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João Batista Jr. Set 2025 17h46
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Em 22 de agosto, o dia em que foi anunciada a saída de João Camargo da presidência da CNN Brasil, o vice-presidente de Jornalismo do canal, Virgilio Abranches, se reuniu com a redação para garantir que nenhuma mudança brusca estava prevista. Foi uma medida bem-vinda e cordial, que ajudou a aplacar o receio de demissões. Depois que assumiu o cargo em 2022, Camargo cortou mais de quinhentos postos de trabalho na CNN, que em março empregava 450 pessoas. Ele também ficou conhecido por ter colocado as finanças da emissora nos trilhos, criar uma série de eventos promovidos pela CNN e trazer novos anunciantes.
Algumas horas depois dessa reunião, entretanto, a equipe do canal percebeu que haveria, sim, mudanças – e soube que a saída de Camargo, acionista minoritário da CNN Brasil, ocorrera por causa de atritos entre ele e o empreiteiro Rubens Menin, dono da emissora. O primeiro sinal de que as coisas já não seriam como antes apareceu quando foi discutida a cobertura, dali a três dias, do próximo evento da empresa Esfera Brasil, da qual Camargo é fundador e presidente do conselho. A Esfera promove encontros entre empresários e personalidades do setor público e realizaria em 25 de agosto a terceira edição do Seminário Brasil Hoje. Poderosos palestrantes eram aguardados no Palácio Tangará, um hotel de luxo em São Paulo, como o ex-presidente e atual lobista Michel Temer e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
No tempo de Camargo, os encontros da Esfera eram tratados com especial atenção, dada a sua relação com a empresa. Em geral, eram escaladas duas equipes de jornalismo para cobrir cada evento, com o cuidado de captar imagens da logomarca da Esfera.
Dessa vez, contudo, discutiu-se na CNN se seria mesmo necessário mandar algum jornalista ao encontro. Foi decidido que sim, mas apenas porque se aproximava o julgamento de Jair Bolsonaro e lá estariam algumas figuras políticas que poderiam falar sobre o caso. Ficou definido, porém, que a cobertura focaria exclusivamente nessas pessoas – e que nem seria preciso mencionar a Esfera na reportagem.
Estava cortado o cordão umbilical que unia a CNN à Esfera.
Essa não foi a única mudança na emissora depois da saída de João Camargo, que é tido como uma das pessoas mais bem relacionadas com empresários e autoridades públicas. Nos dias seguintes, foram demitidos dois nomes contratados por ele: Cris Moreira, que desde março de 2024 era vice-presidente de Relações Estratégicas e Negócios, e Acácio Luiz Costa, que ocupava o posto de secretário executivo do conselho desde novembro de 2022.
Além disso, foram suspensas as recs, como eram chamadas as matérias recomendadas por patrocinadores e familiares do ex-presidente do canal.
Camargo e a CNN negam qualquer interferência editorial nas reportagens da emissora, mas é bastante conhecido o fato de que o grupo J&F, por exemplo, um dos principais patrocinadores da Esfera, era blindado de qualquer cobertura de conteúdo mais crítico no canal. O grupo chegou a patrocinar na CNN um programa chamado Cidades em movimento, apresentado por Carlos Tramontina.
O tratamento especial também era dado a Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, que financiou a realização do Seminário Esfera RJ, com palestras sobre o seu estado, e comparece com frequência nos jantares promovidos por Camargo.
Na confluência do público com o privado, Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, era convidado regular dos jantares de Camargo com empresários associados à Esfera. E recebia coberturas positivas, tanto mais que é um dos patrocinadores do CNN Talks, um evento de debates criado pelo próprio Camargo para aumentar o faturamento da emissora. Também o ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), genro de Camargo, era habitualmente contemplado com reportagens positivas. O arranjo familiar se estendeu a Camila Funaro Camargo Dantas, mulher de Dantas e filha de Camargo, que escrevia artigos no site da CNN.
As iniciativas de Camargo expandiam os benefícios até a apresentadores do canal, que eram convidados para apresentar eventos da Esfera no Brasil e no exterior. William Waack, por exemplo, ganhou 80 mil reais por sua participação no II Fórum Esfera Internacional, em Roma, em outubro de 2024.
