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UMA ODE E UMA VAIA AOS DIÁRIOS

Imagem Uma ode e uma vaia aos diários

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TIGRINHO

Eu sou um leitor improvável. Nasci e cresci num bairro pobre de Recife, e até hoje moro aqui. Quando éramos adolescentes, o sonho de todo mundo era ser jogador de futebol. As peladas na comunidade eram cheias de energia, e, ao som do brega, funk e suas variações, a gente tentava driblar a vida.

Mas o que vejo agora é algo bem diferente. Não é mais o bonde do tigrão que rola pelas ruas, é o triste “tigrinho” que virou símbolo de algo que a gente não queria (O bonde do tigrinho, piauí_220, janeiro). Hoje, os jovens não querem mais ser jogadores de futebol. O sonho é ser influenciador, para ganhar dinheiro divulgando jogos de azar.

É angustiante ver que os vizinhos, que antes se incomodavam com as bolas batendo no portão, agora não reclamam mais do que está acontecendo. A economia da atenção foi sequestrada pelos algoritmos e pelos influenciadores, que lucram enquanto a galera se afunda num zoológico digital, onde o tigrinho é o grande show da vez.

EDUARDO CAVALCANTI_RECIFE/PE

 NOTA MELANCÓLICA DA REDAÇÃO: Há controvérsia. Muito jovem ainda deve sonhar em ser jogador de futebol justamente para ganhar dinheiro divulgando jogos de azar.

VENEZUELA

Que alegria aparecer de novo neste espaço tão disputado. Desta feita minha peroração será mais breve. Passei apenas para elogiar a brilhante Consuelo Dieguez pelo texto A virada (piauí_220, janeiro). A reportagem, econômica nas palavras, mas absolutamente precisa nas colocações, só faz agravar a sensação de que a crise na Venezuela nem sequer tocou seu ápice. Graças a algum meio que a comunidade internacional ainda não conseguiu identificar, Maduro parece continuar dispondo de recursos para assegurar a lealdade de seu Exército, e com isso se perpetuar no poder against all odds. Me parece que, por muito menos, caíram governos de países mais fortes. Ou seja: infelizmente, ainda falta muito para a troca de regime naquele país, e até lá, como lembra a matéria, o Brasil permanece constrangedoramente atado ao regime moribundo, como ex-­fiador e atual vítima geopolítica.

GABRIEL CORDEIRO_SÃO PAULO / SP 

NOTA NUMÉRICA DA REDAÇÃO: 4 516 palavras, 27 829 caracteres, 209 frases, 49 parágrafos. Isso sem contar o título, o subtítulo e a legenda. “Econômica”?

DIÁRIO DO BOTAFOGO

Que alegria reler o texto do Sandro Aurélio Jr. Quando li Tem cloroquina? (piauí_164, maio 2020), eu tinha acabado de iniciar minha jornada de leitor desse monumento do jornalismo brasileiro que é a revista. Contudo, a rotina passou a atropelar esse fraco leitor, e acabei substituindo as palavras escritas pelas palavras faladas do também excelente Foro de Teresina.

Mais recentemente, descobri que um amigo ao qual sempre falei da piauí tornou-se assinante, de modo que não tive alternativa senão me tornar também um assinante, afinal, não podia deixar que Sissi se refestelasse sozinho com as reportagens. E, justo nesse momento, me deparo com A saga da glória eterna (piauí_220, janeiro), matéria emocionante e de escrita ímpar. Enfim, parabéns à revista e ao Sandro, que realizou o sonho dos leitores que se tornam escritores.

LUCCAS CARDOSO_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA FUTEBOLÍSTICA DA REDAÇÃO: Se o Sandro Aurélio publicar um terceiro diário, ganha o direito de pedir o hino do Botafogo no Foro de Teresina.

PARADOXOS

O cientista político Miguel Lago, em O enigma do voto (piauí_220, janeiro), revoluciona completamente as velhas fórmulas de análise do panorama político, que se tornaram completamente anacrônicas e não conseguem mais explicar o que ocorre no presente, não só em nosso país como no mundo. A verdadeira revolução representada pelas comunicações instantâneas, muito bem exploradas pelas redes sociais, é a base das transformações ocorridas no cenário político. Aquela disputa tradicional direita/esquerda foi acrescida de nuances em virtude da própria complexidade provocada pela evolução da sociedade. A esquerda brasileira, comandada pelo Partido dos Trabalhadores, ainda não se deu conta disso, e assim conserva seus modelos antiquados de atuação paternalista, num populismo rasteiro que prevalece nos rincões, onde vivem os mais necessitados, dependentes das benesses governamentais. Enquanto nos centros urbanos, mais dinâmicos e com a população devidamente conectada, o povo exige melhores respostas às suas necessidades. A extrema direita foi mais ágil na percepção dessas mudanças, e, caso a esquerda não acorde a tempo, nossa democracia correrá enorme risco de colapso futuro. O centro é mera ilusão, sem a mínima condição de liderar qualquer processo de mudança.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

