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Francesca Angiolillo Jun 2025 08h11
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Com um ligeiro atraso, a crítica literária Rita Palmeira abriu os trabalhos da primeira edição do Festival Poesia no Centro. “A poesia é tão diversa que é impossível não gostar dela”, disse, em sua apresentação do evento, arrancando sorrisos da plateia reunida no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Ao seu lado estavam as editoras Fernanda Diamant e Irene de Hollanda, sócias da Megafauna, livraria que funciona no Centro da capital paulista e organizou o festival. Palmeira, que é curadora da Megafauna, fez a coordenação de curadoria do evento.
Havia uma forte expectativa por parte do público com o primeiro encontro, naquele fim de tarde de 16 de maio, sexta-feira. O festival levaria ao palco, para uma entrevista ao vivo, um dos principais poetas do país: o mineiro Francisco Alvim, remanescente da Poesia Marginal, movimento dos anos 1970 que também revelou Cacaso e Chacal, entre outros. Aos 86 anos, aposentado da carreira diplomática e morando em Brasília, Alvim já não é uma figura tão frequente em eventos literários, o que explicava a animação na plateia.
A audiência era um misto de jovens com jeito de universitários e de não tão jovens com ar de professores. Bem no centro da plateia, estava o crítico literário Roberto Schwarz, amigo de juventude de Alvim e autor de ensaios importantes sobre ele. A seu lado, sentava-se a mulher do homenageado, a pesquisadora Clara de Andrade Alvim. Dois poetas foram incumbidos da entrevista: Heitor Ferraz Mello, de 60 anos, e Alice Sant’Anna, de 37. Antes de chamarem o convidado, eles leram poemas próprios.
Quase meia hora depois do início do festival, Alvim finalmente entrou em cena, acenando, sorridente, com ambas as mãos. Arrastava um pouco os pés. Como bom diplomata, obedeceu à risca o protocolo do evento, que mandava começar por uma autodescrição. Como bom poeta, saiu do registro esperado.
“Então é o seguinte”, disse. “Um homem branco. Meu nome é Francisco Alvim, vestido de uma calça jeans, uma camisa marrom quadriculada…” Espocaram gargalhadas. A camisa, na verdade, era verde. Momentos antes, Ferraz Mello também se confundira, ao dizer que sua camisa era “sei lá, verde” – quando era flagrantemente cinza.
Alvim seguiu adiante, agora se atendo ao sapato e às meias: “Um sapato que eu gosto muito, mas que já está muito usado. Resolvi vir com ele porque ele é muito bom, um sapato de couro argentino, mocassim. Meias discretas.” E continuou: “Muito trêmulo já, 86 anos, um passinho meio descompassado e com uma enfermidade curiosa, que não é Parkinson, e tem um nome muito interessante. Chama-se tremor essencial. Eu tremo muito com as mãos, por isso pedi até, e agradeço à produção, essa mesinha.”
Não é seu único tremor, explicou o poeta. Na verdade, é o terceiro: “O primeiro é o tremor existencial. Nasci com ele. O segundo é o da minha profissão [de diplomata]: reverencial. Sou muito respeitoso do próximo, e às vezes de mim mesmo. Então é isso. Fica aí a apresentação.”
Os dois entrevistadores complementaram essa síntese jocosa com alguns dados biográficos e avaliações da crítica sobre Alvim. Sentado à mesinha, com uma projeção de textos num telão acima de sua cabeça (outro pedido seu à organização), ele deu início à leitura de seus poemas.
Como introdução à leitura, Alvim rememorou os acontecimentos de 1968, “um ano convulso”. Falou da mudança do Rio de Janeiro para Paris, onde assumiu seu primeiro posto diplomático sob “uma atmosfera e um tempo alucinante”. Foi na França que escreveu Passatempo, seu segundo livro, lançado em 1974, de onde extraiu os versos de Revolução, primeiro poema que apresentou ao público:
Antes da revolução eu era professor
Com ela veio a demissão da
[Universidade
Passei a cobrar posições, de mim
[e dos outros
(meus pais eram marxistas)
Melhorei nisso –
hoje já não me maltrato
nem a ninguém.
