto ou mais imoral há quarenta anos. Entre o Centrão de Roberto Cardoso Alves – que cunhou o bordão “é dando que se recebe” – e o Centrão de Arthur Lira, que recebe mais do que dá, difícil decidir quem vale menos.

O fato é que a Maria de Fátima de Glória Pires entrou para a história. Sua mãe, Raquel (Regina Duarte), guia de turismo em Foz do Iguaçu, era uma mulher suburbana e caxias, que acreditava no trabalho honesto e nos valores da família. A filha lhe passa a perna, vende o imóvel que herdou do avô e se manda para o Rio de Janeiro, onde pretende ser famosa e podre de rica. Maria de Fátima é arrivista, inescrupulosa e – importante – mais inteligente que a mãe.

No remake, a personagem será uma influencer digital. Na versão original, ela aspirava ser modelo. Foi curioso rever, tantos anos depois, aquela Maria de Fátima (Vale tudo está disponível no Globoplay). Logo no primeiro capítulo, há uma cena que define o páthos da novela. Diante da mãe, Fátima pede ao avô, fiscal da Receita Federal prestes a se aposentar, que a ajude a passar pela alfândega, sem pagar impostos, uma remessa de videocassetes. Ela quer fazer um favor a um pilantra que acabou de conhecer, César, misto de modelo e michê, vivido por Carlos Alberto Riccelli. O avô se nega, inicia um sermão invocando a honra e a dignidade, maldiz a corrupção e os corruptos e termina num discurso patriótico em defesa do progresso do país. Segue-se então o seguinte diálogo:

Maria de Fátima: O último homem honesto do Brasil, dava até reportagem pro Fantástico. […] Isso aqui é um país de trambiqueiro, gente. Vocês estão pensando que eu não leio jornal? Vai conseguir o que com sua honestidade, vovô? Vai acabar com os assaltantes, com os pivetes, com os marajás, com político ladrão, com os colarinhos brancos, que estão aí, dando golpes de milhões e milhões de dólares?

Raquel (interrompendo): Nem todo mundo é ladrão nessa terra, não senhora, dona Fátima! Tem muita gente aqui que trabalha e que é honesta.

Fátima (retrucando): Ninguém presta! Ninguém vale nada, ninguém cumpre lei nenhuma. De uma maneira ou de outra, aqui nessa terra todo mundo é corrupto.

A sequência é excessivamente didática, como observam os jornalistas Artur Xexéo e Mauricio Stycer ao comentar a cena na biografia Gilberto Braga, o Balzac da Globo (Intrínseca). De fato, em vários momentos da trama as coisas se passam como se a Globo fosse um aluno aplicado aprendendo a falar a verdade. Faz sentido, a emissora estava engatinhando na sua encarnação democrática. Vale tudo, lembram Xexéo e Stycer, foi a última novela a passar pelo crivo da Divisão de Censura de Diversões Públicas. A tesoura só parou de operar no dia 5 de outubro de 1988, quando a nova Constituição foi promulgada. Diálogos inteiros entre o casal lésbico da novela foram suprimidos da versão original.

A despeito do traço escolar – e apesar da obtusidade dos censores –, Vale tudo capturava de forma inédita o Zeitgeist do país. Na voz de Gal Costa, Brasil, de Cazuza, traduzia, em tom de desafio, quase como uma convocação, o sentimento de urgência daquele momento histórico, no qual se confundiam desamparo e esperança. “Brasil, mostra a tua cara!”

“De uma maneira ou de outra, aqui nessa terra todo mundo é corrupto” – a sentença de Maria de Fátima valia para ontem como vale para hoje. Era atual no Brasil da hiperinflação e de Sarney, segue atual no Brasil das emendas Pix e de Lula. Mas há uma diferença decisiva.

A vertigem antes era de natureza econômica, a desordem agora é essencialmente política. Traduzindo em termos concretos, a fala de Maria de Fátima soa mais convincente na boca de um bolsonarista. Não estamos insinuando que a tiktoker do horário nobre global deva aparecer apertando o 22 ou fazendo 17. Não é disso que se trata, obviamente. Trata-se do seguinte: hoje, o vale-tudo está na ascensão e na normalização da extrema direita, no Brasil e no mundo. Esse é o nó incontornável, o terrível espírito do tempo presente.

Manuela Dias, autora da nova versão, provocou reações inflamadas ao sugerir, em entrevista à Folha de S.Paulo, que o escracho do original estaria datado e que o país hoje pede outra abordagem. Cito o trecho: “Vale tudo foi a novela da volta da democracia, e naquele momento falar mal do Brasil, ou poder falar mal, era resistência, era revolucionário, era novo. Hoje não é mais. Estamos saturados.”