Quero parabenizar Miguel Lago pelo brilhante artigo O enigma do voto. Além do tema em si, ele abre visões amplas extraordinárias para diversas análises estratégicas. Recomendo à piauí provocar a sociedade civil organizada além e acima de governos.

JOSÉ LUIZ TEJON_SÃO PAULO/SP

Apesar de grandes ressalvas que tenho em relação ao que o Miguel Lago escreveu sobre liberais e marxistas partirem do mesmo postulado sobre o que significa o “político”, creio que seu texto publicado na edição de janeiro foi demasiadamente esclarecedor e didático (O enigma do voto). Seu argumento central a respeito do papel do voto e da representação política me lembrou uma discussão historiográfica recente sobre o papel das mulheres na Grécia Clássica. Comumente nos lembramos de que elas não possuíam direito ao voto, mas isso é suficiente para afirmar que estavam completamente excluídas do mundo cívico e da política?

Creio que esse texto poderia muito bem ser usado como introdução de um belo dossiê (nos moldes do que vem sendo feito com o SUS, na piauí), explorando cada um dos tópicos levantados. Seria uma boa forma de substituir as matérias em forma de diário que vêm aparecendo todo mês.

Aliás, escrevo esta carta findada a leitura da edição de dezembro, na mesma semana em que foi aprovado na cidade de São Paulo o fim do limite para barulhos em shows. É assombroso como o neoliberalismo convence nossos representantes de que o dinheiro vale mais que nossa saúde, nossos pulmões ou até nossos ouvidos.

MATHEUS COELHO_CAMPINAS/SP

NOTA MILITANTE DA REDAÇÃO: Elogiar o texto do Miguel Lago: correto. Mas precisa tripudiar sobre os diários, e deixar à deriva os fãs do Sandro Aurélio, por exemplo? O que vem depois? Pedir mais texto do Miguel Lago no lugar das respostas às cartas?

BARATA

Gostaria de expressar minha admiração e deslumbramento pela ilustração de Edson Ikê para o conto A barata, Macabéa e Lisette (piauí_220, janeiro).

O desenho me tocou profundamente (não sei se pela barata estar tão bem posicionada, pela amiga dela estar a ponto de beijá-la/sussurrar em seu ouvido/admirá-la/comê-la).

Sei que o desenho faz jus à grandiosidade e irreverência do conto da barata (tanto o da edição, quanto aquele em que se inspira).

Deixo aqui meus parabéns ao autor – como colecionador da piauí, essa página vai para um quadro na minha parede.

GABRIEL SABADIM_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA MERCANTILISTA DA REDAÇÃO: Já cogitou ganhar dinheiro dando palestras para a ABHFB, a Associação dos Bilhões de Humanos com Fobia de Barata?

OBRIGADO POR FUMAR

Novamente sem Papai Noel na capa, a piauí_219, dezembro, traz como presentes os lobbies de vícios. Começa com a matéria de Camille Lichotti (De fumaças e vapores), revelando a enorme decepção com a senadora Soraya Thronicke, depois de sua atuação rígida e necessária na cpi da Covid e de ter, como candidata à Presidência em 2022, enquadrado o “candidato padre” Kelmon. Representante lobista da indústria de tabaco, modificada para vape agora, Soraya mostra seu preço. E não é baixo, dadas as inúmeras viagens patrocinadas que realizou. O lob­by lembra o filme Obrigado por fumar, de 2005, dirigido por Jason Reitman, em que o lobista interpretado por Aaron Eckhart, defende o “direito de fumar” dos clientes da poderosa indústria tabagista. O tom é jocoso, mas real. Lá, o senador é o cara que quer proibir o fumo, ao contrário de nossa senadora lobista. Quanto ao citado artigo na Folha de S.Paulo, de 13 de abril de 2024, pensei que a estratégia tinha sido agregar somente ex-ministros da saúde no combate ao cigarro eletrônico, e não que a atual ministra Nísia Trindade tenha se recusado a subscrevê-lo. Uma importante revelação da Camille Lichotti, que, junto com os desejos inomináveis de aumento de arrecadação com a possível legalização do cigarro eletrônico, desperta temores também indizíveis. Por fim, tenho de registrar o incômodo com a presença de uma propaganda com a imagem do Angeli fumando ao final do artigo. Isso diz algo sobre a posição da revista?

