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Pedro Tavares Set 2025 15h50
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A delegação brasileira que no final de novembro de 2023 desembarcou em Dubai para a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP28) contava com empresários, ativistas, acadêmicos e representantes dos três poderes, em um total de 1 337 integrantes. Entre eles, estava a única criança brasileira a participar da conferência: a paraibana Maria Vitória Brilhante de Oliveira, conhecida como Mavi, então com 10 anos de vida e apenas cinco meses de ativismo ambiental.
Depois de vinte horas de viagem, acompanhada do pai, a menina passou por um momento de aflição logo na chegada: ninguém sabia onde estava sua credencial. A confusão foi desfeita por uma funcionária da COP.
Nas duas semanas seguintes, devidamente credenciada, a pequena ativista deu entrevistas, gravou reels para o seu Instagram e participou de um painel sobre educação ambiental, no qual falou sobre o projeto Meu Futuro Minha Voz, que ela desenvolve junto com o Instituto Limpa Brasil, uma ONG de São Paulo que combate o descarte inadequado de resíduos e promove o consumo consciente.
Foi esse instituto que indicou Mavi como participante da COP. Embora tenha feito parte da delegação oficial do Brasil, a menina viajou para os Emirados Árabes Unidos com as despesas pagas pela família e a ajuda de patrocínios de empresas privadas e do Limpa Brasil –não pelo governo.
“O que eu mais gostei na COP foi conhecer outras crianças que também gostam de cuidar do meio ambiente”, disse Mavi à piauí, em entrevista por videochamada, em 14 de agosto – por coincidência, reconhecido informalmente como o dia nacional de combate à poluição. Naquela mesma semana, Mavi havia feito o discurso inaugural da 6ª Conferência Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, no Tribunal de Contas do Estado da Paraíba. Hoje com 12 anos, ela se prepara para ir à cop30, que acontecerá em novembro em Belém.
Nos seus dois anos de ativismo, Mavi foi convidada para vários eventos nacionais e internacionais. No ano passado, esteve na Conferência das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (COP16), em Riad, na Arábia Saudita. Neste ano, participou da Conferência sobre Mudanças Climáticas de Bonn (SB62), na Alemanha, que ocorreu em junho, e do Programa Global de Treinamento para Jovens sobre o Clima 2025, um curso online oferecido pela Universidade de Oxford para jovens interessados nas causas ambientais. “Era tipo um treinamento para a COP, falando das mudanças climáticas. Gostei muito de aprender sobre o financiamento climático, que é um dos temas principais”, diz.
Extrovertida, Mavi fala muito rápido e com muita empolgação sobre sua atuação nesses fóruns. Em vários de seus compromissos, é a única não adulta da sala. Ela gostaria de ver mais gente de sua idade. Com orgulho, conta sobre a provocação que fez aos participantes de um painel na COP da desertificação: “Vocês falam tanto em trazer crianças para o debate, mas por que chega aqui e não tem nenhuma criança?” As maiores inspirações de Mavi são a ativista sueca Greta Thunberg e a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
Filha única de Rafael de Oliveira, de 56 anos, funcionário público, e de Geysa Brilhante, de 40 anos, que trabalha como enfermeira em um hospital público de João Pessoa, Mavi não teve exemplos diretos de ativismo na família. Foi quase por acaso que ela descobriu o ambientalismo, quando passou uma temporada em São Paulo, acompanhada pela mãe, para fazer um curso de teatro.
Era um domingo de junho de 2023. Mavi e Brilhante andavam pela Avenida Paulista, fechada para os carros nesse dia, quando cruzaram com um mutirão do Instituto Limpa Brasil. “Por que eles estão limpando a rua se não são garis?”, Mavi perguntou à mãe. Desinibida, a garota foi conversar com os ativistas. “Quando viram que se tratava de uma criança de 10 anos, eles se apaixonaram e a convidaram para fazer parte dos projetos”, conta Brilhante.
A menina logo se engajou nas ações do instituto. Dias depois do encontro em São Paulo, estava em Recife para outro mutirão. Seus vídeos no Instagram chamando para as atividades do Limpa Brasil superavam as visualizações dos veteranos da causa. “Ela virou a mascotinha deles”, conta a mãe.
No mesmo ano, Mavi convocou, pelas redes sociais, os moradores de João Pessoa a participar do Dia Mundial da Limpeza, em 20 de setembro. “Nunca mobilizaram tanta gente. Foram oitocentas pessoas tirando lixo da praia”, lembra a mãe coruja. Neste mês de setembro, Mavi participará do Dia da Limpeza em Belém. “Teremos ações nas escolas e um mutirão de limpeza de uma praça”, ela explica. Será uma espécie de esquenta para a cop na capital paraense.
Geysa Brilhante acompanha a intensa agenda da filha “com um misto de orgulho e preocupação”. Mavi sempre foi “muito desenvolta”, conta a mãe, e antes de se tornar ativista já havia participado de campanhas publicitárias e tinha rede social. Como militante de causas ambientais, seu alcance se ampliou muito. A garota tem 45 mil seguidores no Instagram, que é monitorado diariamente por Brilhante.
Aluna do sétimo ano do ensino fundamental (sua matéria preferida é história), Mavi estuda em uma escola bilíngue. Sua desenvoltura na língua inglesa tem ajudado em suas incursões por eventos em outros países.
Em junho, por exemplo, ela viajou para a Inglaterra, onde participou do London Climate Action Week, um festival que discute mudanças climáticas. Lá, teve a oportunidade de conhecer Marina Silva. A conversa com a ministra do Meio Ambiente se deu na casa do embaixador brasileiro no Reino Unido, Antonio de Aguiar Patriota. “Eu pedi o apoio dela para termos mais crianças nos eventos climáticos”, diz Mavi. A coordenadora-geral do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), Maria Mônica Guedes de Moraes, apelidou Mavi de Greta Paraibana. “Ela é uma porta-voz de outras crianças que não têm as condições nem as mesmas oportunidades de estarem nesses lugares”, diz Moraes.
Ao lado de Greta Thunberg e Marina Silva, o panteão dos ídolos de Mavi guarda um lugar para o colombiano Francisco Vera Manzanares, ativista ambiental de 16 anos. Ao final da COP28, ele leu o “Manifesto por uma COP das Crianças em 2025”, com propostas para a educação climática. A brasileira diz que esse discurso “acendeu uma chama” em seu coração.
As expectativas para a “COP das crianças” em Belém estão altas. Embora adore conhecer outros países, Mavi se sente feliz por participar de um evento internacional no Brasil. “Não tem coisa melhor que a comida brasileira”, diz a menina, rindo. Ela tem esperança de que Greta Thunberg compareça à COP30. “Eu quero perguntar a ela quem foi sua inspiração para continuar no ativismo, mesmo com muitas críticas”, diz. A primeira COP de Greta foi em 2018, em Katowice, na Polônia, quando ela estava com 15 anos. Mavi está indo para a sua segunda COP antes dos 13.