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VITÓRIA NAS QUADRAS

Uma jovem brasileira brilha no tênis de cadeira de rodas
Imagem Vitória nas quadras

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“Tem um vídeo que está circulando pela internet: eu plantando bananeira”, conta a tenista Vitória Miranda, de 17 anos. Embora só tenha viralizado agora, a gravação é de 2016, quando ela estava com 9 anos e nunca havia segurado uma raquete. Em janeiro passado, depois de duas vitórias no Australian Open Junior, Miranda confirmou seu pos­to como a número 1 do mundo na categoria juvenil do tênis em cadeira de rodas.

Ela nasceu prematura, com artrogripose múltipla congênita, uma doença rara que causa deformidades nas articulações de seus membros inferiores, cuja força é de apenas 10% do esperado em membros saudáveis. Quando foi filmada, Miranda usava órteses – dispositivos ortopédicos que ajudam a estabilizar os membros – e andava de muletas, o que reforçou seus braços, que têm hoje cerca de 32 cm de bíceps.

Foi a fisioterapeuta de Miranda na Associação Mineira de Reabilitação (AMR) que em 2016 encaminhou o vídeo, via Facebook, para vários profissionais que trabalham com esportes paralímpicos em Belo Horizonte. Entre eles, o treinador da Seleção Brasileira de tênis de cadeira de rodas, Leonardo Flávio de Oliveira – mais conhecido como Léo Butija –, que ficou impressionado com a menina que plantava bananeira.

Mas foi preciso a intervenção do acaso para que ela se aproximasse do tênis.

Filha do serralheiro Fábio Júnio Anatólio, de 39 anos, e da diarista Solange da Silva Dias, de 45, a tenista é a mais nova de cinco irmãos e cresceu no bairro de Granja de Freitas, na Zona Leste da capital mineira. O convite para treinar surgiu durante um passeio no Centro de Belo Horizonte em 2017, quando ela ainda estava com 9 anos. Miranda caminhava de órteses ao lado da mãe, quando as duas foram abordadas por uma estranha, que perguntou se a menina tinha interesse em praticar algum esporte. “Ela então ligou na hora para o Butija e foi dando minhas características”, lembra Miranda. A mulher era mãe de Rafael Medeiros, atleta do tênis em cadeira de rodas orientado por Butija.

Os treinos começaram pouco depois desse encontro. Miranda nunca havia pisado em uma quadra de tênis. “Eu não sabia nem que existia tênis. Muito menos em cadeira de rodas. Meu sonho era dançar balé”, conta. Na quadra, ela usou uma cadeira de rodas pela primeira vez. Não gostou muito do esporte, nem dos treinamentos. “Eu era muito novinha e chorava horrores. Queria passar o fim de semana na casa da minha avó brincando com os meus primos.” A mãe insistiu para que a filha continuasse a jogar. Não adiantou: Miranda acabou desistindo, não sem antes participar do seu primeiro torneio em 2018, aos 11 anos, o Uberlandia Wheelchair Tennis Open.

Ela só voltaria às quadras em 2021, por vontade própria. Estava com 14 anos e recomeçou devagar. Praticava todos os sábados, durante uma hora, no Butija Tennis, inaugurado em 2010 – o mesmo local onde treina até hoje, no bairro Estoril, a cinquenta minutos de carro de sua casa.

Em 2022, a tenista já estava tão engajada no tênis, que não conseguiu nem mesmo fazer sua festa de 15 anos. “Os convites estavam prontos quando o Butija me disse que precisaríamos cancelar a festa por causa de um campeonato. Era o sonho da minha mãe fazer a festa, porque sou a única menina entre seus filhos.” A decisão compensou: Miranda conquistou o primeiro lugar em equipes na Copa das Federações, em São Paulo.

No ano seguinte, quando foi vice-­campeã no mundial BNP Paribas World Team Cup, em Vilamoura, em Portugal, Miranda precisou ser internada às pressas. “Tive uma crise de ansiedade muito forte antes da competição.” Era a sua primeira viagem internacional, e ela não estava acompanhada por nenhum membro da família. Com o tempo, superou essas angústias. “Hoje em dia eu já me acostumei. O Léo é como se fosse um pai para mim.” Também em 2023, ela levou o ouro nos Jogos Parapan-Americanos de Jovens em Bogotá. No ano seguinte, foi vice-campeã de simples e duplas no US Open, em Nova York.

Com mais de vinte títulos conquistados, Miranda considera que sua maior façanha aconteceu no Australian Open Junior, em janeiro passado. No dia 23, ela venceu na chave de duplas, jogando ao lado da belga Luna Gryp. Dois dias depois, derrotou na disputa individual a americana Sabina Czauz por 2 sets a 1 e levou o ouro.

Na mesma competição em Melbourne, outro mineiro, Luiz Calixto, de 17 anos, também treinado por Léo Butija, arrebatou o título júnior das duplas masculinas, ao lado do americano Charlie Cooper. O treinador está ainda por trás do sucesso de Daniel Rodrigues, atual número 1 do Brasil no tênis em cadeira de rodas na categoria adulto, de Ana Cláudia Caldeira, representante do país nos Jogos Paralímpicos de Tóquio em 2021, e de Rafael Medeiros, que jogou em três paralimpíadas – Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020. “A única coisa que tenho orgulho de dizer é que comecei como gandula, juntando bolinha de tênis, aos 9 anos”, diz Butija.

Os planos de Miranda para este ano incluem Roland Garros, na França, o Mundial em Antália, na Turquia, o US Open e talvez Wimbledon. “Mas hoje meu objetivo maior é a Olimpíada de Los Angeles em 2028”, diz a tenista, que conta com sete patrocinadores. Ela agora tem participação importante no orçamento de sua família: “Minha mãe teve um AVC há um ano e precisou parar de trabalhar.”

A tenista treina de segunda a sábado, mesmo nos feriados. São três horas na movimentação com bola, uma hora de preparação física e pilates, além do estudo tático das adversárias e do acompanhamento psicológico. Com isso, tem sacrificado várias atividades habituais de jovens da sua idade. “É um luxo eu conseguir ir a um shopping num sábado”, diz. Miranda está no último ano do ensino médio, que cursa em uma escola estadual. Os professores são compreensivos com seus compromissos esportivos: “Quando eu chego de competição no domingo, por exemplo, eles dizem que eu não preciso ir na segunda-feira.”

Ela ainda está em dúvida se vai prestar o vestibular no final do ano. Quer seguir a carreira de tenista, mas também pensa em ser psicóloga esportiva. As hesitações da infância estão superadas: “Não tenho medo de lá na frente me arrepender das escolhas que eu fiz porque finalmente consegui tomar gosto pelo tênis.”


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Jornalista, é colaborador de textos e vídeos na piauí