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Luiz Antônio Araujo Jul 2025 14h33
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Em silêncio, Felipe Kannenberg contempla um dos cenários do filme que está produzindo: a igreja quase bicentenária da comunidade luterana de Hamburgo Velho, bairro da cidade gaúcha de Novo Hamburgo. Ali, tudo lhe é familiar, dos vitrais e cânticos aos rostos de parentes e amigos que frequentam o templo (e que o chamam de Fipi). Filho e neto de pastores, ele se acostumou à atmosfera da igreja como um prolongamento de seu universo íntimo.
Depois de trabalhar em 41 filmes como ator e em dois como codiretor, Kannenberg decidiu filmar a história de seu avô, o pastor Wilhelm Pommer (1905-1987), que foi ligado ao Partido Nazista no Brasil. Orçado em cerca de 7 milhões de reais, o filme está em fase de pré-produção e chama-se, por enquanto, Mein Opa – o prisioneiro nº 24 da cela 6 (mein Opa pode ser traduzido como “meu vovô”).
Pastor ordenado da comunidade de Hamburgo Velho, Pommer foi preso no dia 16 de dezembro de 1941 com outros catorze membros da igreja – os chamados Quinze de Novo Hamburgo. Kannenberg nasceu na mesma data, há 52 anos. Não é a única coincidência. “Minha mãe falava que isto aqui é herança do meu avô”, ele diz, emoldurando os olhos azuis com as mãos.
A prisão de Wilhelm Pommer foi determinada pelo Tribunal de Segurança Nacional. O órgão, criado pelo presidente Getúlio Vargas, julgou mais de 10 mil pessoas acusadas de atentar contra a ordem e a integridade do Estado brasileiro entre 1936 e 1945. Durante o Estado Novo, muitos dos réus eram comunistas, integralistas e nazistas.
No Domingo de Páscoa de 1941, um policial da Delegacia da Ordem Política e Social (Dops) de Porto Alegre chegou à igreja de Hamburgo Velho para apurar a denúncia de que as prédicas no local eram feitas em alemão. A ditadura varguista proibira o uso público de idiomas que não o português.
Na igreja, o policial testemunhou a leitura de trechos da Bíblia em alemão por Pommer. Ao fim da cerimônia, convidou o pastor a acompanhá-lo até Porto Alegre para interrogatório. Pommer dispôs-se a viajar, mas pediu algumas horas para que pudesse oficiar um funeral. O policial assentiu e o acompanhou ao velório.
O morto, assim como o pastor, era um notório integrante do Partido Nazista – que tivera existência legal no Brasil até 1937. Foi velado com o caixão coberto pela bandeira alemã com a suástica e guarda de honra parcialmente uniformizada com camisas brancas e calças e gravatas pretas. A cerimônia com honras militares justificava-se por sua condição de veterano do Exército Imperial Alemão na África. O policial notou que, em uma parede do local onde se fazia o velório, havia um retrato de Adolf Hitler.
Pommer foi um dos Quinze de Novo Hamburgo recolhidos à Colônia Penal Agrícola General Daltro Filho, em Charqueadas, acusados de atividade política vedada a estrangeiros. Oito foram condenados a dois meses de cárcere e pagamento de 5 contos de réis de multa. Os demais, absolvidos ao final de longas temporadas atrás das grades – no caso de Pommer, 21 meses.
No culto do dia 13 de julho passado, domingo, gratidão foi o tema da prédica do pastor William Felipe Zacarias na igreja de Hamburgo Velho. “A gratidão”, disse o pastor, “está ligada à memória, enquanto o ressentimento está ligado àquilo que queremos esquecer.”
Kannenberg garante que os nazistas de Hamburgo Velho não receberão um olhar benevolente em seu filme. Admite que Pommer era preconceituoso e racista, mas lembra que ele não discriminava ninguém no trabalho pastoral e foi responsável pelo ingresso dos primeiros negros em escolas religiosas do Rio Grande do Sul. “Até hoje, isso é intrigante para mim”, diz.
Criado no protestantismo, o diretor hoje se define como budista. O que diria seu avô dessa guinada? “Nunca tinha pensado nisso”, diz Kannenberg. “Pommer sempre primou pela atenção à educação e às questões sociais, pensando na união ecumênica pelo desenvolvimento humano. É parecido com o budismo que adotei.”
Quando o culto terminou, a igreja começou a se esvaziar. Uma idosa caminhava entre os bancos e aproximou-se de Kannenberg. Era Gudrun Hübner, 92 anos, filha mais velha de Pommer e tia materna do diretor.
Com vivacidade, ela descreveu as viagens de barco que fez na infância pelo Rio Jacuí para visitar o pai na prisão de Charqueadas. “Meu pai dizia que a prisão valeu para ele como uma faculdade”, contou Hübner. Ela recordou que o pastor, comunicativo por natureza, não se limitava a interagir com os presos de origem alemã, mas travou contato com apenados comuns, de quem recebeu apoio quando, vítima de uma infecção, foi internado por dois meses na enfermaria da colônia.
Kannenberg vai abordar a história do avô pelo prisma da ficção. Ele acredita que, assim, terá mais liberdade para tratar de um assunto sensível, sem ferir a memória de sua família – ou a sua própria. Para o papel inspirado em Elisabetha, a mulher de Pommer, o diretor convidou a atriz Camila Morgado. Se uma eventual coprodução alemã-brasileira não determinar que um ator alemão faça o papel de Pommer, o próprio Kannenberg pretende encarnar o seu avô nazista.