Como numa miniantologia pessoal, ele repassou em dez minutos sua trajetória literária, encerrando com dois poemas de corte lírico, aspecto menos frequente na obra de Alvim, que ficou mais associado à alcunha que lhe foi dada por Cacaso, a de “poeta dos outros”.
A entrevista seguiu um roteiro solto, aberto ao improviso. Provocado a falar sobre sua participação na antologia coletiva 26 poetas hoje – que em 1976 consagrou a geração da Poesia Marginal –, ele preferiu fazer um longo elogio à organizadora do livro, Heloísa Teixeira (então Heloísa Buarque de Hollanda), amiga da vida toda, que morreu em março passado. “Sinto a ausência dela como uma presença”, disse.
Em seguida, o poeta arrancou risos da plateia com boutades e definições lapidares: “Na prosa, o prosador tem mais recursos para encobrir, disfarçar. Mas na poesia o ruim aparece logo. O ruim é danado.” Em outro tom, respondendo sobre como se articulam os diferentes registros de sua poesia, o humoroso e o lírico, lançou-se num longo devaneio sobre as cisões que vêm desde a infância: de um lado, puras sensações, como a do mar do Leblon que conheceu aos 2 anos; de outro, “uma sensação de perigo permanente” que o acompanha a vida toda.
Francisco Alvim nasceu em Araxá em 1938, irmão caçula de duas poetas. Doze anos mais velha, Maria Ângela (falecida em 1959) foi quem o estimulou a escrever. Maria Lúcia fez uma aclamada reestreia literária em 2020, depois de quatro décadas sem publicar, com Batendo pasto, que lhe rendeu um Prêmio Jabuti póstumo (ela morreu de Covid em 2021, aos 87 anos).
Alvim manteve maior constância no ofício poético, levado em paralelo à vida de diplomata. As duas carreiras se inauguram quase ao mesmo tempo. Sua estreia, Sol dos cegos, é de 1968, mesmo ano em que foi enviado para Paris, como ele contou.
Dali por diante, sua escrita se alimentaria de fragmentos de diálogos ouvidos no abrir e fechar de portas de elevadores palacianos e em outros contextos banais. Seus poemas, brevíssimos (muitos têm só duas ou três linhas, contando o título, que frequentemente funciona como primeiro verso), comentam o cotidiano com um acento na ironia e um tanto de crítica. Nessas poucas palavras, cabe “o essencial de sua posição”, como definiu Schwarz. Concisos, os poemas de Alvim abrem novas compreensões do mundo. Quer ver?/escuta, diz um deles, não à toa escolhido como título da mesa de abertura do Festival Poesia no Centro.
O evento reuniu, ao longo de três dias, uma boa amostra dos principais poetas brasileiros. Também levou bardos estrangeiros a São Paulo: o irlandês Stephen Sexton, a argentina Roberta Iannamico, a alemã Uljana Wolf, a portuguesa Patrícia Lino e a americana Tracy K. Smith, Prêmio Pulitzer de poesia em 2012 por Vida em Marte (a piauí_216, setembro de 2024, publicou alguns poemas de outro livro da autora, Uma fome tão afiada).
No balanço geral, o festival se desenrolou de fato sob a bênção de Francisco Alvim: o que amarrou a variada programação foi o fio de liberdade que começou a ser tecido pela geração dele.
Prova dessa desenvoltura foi a agitação que tomou conta daquele trecho da Nestor Pestana, a discreta rua em L onde fica o Teatro Cultura Artística. Nos intervalos entre as conversas no palco, o público podia seguir ouvindo poemas em um bar escancarado para a rua. Era um braço paralelo do festival, o Megafone, organizado pela poeta Bruna Beber.
Foi ali que, lá pelas 16h30 do domingo, dia 18 de maio, Alvim se despediu do festival. O poeta fez seus leitores tremerem de satisfação, ao soltar, destemido, a voz no bar, amplificada pela caixa de som na calçada: “Quanto aos versos, também poderia ser dito que às vezes são como se fossem feridinhas que resultam dos cortes com os cristais das expressões feitas.”