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Felippe Aníbal Set 2025 17h49
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A noite do último 13 de junho foi de Lua cheia na Califórnia. Em torno de uma fogueira acesa em uma pira de tijolos, sister Kate conduziu uma cerimônia simples. Com os cabelos cobertos por um véu branco, a mulher de 66 anos leu uma oração que falava sobre medo, fé, esperança e amor. Ao lado dela, estava a brasileira Francinne Mendes Weffort, que pela primeira vez participava de um rito das Sisters of the Valley (Irmãs do Vale), irmandade leiga – sem qualquer vínculo com as igrejas tradicionais – que se dedica à produção de medicamentos à base de maconha, a partir de uma abordagem espiritual e matriarcal.
“Para mim, foi uma noite especial porque usei o véu da irmandade pela primeira vez. Aproveitei o momento para agradecer também toda andança até aqui”, conta Weffort à piauí, por videoconferência. Nascida em Curitiba há 37 anos, ela é uma profissional de marketing que conciliou sua carreira com o ativismo em defesa de bandeiras como o feminismo e a liberação da maconha. Em agosto de 2024, quando fazia pesquisas sobre Cannabis, Weffort descobriu as Sisters of the Valley. Encantada com o projeto, escreveu um e-mail para a irmandade, dizendo-se interessada em participar do grupo. A conversa evoluiu a ponto de as Sisters desenvolverem um programa de voluntariado, que não dispunham ainda.
Em 25 de dezembro de 2024, o segundo casamento de Weffort chegou ao fim. Em meio à frustração afetiva, ao desencanto com o trabalho e depois de um desentendimento familiar, ela decidiu que se juntaria às Sisters of the Valley. Mas só em 31 de maio deste ano chegou à fazenda de 1 acre (cerca de 4 mil m²), localizada no município de Merced, em uma região rural do Central Valley da Califórnia. Foi recebida por sister Kate.
Na fazenda, as freiras cultivam Cannabis orgânica e mantêm um laboratório onde produzem óleos, pomadas, incensos e até tinturas à base de canabidiol (CBD). Tudo é fabricado levando em conta os ciclos lunares: os produtos são preparados na Lua nova e envasados sob a Lua cheia. Depois, são vendidos pela internet a países que permitem a comercialização de CBD, como o Canadá. “O que a sister Kate faz aqui é único, em um lugar sagrado para a história da Cannabis. Se eu falar sobre isso no Brasil, sou revolucionária. Mas essa mulher está fazendo esse trabalho aqui há dez anos”, diz Weffort, apontando no vídeo para sister Kate, cujo nome civil é Christine Marie Katherine Meeusen.
A primeira vez que Meeusen fumou maconha foi na adolescência, durante uma viagem do colégio, no estado de Wisconsin. Décadas depois, quando morava em Amsterdã, Meeusen procurou um médico para resolver alguns sintomas da menopausa. Ele perguntou se ela costumava consumir maconha. Quando ouviu a resposta positiva, o médico recomendou: “Pois deveria fumar mais.” Foi a primeira vez que ela pensou na Cannabis pela perspectiva medicinal.
Meeusen foi consultora empresarial na área de telecomunicações e de marketing, e atuou principalmente na Europa. Ela conta que, depois de enfrentar um conturbado processo de divórcio, decidiu voltar aos Estados Unidos e mudar radicalmente de vida. No outono de 2009, fundou uma cooperativa com o objetivo de fornecer medicamentos à base de CBD a pacientes terminais. Três anos mais tarde, criou a Sisters of the Valley – e adotou para si mesma o nome de sister Kate.
A inspiração para a irmandade veio das beguinas, mulheres cristãs leigas que no fim da Idade Média se organizavam na Europa em comunidades religiosas, ascéticas e caritativas, não subordinadas à Igreja Católica. Para sister Kate, as beguinas foram praticamente suprimidas da história oficial da igreja. Seus trajes foram apropriados, dando origem ao hábito e ao véu usados pelas freiras.
A irmandade californiana conta com vinte membras: dezessete freiras e três noviças, entre as quais, Weffort. Cinco delas vivem na fazenda, sendo que quatro cuidam do cultivo da maconha e da produção dos derivados. As demais atividades, da limpeza das casas à administração da fazenda, são divididas entre todas elas. O clima costuma ser leve no local. Enquanto participava da entrevista à piauí, sister Kate não hesitou em preparar um cigarro de maconha e dividi-lo com Weffort.
Francinne Weffort consumiu maconha pela primeira vez aos 16 anos. Com o passar do tempo, foi desenvolvendo seu ativismo. Portadora de fibromialgia – síndrome crônica que provoca dores musculares intensas –, ela passou a se interessar mais profundamente pelo uso medicinal da Cannabis há oito anos, depois que uma médica lhe prescreveu uma medicação que teria que tomar continuamente. “Eu falei: ‘Não quero!’ O remédio deixa meu corpo hipervigilante”, conta. “A maconha, não. Em segundos, ela entra no meu corpo, e eu fico relaxada.”
Em pouco tempo, Weffort se tornou uma pessoa estratégica para a irmandade. Prospecções feitas pelas Sisters of the Valley apontam que o Brasil tem potencial para se tornar o segundo maior consumidor dos produtos fabricados por elas. As freiras não descartam produzir os derivados no país, em parceria. Esse modelo já vem sendo desenvolvido por uma freira da irmandade que se estabeleceu na Nova Zelândia. Em agosto, Weffort acompanhou as sisters em um evento no Brasil. Elas ministraram um curso de produção de óleo de Cannabis, em Campinas.
Segundo as regras da irmandade, a brasileira só poderá fazer seus votos daqui a dois anos, o que implicará em adotar uma vida de simplicidade, obediência, humildade, ativismo, ecologia e castidade (mas o casamento é permitido). “Eu estou pronta para fazer meus votos e ter a chance de começar uma história num lugar matriarcal e único”, diz Weffort, ajeitando o véu que lhe ocultava os cabelos loiros platinados e a franja curtíssima.