Ninguém nega que Camargo fez uma revolução na CNN durante os três anos que esteve à frente do canal. Quando assumiu, em 2022, a emissora tinha um rombo de 100 milhões de reais. Além de cortar postos de trabalho, ele obteve um tremendo sucesso comercial com o CNN Talks, trazendo novos anunciantes, como o grupo Ambipar, que faz gestão ambiental, e a Motiva (antigo Grupo CCR), empresa que, entre outras atividades, administra estradas e aeroportos. Camargo lançou ainda o CNN Brasil Money, canal exclusivo para a cobertura do noticiário econômico. O custo operacional mensal da CNN Brasil é de 20 milhões de reais e desde o ano passado a empresa está no azul.
Até o início deste ano, tudo corria muito bem na relação de João Camargo com o mineiro Rubens Menin, o dono da CNN, que ergueu sua fortuna na construção civil e é dono da Rádio Itatiaia, uma das principais de Minas Gerais.
As coisas começaram a desandar quando Camargo e seu irmão Neneto Camargo compraram, em fevereiro, a rede de rádio Transamérica, presente em 370 cidades, por uma quantia estimada em 70 milhões de reais, segundo o Valor Econômico. A rádio dedica 60% de sua programação aos esportes e seria apenas mais um item no portfólio da família Camargo, que já tem ampla participação no mercado radiofônico do país (é dona das rádios Disney Brasil e Alpha FM, entre outras).
Camargo decidiu que a rede passaria a se chamar CNN /Transamérica e transmitiria parte da programação do canal de tevê. Uma logomarca foi criada e o plano era lançar o novo formato até setembro. Uma equipe de cerca de trinta pessoas se reunia semanalmente na CNN para dar andamento ao projeto. Camargo também ordenou que o canal seria responsável por todo o jornalismo da rádio.
Mas, na hora de contratar funcionários externos, foi preciso definir qual seria o CNPJ da empresa contratante – se a CNN ou a Transamérica. Menin foi finalmente consultado. Até então, ele não sabia que a rádio passaria a levar o nome da CNN. Também ignorava que reuniões para lançar a nova Transamérica aconteciam na sede do seu canal, onde toda uma equipe havia sido deslocada para cuidar do lançamento.
Menin recebeu essas notícias com surpresa – e sentiu-se preterido nas decisões que vinham sendo tomadas, muitas delas nem sequer aprovadas pelo conselho da CNN. Uma semana depois, Camargo anunciou a sua saída do canal. Pessoas próximas a ele disseram que, depois de sua saída, houve uma debandada de anunciantes da CNN. A emissora nega.
Oficialmente, o divórcio se deu porque os dois não chegaram a um acordo sobre a divisão de lucros da rádio CNN/Transamérica. Mas o mal-estar entre eles não é coisa recente. Camargo vinha se queixando havia tempos da lentidão de Menin para decidir sobre os rumos da CNN e fazer novos investimentos, como a criação de um escritório no Rio de Janeiro. Nos corredores do canal, comenta-se que Menin andava enciumado porque, no governo e no mercado, algumas pessoas se referiam à CNN como “o canal do João Camargo”.
Quatro dias depois do afastamento de Camargo, o canal emitiu o sinal mais forte de que estava entrando em nova fase, com novos amigos. Um sinal que tinha ares de provocação.
Nos tempos de Camargo na CNN, as notícias sobre o principal concorrente da Esfera, o Lide, de propriedade do ex-governador João Doria, eram sempre vetadas. Em 27 de agosto passado, quando a Esfera fazia seu evento em São Paulo, o site da CNN optou por ignorar a empresa de Camargo e dar destaque a uma fala do ministro Gilmar Mendes, do STF, no Seminário Econômico Lide, em Brasília. Por coincidência ou não, Doria decidiu realizar seu encontro no mesmo dia que Camargo fazia o dele. Foi Menin quem derrubou o veto a Doria. (Inspirado no que tanto o Lide quanto a Esfera fazem em nível nacional, Menin criou o Itatiaia Eloos, empresa de eventos para conectar políticos e empresários de Minas Gerais.)
O dono da CNN não demorou a encontrar o novo inquilino da sala antes ocupada por Camargo. Desde meados de setembro, o presidente da CNN Brasil é o mineiro João Vítor Xavier, apresentador esportivo e vice-presidente da holding Itasat, que controla a Rádio Itatiaia. Ele é também deputado estadual pelo Cidadania, mas licenciou-se do cargo depois do convite irrecusável.