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Karine Dalla Valle Mar 2025 21h17
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Preocupada com a invisibilidade das mulheres no mundo literário, a escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh buscou novos meios de abrir as portas para a diversidade no mercado editorial. Em 2014, ela criou, no Twitter (atual X) a campanha #ReadWomen (#LeiaMulheres), incentivando os leitores a incluírem mais autoras em suas estantes.
O chamado de Walsh foi atendido no Brasil. Na época consultora da rede de livrarias Blooks, Juliana Gomes sugeriu que a unidade no Shopping Frei Caneca, em São Paulo (hoje fechada), tivesse um clube de leitura destinado a prestigiar somente obras escritas por mulheres. Chamou duas amigas para ajudá-la na missão: a jornalista Juliana Leuenroth e a coordenadora de marketing Michelle Henriques.
Batizada de Leia Mulheres, a iniciativa teve seu primeiro encontro em março de 2015. “Achamos que não iria ninguém, só aqueles a quem imploramos que fossem. Mas apareceram pessoas que não conhecíamos”, diz Leuenroth, de 40 anos. A primeira escritora contemplada foi a americana Sylvia Plath com A redoma de vidro (1963), um petardo da literatura de autoria feminina. “Ficou todo mundo em posição fetal”, recorda Leuenroth.
Motivada pela hashtag #ReadWomen e pela iniciativa paulista, Clarissa Xavier, de 47 anos, decidiu se mobilizar em Porto Alegre. Cinco meses após o surgimento do clube de São Paulo, o Leia Mulheres Porto Alegre fazia a sua primeira reunião na Casa de Cultura Mario Quintana. “Embora eu já me considerasse feminista naquela época, me dei conta de que, naquele ano, ainda não tinha lido nenhum livro de escritora mulher”, conta Xavier, que é consultora em inteligência artificial. “Era um questionamento que eu nunca tinha feito. Fiquei impressionada quando percebi que, na minha estante, menos de 10% das obras eram de mulheres.”
A notícia da criação em São Paulo do Leia Mulheres se espalhou. Mensagens de várias cidades foram enviadas às fundadoras querendo saber como replicar a ideia. Para que a onda de clubes de leitura de escritoras não virasse uma bagunça, as fundadoras julgaram conveniente estabelecer algumas regras, que servissem de conselhos às novas iniciativas.
Foi definido que cada cidade teria liberdade para escolher as leituras que fariam nos encontros, sempre gratuitos. Também foi estabelecido que as reuniões precisariam acontecer em locais de fácil acesso, preferencialmente em áreas centrais, e que o livro a ser debatido não poderia custar muito caro nem estar esgotado. Por fim, determinou-se que a mediação dos debates precisaria ser feita por uma mulher. “Pesquisas vão mostrar que as mulheres são o maior público leitor, mas, em eventos literários, quem media as mesas? São sempre os homens”, diz Leuenroth. “Então o Leia Mulheres só terá mediadora mulher e nós só vamos ler mulheres. Homens podem participar, e há cidades que têm uma participação superlegal de homens.” Aos 40 anos, ela é a única das três fundadoras que, dez anos depois, segue tocando os encontros em São Paulo, agora na Biblioteca Pivô, espaço cultural no Edifício Copan, no Centro da cidade. Para o encontro de 15 de março agendaram a leitura de As vira-latas, da chilena Arelis Uribe.
Antes da pandemia, Leuenroth conseguiu identificar em torno de 150 grupos espalhados em quase todos os estados brasileiros. Entre eles, Leia Mulheres Juazeiro (Bahia), Leia Mulheres Viçosa (Minas Gerais), Leia Mulheres Ananindeua (Pará), Leia Mulheres Realeza (Paraná), Leia Mulheres Blumenau (Santa Catarina)…
Em São Paulo e Porto Alegre, o público varia de encontro para encontro. Tanto em uma capital quanto em outra, há o núcleo duro, formado pelos participantes veteranos. E há os novatos que vão se juntando a cada edição. “Em Porto Alegre, a maioria são mulheres. Infelizmente, homens são poucos. E a maioria são mulheres brancas com ensino superior. Procuramos ler obras de escritoras negras, e é nesses momentos que surge alguém do movimento negro”, diz Xavier.
Em nome da liberdade de expressão, o Leia Mulheres Porto Alegre criou uma regra particular: nunca convidar a autora cujo livro será debatido. “Nosso grupo é muito aberto a críticas. Se o pessoal não gosta do livro, senta a lenha mesmo. Quero que isso se mantenha. Com a autora ali, não acho justo, não acho adequado”, diz a anfitriã. As reuniões do Leia Mulheres Porto Alegre agora acontecem na Livraria Baleia, no Centro da capital, geralmente no primeiro sábado de cada mês.
Como qualquer atividade mantida em locais públicos, o Leia Mulheres fica à mercê de imprevistos – e de saias justas. Em Porto Alegre, houve uma época em que um senhor marcava presença em todos os encontros sem nunca ter lido o livro. Apresentando-se como delegado aposentado, toda vez sugeria uma obra escrita por homem. Passados seis meses, deixou de aparecer.
Em setembro de 2016, no Centro Cultural São Paulo, uma das sedes temporárias do Leia Mulheres na capital paulista, uma senhora se juntou ao círculo de leitores pedindo a palavra. Ela queria aproveitar a reunião para elogiar a coragem da advogada Janaina Paschoal ao protocolar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, destituída do cargo havia menos de um mês. O encontro era destinado à leitura de O quinze, de Rachel de Queiroz, defensora do golpe militar de 1964. “Um livro maravilhoso, publicado em 1930, antes de Graciliano Ramos escrever Vidas secas, mas com essa questão obscura na trajetória da autora”, observa Leuenroth.
Houve reações dos participantes à fala da mulher, um início de discussão, mas as mediadoras conseguiram contornar a cilada, retomando a discussão sobre a obra-prima que Rachel de Queiroz escreveu aos 19 anos.