esquina
Thallys Braga Jul 2025 13h29
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Em uma noite no início de maio, o escritor João Silvério Trevisan foi ao cinema assistir a Homem com H, a cinebiografia de Ney Matogrosso. No final da sessão, os espectadores, comovidos, se levantaram para aplaudir o filme. É improvável, no entanto, que alguém tenha deixado o cinema mais mexido que Trevisan. “Foi muito profunda a empatia que eu senti”, recordou, na sala de seu apartamento no bairro República, em São Paulo. “O Ney fez uma coisa de louco. Imagina, aparecer desmunhecando no meio da ditadura! Ele anarquizou tudo que o oprimia. Eu não fui capaz de lutar desse jeito. Enfrentei de cara dura, como um Dom Quixote, mas sofri pra caralho.”
Quando os Secos & Molhados ficaram conhecidos no Brasil, em 1973, Trevisan partiu para um exílio voluntário nos Estados Unidos. Não viu condições de permanecer em São Paulo depois que os militares censuraram Orgia ou o homem que deu cria, o único longa-metragem que dirigiu. Morou em Berkeley, o centro da contracultura na Califórnia, onde descobriu que “não poderia ser homossexual sem ser subversivo”. Ao retornar para casa, três anos depois, trocou o cinema pela literatura. Ele costuma ser lembrado por Devassos no paraíso, o livro mais completo sobre a história da homossexualidade no Brasil, e pela criação do primeiro jornal queer do país, o Lampião da esquina.
Há uma década, Trevisan se desafiou a narrar a própria vida em uma trilogia de livros. O primeiro volume foi Pai, pai. Nele, Trevisan escreve sobre seu pai, um homem alcoolista e violento. O segundo, Meu irmão, eu mesmo, fala de sua relação com o irmão mais novo, que morreu de câncer. Ele está trabalhando agora no último volume, Antropofágico amor, em que pretende contar os anos da juventude que dedicou à militância política e a uma paixão que nunca foi capaz de superar. “Como pudemos ser tão livres em um período tão brabo da história?”, ele se perguntou, olhando para o teto e pensando no próprio passado, mas também no de Ney Matogrosso.
A mesa do escritório em que Trevisan trabalha corresponde ao velho estereótipo do caos criativo: há uma papelada, livros e fragmentos de jornais espalhados numa desordem que só o escritor entende. Um pacote com diários que ele começou a escrever durante o exílio na Califórnia tem recebido atenção especial nos últimos meses. “Eu já escrevi mais de trezentas páginas do novo romance, mas tive que parar e retornar aos diários da minha juventude. Estou tentando elaborar o coração do livro, que é a história da ruptura.”
Assim que retornou ao Brasil em 1976, Trevisan foi passar um tempo em Salvador. Vivia tendo embates com intelectuais da esquerda baiana que, segundo ele, eram avessos às “políticas menores” (o que hoje é chamado de “políticas identitárias”): feminismo, combate ao racismo, direitos queer. “Para aqueles caras, só a luta de classes importava. Achavam que homossexualidade era vício burguês.”
Certa noite, ele entrou numa briga com um figurão da esquerda ortodoxa em uma festa. Quase todos os convidados ficaram contra Trevisan, exceto um barbudo que fez coro aos seus argumentos. “Eu fiquei absolutamente apaixonado. Uma pessoa com a mesma linguagem que eu! Com quem eu poderia dialogar. Dialogar!” Os dois fizeram sexo no banheiro da festa. “Foi uma transa pavorosa, mas consagrou o nosso amor.”
Trevisan e o barbudo foram morar juntos em São Paulo. Em 1978, criaram o Somos, primeiro grupo político LGBT do Brasil. A vida parecia caminhar para um lugar melhor. Mas o Somos rachou: de um lado, ficaram aqueles que defendiam a integração ao Partido dos Trabalhadores. Era a posição do namorado de Trevisan. Do outro, os que consideravam inegociável a autonomia do movimento. Era a convicção de Trevisan.
O namoro não se sustentou. O barbudo conheceu outro homem e se mudou para o Canadá. Trevisan ficou em São Paulo, tentando compreender o significado do fim daquele amor. Buscou o conselho de um padre com quem teve aula no seminário de Aparecida, quando criança. “Das pessoas que conheci, ele era o que mais se aproximava de um santo. Falei do que tinha acontecido, do amor, da ruptura, e ele me disse: ‘João, você acaba de descobrir o mistério.’ Ele não se referia ao mistério espiritual, mas ao mistério da vida.”
A conversa com o padre deixou Trevisan “perturbado”, mas surtiu efeito criativo. Ele se mudou para Recife e preparou um novo romance, Em nome do desejo. Pelos próximos cinquenta anos, foi um escritor ativíssimo. Recebeu três vezes o Prêmio Jabuti. Mas nunca conseguiu deixar de refletir sobre as alegrias e dores da década de 1970. Era nisso que pensava no último dia 23 de junho, data do seu aniversário de 81 anos.
Sentado num sofá laranja, com as mãos apoiadas no colo, Trevisan lamentou o pouco retorno financeiro que a literatura oferece. Ele dá oficinas literárias e palestras, pois o dinheiro da venda dos livros é pífio. “Nunca fui premiado com um prêmio decente, que me permitisse sobreviver e escrever a minha obra. O Prêmio Jabuti dado ao meu romance Ana em Veneza me rendeu 350 reais. Se me chamam para participar de uma mesa com um jovem homossexual e uma jovem trans, eu recebo a mesma proposta financeira que eles. E ai de mim se fizer qualquer reivindicação. Cancelam o convite.”
Ele se alegra pelo interesse das novas gerações em seu Devassos no paraíso. Quando a primeira edição foi publicada, em 1986, a academia não viu rigor histórico na obra. “Antes, a fronteira era mais demarcada entre o saber produzido na universidade e o produzido por movimentos sociais, jornalistas, ou por pessoas que viveram certas experiências. O João é um pouco de tudo isso”, diz Renan Quinalha, pesquisador do movimento LGBTQIA+ e professor de direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Os acadêmicos de hoje reconhecem o valor dele.”
O escritor Caetano Romão, 28 anos, publicou em maio Escrevo seu nome no arroz, seu primeiro romance, e convidou Trevisan para o lançamento em São Paulo. “Eu penso bastante no meu envelhecimento como sujeito gay”, diz Romão. “Nós temos poucos referenciais de homossexuais que envelheceram. Muitos ficaram no armário, outros morreram na epidemia de Aids. Quando eu olho o João, vejo um grande escritor, mas vejo também a chance de envelhecer de maneira bela e elegante.”