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Mateus Campos, de Sevilha Abr 2025 18h52
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Como os assentos na Capela da Divina Pastora das Almas e Santa Marina, em Sevilha, estavam escasseando, a organização da missa começou a distribuir cadeiras dobráveis de metal para quem chegava. Faltava meia hora para o início da cerimônia, mas o pequeno templo do século XVIII já estava quase lotado. Não só de seres humanos, como também de inúmeros bichos.
Era 17 de janeiro, Dia de Santo Antão Abade, padroeiro dos animais, data em que a Irmandade da Divina Pastora das Almas faz a missa anual de benção dos bichos de estimação. Dois pássaros foram levados nas gaiolas para serem aspergidos, mas a maioria dos que seriam abençoados naquele início de noite de inverno eram os cães.
As raças de pequeno porte – dachshunds, shih-tzus, malteses e vira-latas – entraram primeiro na igreja, ocupando os bancos da frente, sem grande alarde. O clima mudou quando os cachorros grandes – que esperavam na calçada – foram levados por seus tutores para o fundo da capela. A chegada de pastores e labradores amedrontou os pequeninos, que passaram a latir em coro. Houve pelo menos uma rusga: um salsicha imprudente testou a paz de um border collie, que gentilmente mostrou quem mandava, submetendo o nanico sem machucá-lo. Os tutores demoraram a controlar os ânimos dos bichos – e a missa começou com atraso.
A organização estimou em setenta o número de pets na capela. Os humanos formavam um grupo heterogêneo – idosos, crianças, jovens casais – de cerca de cem indivíduos, a maioria com celular na mão para registrar aquela cerimônia singular. Muitos estavam pela primeira vez no templo, que venera uma estátua em tamanho real de Santo Antão Abade.
Nas 125 igrejas de Sevilha, há algumas que aceitam abençoar animais, mas do lado de fora. A irmandade, que administra a Capela da Divina Pastora das Almas e Santa Marina, orgulha-se de ser a única da cidade a convidar os bichos a entrar no local com seus tutores – e não apenas no Dia de Santo Antão Abade. Ali, eles são admitidos sempre, em todas as missas e cerimônias. Tradicionalmente, também no Vaticano, os religiosos abençoam vacas, cabras, galinhas, coelhos, patos e outros bichos, nas proximidades da Praça de São Pedro, no dia 17 de janeiro.
O padre oficiante da missa em Sevilha, Juan Antonio Carrera Páramo, começou o sermão explicando que os bichos ocupam um lugar importante na teologia cristã. No Gênesis, os animais terrestres são criados no sexto dia, um pouco antes de Adão. Às vezes, o padre tinha de levantar a voz para a homilia ser ouvida acima dos latidos.
Ele lembrou o milagre atribuído a Santo Antão Abade, egípcio do século iv que abandonou suas riquezas para viver no deserto como eremita. Conta a tradição católica que uma fêmea de javali se aproximou dele trazendo filhotes cegos. Antão restituiu a visão da ninhada, e os animais passaram a segui-lo.
O momento mais importante da missa, a comunhão, foi também o mais incomum. Muitos fiéis entraram na fila para receber a hóstia sagrada acompanhados de seus cachorros, pois não podiam deixá-los sozinhos nos bancos. No chão, presos pela guia, ou no colo dos fiéis, eles se encaravam com interesse, enquanto os tutores seguiam em silêncio para perto do altar. Os cães que passaram por algum tipo de adestramento talvez tenham entendido a espera naquela longa fila como um exercício de disciplina para os humanos, ao fim do qual estes seriam recompensados com um petisco. A eucaristia, como os demais mistérios da fé, é inalcançável para a inteligência canina.
Encerrada a missa, Carrera Páramo passou ao ritual mais esperado do dia. Com um aspersório de prata, jogou água benta sobre os animais que ocupavam os bancos da frente. Alguns tutores levantavam seus bichos acima da cabeça, entre os celulares e câmeras também erguidos para filmar a benção. Em seguida, o sacerdote foi para os fundos da capela, onde as duas aves receberam prioridade sobre os cães grandes. Ele ainda ficou alguns minutos na porta de entrada, para abençoar os bichos das pessoas que não encontraram lugar no pequeno templo.
O 17 de janeiro é o dia mais movimentado do calendário litúrgico da capela, segundo Francisco Javier Segura, membro da Irmandade da Divina Pastora das Almas. “Há vinte anos, realizamos de forma contínua a benção no Dia de Santo Antão. Nossa irmandade é uma das poucas que têm uma imagem da Virgem rodeada por animais”, diz ele. Os animais, no caso, são os cordeiros que cercam a Pastora das Almas – uma das invocações ou títulos da Virgem Maria –, na peça barroca instalada no altar.
Licenciado em história da arte pela Universidade de Sevilha, Segura foi quem tocou o teclado durante a missa. Ele atua como tesoureiro e administrador da irmandade, cujo nome completo merece ser transcrito por sua dramaticidade hispânica: Primitiva, Real, Ilustre, Venerable, Franciscana y Fervorosa Hermandad del Rebaño de la Divina Pastora de las Almas María Santísima, Emperatriz de los Cielos y de la Tierra y Santa Marina.
A benção dos animais vem atraindo um público maior desde que a Irmandade da Divina Pastora das Almas passou a contatar a imprensa local, que nos dias seguintes publica fotos dos bichos mais simpáticos. Portando um broche que lembra o perfil de sua bichon frisé, a aposentada sevilhana Micaela Tramontano permaneceu depois do fim da missa para tirar uma fotografia com Blanquita junto ao altar. Frequentadora das animadas missas de Santo Antão, a aposentada se encantou com o milagre da multiplicação dos animais. “Há três anos, não havia quase ninguém aqui. Agora, olhe como está. É fantástico”, disse.