A outra matéria na mesma toada lobista é a de Marcello Fragano Baird (De salgadinhos e refrigerantes, piauí_219, dezembro), em que, lamentavelmente, minha querida química está envolvida nesse mal. Conseguimos tolerar alimentos ultraprocessados e hipocritamente condenamos maconha medicinal. A lógica social está muito longe do que as ciências exatas atestam.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

FOTOGRAFIA

Como leitor fiel e assinante desta prestigiosa publicação, lamento afirmar que a piauí_219, dezembro, cometeu, no meu ponto de vista, um grave pecado jornalístico. Na sucinta, mas brilhante matéria de Flavio Pinheiro sobre o fotógrafo Evandro Teixeira (Libélulas subversivas), a revista deixou de exibir as fotos de pelo menos três flagrantes importantes: o das libélulas na ponta das baionetas, o do príncipe Charles e o do funeral de Pablo Neruda. Prejuízo para o leitor.

ANTÔNIO GOULART_PORTO ALEGRE/RS

GRAMPOS

A carta do leitor Gustavo, reclamando dos grampos da revista (Cartas, piauí_219, dezembro), obteve uma resposta capitalista da redação, que repetiu o argumento de Mao Tsé-Tung quando determinou que as túnicas dos chineses deveriam ter cinco botões. Ao mostrar o que representaria um botão a mais para cada pessoa, ninguém pôde contestar.

Isso reforçou sua fama de grande timoneiro.

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP

NOTA MAOISTA DA REDAÇÃO: Cada qual faz a revolução cultural que consegue.

DIARISTA

Mês passado, a Goreth, minha diarista, soltou essa (depois de me passar todo o boletim policial que incluía “foi morto com três tiros na calçada lá de casa” e “jogaram ele de cima da ponte”):

– O amor esfriou.

Minha personalidade, servil aos suspiros e desejos femininos, rapidamente se agarrou a essa tristeza e me transformou em um pregoeiro do amor, instilando uma doçura intensa no que eu falava e no que eu fazia.

Eu estava insuportável.

Até que, por desejo dos homens desta terra, o “Lula taxa o Pix”. E a tristeza deu lugar à confusão:

– Tu viu o que o doido do Lula fez?

Com lágrimas nos olhos, me vi interessado em política.

Desnorteado, porém nunca sem falta de sorte, leio a reportagem que traça o perfil de Nikolas Ferreira (A peça de reposição, piauí_217, outubro), nosso novo messias. Me identifiquei. Um garoto que matou a sede (própria dos garotos espertos) em águas confusas. A diferença: enquanto ele tomba pra direita, eu caí pra trás. Um garoto com um medo muito grande e que o alimenta diariamente para não ser ele mesmo engolido. E, quando ele for engolido, rogo para que esqueçamos da crueldade do nosso flagelo e lhe estendamos a mão.

Quem sabe o amor volte a esquentar.

UBIRACY DO AMARAL JUNIOR_MACAPÁ/AP

DEVER CUMPRIDO

Desde pequeno aprecio o trabalho dos jornalistas, mas nunca tive vontade de exercer essa profissão. A piauí reaquece tal apreço. Nos últimos momentos do ano passado, entendi meu corpo e me isolei no coração da Mata Atlântica fluminense: eu, a piauí_219, dezembro, e o livro Entre o mundo e eu (Ta-Nehisi Coates), que recomendo a todos – sobretudo a jovens pretos, como eu. Minha vontade de pulsar com a Mata Atlântica foi diminuindo a cada chuva que caía, por isso abandonei o camping antes do previsto e rumei para um outro tipo de isolamento na cidade de São Paulo.

No momento em que escrevo, estou embarcando para um novo momento comigo mesmo e com o mundo. A piauí_220, janeiro, o livro A dissociação (Nadia Yala Kisukidi) e eu estamos rumando para Curitiba.

Ao longo do lastro que estou construindo, entendi como canalizar meu apreço ao bom jornalismo, às boas histórias e à checagem de fatos: invisto o meu tempo, o ainda pouco recurso que tenho, e as tantas vontades em informação de qualidade.

Obrigado, piauí, por cumprir um papel civilizatório para a minha geração, que tanto foi agraciada por aquelas e aqueles que tombaram para que nós estivéssemos aqui!

JOÃO PEDRO CAVALCANTI DA SILVA_RIO DE JANEIRO/RJ


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