Não é o caso de criticar por antecipação uma novela que ainda não começou. Fica, porém, a dúvida se a autora expressava apenas uma convicção pessoal ou se também vocalizava uma conveniência da Globo. Até onde a emissora quer chegar no enfrentamento da realidade? Em 1988, a vilã Odete Roitman, vivida por Beatriz Segall, dizia coisas do tipo: “Você reserva para mim a suíte presidencial de um desses hotéis limpinhos aí. De preferência que não tenha um bando de mendigos na portaria tentando agarrar a gente”; “A única solução para a violência é a pena de morte. E, para ladrão, para assaltante, cortar a mão em praça pública.”

O pacto recente da elite brasileira com o diabo estará ou não estampado na tela?

Xexéo e Stycer recordam em seu livro que o ator Reginaldo Faria, no papel de  Marco Aurélio, um empresário truculento e corrupto, ficou surpreso com a recepção festiva da cena final da novela entre representantes do mercado financeiro e o que, na época, se chamava de “grandes especuladores”. Ao escapar da polícia e fugir do país num jatinho, no momento que a aeronave se prepara para decolar, ele faz o gesto característico: dá uma se­nhora banana a quem fica. Era a apoteose do escárnio e da desfaçatez de classe.

O último capítulo de Vale tudo foi ao ar no dia 6 de janeiro de 1989. Quase um ano depois, em 17 de dezembro, o país elegeria Marco Aurélio presidente da República. Com a ajuda da Globo, que deu uma banana para o jornalismo na edição facciosa que fez do último e decisivo debate entre Fernando Collor e Lula. Isso tudo é história.

Não é difícil imaginar que a banana de Marco Aurélio, se reeditada, faria novamente a alegria dos rapazes da Faria Lima, do pessoal do agronegócio, de muito marmanjo que ostenta no peito a camisa amarela da Seleção. Mas não é preciso esperar para ver de novo.

A volta de Donald Trump ao poder está aí, para consagrar à vista de todos o novo vale-tudo. A saudação nazista de Elon Musk, no dia da posse do presidente americano, é a grande banana que a oligarquia digital do Vale do Silício dá à democracia no planeta. Está em andamento uma cruzada fascista pelo mundo, em nome de ideais libertários e a serviço da face mais destrutiva do capitalismo.

A desregulação total das redes, o livre trânsito das fake news e da barbárie digital, de um lado, e a aposta dobrada na energia fóssil, na exaustão definitiva dos recursos do planeta, de outro, estão na base do novo fundamentalismo de mercado, segundo o qual, para usar a expressão do historiador Timothy Snyder, “o governo é a fonte de todo mal” e o jogo democrático é um entrave a ser vencido. “Os oligarcas dos hidrocarbonetos vão perfurando a terra, e os oligarcas digitais vão perfurando a nossa mente”, escreveu Snyder em seu artigo Trump e o fascismo, publicado na piauí_219, dezembro de 2024. As pessoas que afirmam querer a liberdade individual, diz ele, “são as mesmas que clamam pelas deportações em massa”. Estamos vendo isso acontecer.

O governo de Javier Milei está adiantado em relação ao Brasil. O presidente anarcocapitalista acaba de encomendar uma pesquisa de opinião para saber se os argentinos aceitariam viver sob um regime autoritário. Segundo o jornal O Globo, a pergunta aos hermanos seria formulada nos seguintes termos: “Em que país você prefere viver? Num país com um governo democrático, que respeite os direitos individuais das pessoas, ou num país com um governo autoritário, que consiga bons resultados econômicos?” Ou seja, Milei já contratou o seu todo vale.

Por aqui, diante do impedimento de Bolsonaro, os patriotas estão à procura de um novo Marco Aurélio. Primeiro da fila, o governador Tarcísio de Freitas se prestou ao papel subalterno de vestir o boné com a inscrição Make America Great Again no dia em que Trump voltou à Casa Branca. Foi a sua banana – para o Brasil, para a democracia, para o amor-próprio.

Mesmo sabendo que a novela é um gênero acuado, que busca meios de sobreviver num ambiente em que a própria Globo perdeu parte de sua influência, espera-se que o remake de Vale Tudo esteja à altura do presente. “Brasil, mostra a tua cara” é um refrão que envelheceu. O país já exibiu sua nova fuça, e ela é assustadora. Para além do folhetim, no mundo real, ainda não sabemos como reagir ao vale-­tudo. Por ora, o máximo que conseguimos foi repetir, sinceramente comovidos, que ainda estamos aqui.


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