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MUSA DOS PESCADOS

A jovem que conquistou as redes sociais empunhando um facão
Imagem Musa dos pescados

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“É pra frito ou pra cozido?”, pergunta Bianicy Oliveira em muitos dos vídeos que publica nas redes sociais. Depois que o freguês responde, ela põe a faca a trabalhar, cortando peixes dos mais variados tipos com golpes rápidos e precisos. O espetáculo tem lugar em uma peixaria em Barcarena, município da Região Metropolitana de Belém, a cerca de 40 km da capital. A peixeira de 22 anos conquistou seguidores – que chegam a cerca de 900 mil no Instagram, 800 mil no TikTok e 300 mil no YouTube – exibindo os truques do seu ofício.

Bia – como é conhecida nas redes – nasceu e cresceu em um povoado chamado Brejo das Flores, no município de Vitorino Freire, no Maranhão. Ela tinha 11 anos quando seu pai morreu, e a mãe carregou os seis filhos para o Pará, em busca de melhores oportunidades. “Ela teve a ideia de comprar esse pontinho para a gente começar a vender peixe”, conta Bia.

A mãe gerenciava o negócio, e os filhos trabalhavam na peixaria. A menina, com apenas 12 anos, ficou encarregada das compras em Belém, para onde ia com outros peixeiros. “Eu tinha aquela empolgação, por ser quase uma criança”, lembra. “Era doida para trabalhar, para ter o meu dinheiro, para ter as minhas coisas.” Bia estima que nessa época, depois de contratar o transporte de volta para Barcarena, carregava todo dia cerca de 300 kg de peixe.

Os mercados onde ela circulava eram dominados por homens. “Sendo mulher, a gente sofre, querendo ou não, aqueles assédios, que acabam até mesmo sendo um pouco abusivos”, diz ela. Fora do ambiente de trabalho, Bia e seus irmãos eram menosprezados por trabalharem com peixe. Ela chora quando se lembra desses momentos de sua infância: “As pessoas riam na escola. A gente sofria bullying. Elas passavam na rua e tampavam o nariz.”

A destreza com a faca foi desenvolvida um pouco mais tarde. Bia tinha 14 anos quando a mãe precisou se afastar da peixaria para dar à luz o sétimo filho. “Eu e meus irmãos só tirávamos as escamas ou cortávamos as nadadeiras e a cauda”, lembra. “Mas sempre víamos nossa mãe cortando, porque ela ficava com essa parte mais difícil.” Chamada a trabalhar na gerência, Bia foi aprendendo a cortar o peixe da forma adequada, de acordo com o pedido do comprador. “Tem clientes que gostam de estilo rodelinha, tem clientes que gostam de filé”, diz ela. Como regra geral, para cozidos e moquecas, postas maiores; para peixe frito, filé. Daí vem a pergunta: “É pra frito ou pra cozido?”

Por muitos anos, Bia era vista apenas no balcão da peixaria em Barcarena. No final de 2024, ela concluiu o curso técnico de logística no Instituto de Educação Permanente da Amazônia (Iepam), no qual foi instigada a apresentar um trabalho final que retratasse suas atividades. Optou por fazer um vídeo para a plataforma com que estava mais familiarizada, o TikTok.

O vídeo mostrava a cadeia de produção da peixaria, da compra da matéria-prima à venda ao consumidor. E lá estava a carismática musa do pescado, com seu longo cabelo negro e sorriso perfeito, eviscerando e cortando peixes com assombrosa eficiência. A moça caiu nas graças do público. “Eu tomei um susto, porque foram várias notificações no Tik­Tok, e eu sem saber o que estava acontecendo. Quando me dei conta, o vídeo tinha viralizado”, recorda Bia.

Com a repercussão, de início a “Menina do Peixe” – como ela passou a ser também chamada nas redes sociais – temia que os comentários carregassem as chacotas que ouvia na escola. Foi o contrário: as reações positivas ajudaram Bia a superar as dores da adolescência. “Ver as pessoas olhando para esse vídeo, admiradas, elogiando e realçando a minha força, foi um grande passo para eu vencer esse obstáculo”, diz. Ela logo percebeu que havia interesse por mais vídeos: “As pessoas pediam para eu compartilhar mais. E eu fui mostrando o que o público quer ver: aquele dia a dia sem filtro, da mesma forma que eu comecei.”

Dourada, piramutaba, tambaqui, tilápia, pescadinha-gó, pescadinha e mapará, peixes típicos do Pará, são os mais vendidos na banca de Bia. Cada um deles exige um tratamento diferente. Os vídeos mais populares funcionam como tutoriais para quem deseja aprender a cortar postas e filés por conta própria.

Na entrevista à piauí, ela deu o exemplo de dois peixes que devem ser tratados de forma distinta: “A diferença entre uma dourada e uma piramutaba é a consistência da carne. A dourada é um peixe mais massudo, tem mais carne e é mais macia. Já a piramutaba tem consistência mais durinha, a carne dela é mais dura. Ou seja, na piramutaba eu posso utilizar um pouco mais de brutalidade. A dourada, eu já tenho que ter um facão bem afiado e bastante cuidado, porque ela é mais macia.”

Na limpeza do peixe – o processo de tirar vísceras, escamas e outras partes não comestíveis –, o tamanho importa: de acordo com Bia, quanto menor o bicho, mais complicada será sua limpeza, até porque aqueles que são muito pequenos precisam ser preparados em grande quantidade para saciar uma família. Bia cita o caso do acari: “É um peixinho parecido com a tilápia, porém bem pequenininho. Ele é trabalhoso. Um quilo dá diversos peixinhos.”

O sucesso nas redes não mudou a rotina de Bianicy Oliveira. Ela continua a fazer as compras para a peixaria em Belém – atividade em que se reveza com um de seus irmãos. As vendas para os comerciantes se dão entre meia-noite e seis da manhã na Pedra do Peixe, tradicional área de pescados no Mercado Ver-­o-Peso, na capital paraense. A viagem de carro de ida e volta a Barcarena leva cerca de 90 minutos, incluindo um trajeto de balsa. Em torno das 7h, ela já está abrindo o comércio da família, onde trabalha sem pausa até as 14h ou 15h. Não é bem assim que se costuma imaginar a vida de uma influencer.


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É estagiária de jornalismo na piauí