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MOVIMENTOS DISSIDENTES

Um festival dedicado à arte de pessoas com deficiência
Imagem Movimentos dissidentes

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Num palco escuro, vestindo uma roupa de mergulho rajada em tons de azul, o ator Victor Di Marco fala ao público sobre as muitas vezes em que parentes, professores e médicos o sufocavam com uma recomendação: “Tome cuidado.” Depois do desabafo, ele despeja uma garrafa de água na própria cabeça. Liberto da eterna cautela que o restringia, ele começa a fazer movimentos rítmicos com as mãos, como se imitasse o voo de uma gaivota. No meio do movimento, sua mão é tomada por espasmos que, numa espécie de coreografia, criam sombras na iluminação azulada e agitam a fumaça que encobre o palco.

Na primeira fila, pessoas cegas e com baixa visão escutam as descrições das cenas num aplicativo de celular. À esquerda do palco, uma intérprete de Libras traduz as falas de Di Marco para os espectadores surdos.

Azul marítimo, solo do ator, dramaturgo e cineasta gaúcho de 29 anos, abriu o segundo dia da quinta edição do Festival Acessa BH, um dos principais eventos culturais do país acessível a espectadores com deficiência. Realizado em Belo Horizonte entre 5 e 28 de setembro, o festival não se limitou a oferecer recursos para que todos pudessem acompanhar o que acontece em cena. Muitas peças, filmes e shows do Acessa foram realizados por artistas com deficiência – como Di Marco, portador de distonia generalizada, distúrbio neurológico que provoca movimentos involuntários. Assim, o evento busca consolidar uma sensibilidade criativa específica que até já ganhou um nome: cultura DEF (de pessoas com deficiência).

Em um bate-papo com o público depois da apresentação de Azul marítimo, a cearense Jéssica Teixeira, diretora do monólogo, observou que o desafio da cultura DEF é fugir do “cercadinho da inclusão” que parte dos gestores culturais imagina ser o lugar de pessoas com deficiência. “O que se espera hoje em dia no teatro no Brasil são pessoas falando delas mesmas. É uma cilada, isso”, afirmou. Di Marco colocou suas particularidades físicas em cena, mas fez isso de uma forma que confronta lugares-comuns. O ponto de partida de sua peça é uma comparação dos movimentos irregulares do mar com os de seu corpo. “Eu queria falar sobre gozo, delírio, desejo e sonho. Assim, posso ficcionalizar a partir dessa coisa que já é dada, concreta”, disse o ator ao público.

No Festival de Gramado deste ano, Victor Di Marco e Márcio Picoli, seu marido e parceiro criativo, ganharam o Prêmio Iecine Inovação, por seu “compromisso com a arte, a inclusão e a valorização do cinema como ferramenta de transformação social”. Seus trabalhos incluem os curtas O que pode um corpo? (2020), Possa poder (2022) e Zagêro (2024) – o último foi exibido no Acessa. A dupla de diretores vai realizar agora o primeiro longa-metragem, Nós a sós, sobre um dançarino com deficiência. No Instagram, rede em que tem cerca de 50 mil seguidores, Di Marco afirmou que seu tema são os “corpos e narrativas dissidentes”.

Primeira experiência do ator no palco, Azul marítimo nasceu de sua insatisfação com o modo como se estuda teatro. Na conversa com espectadores em Belo Horizonte, Di Marco lembrou que sua formação dramática incluiu toda uma “enciclopédia de técnicas” que nem sempre se ajustavam ao seu corpo. Em 2022, ele conversou sobre esse incômodo com Jéssica Teixeira e a convidou a dirigir o que viria a ser o solo Azul marítimo. Ela aceitou com uma condição: “A palavra ‘controle’ está proibida no nosso processo.”

Teixeira, de 32 anos, também faz parte da cultura DEF: ela tem fusão de arcos costais, condição congênita que gera escoliose acentuada e lordose na região do tórax. No Acessa, ela apresentou Monga, monólogo que criou, dirigiu e no qual faz a personagem solo. A peça é inspirada na vida de Julia Pastrana, uma mexicana que tinha pelos em todo o corpo e foi exibida como “mulher macaca” na Europa do século XIX. Em março, Monga ganhou o Prêmio Shell de Teatro, na categoria de Melhor Direção.

A colaboração entre Di Marco e Teixeira envolveu um caudaloso processo criativo, que durou três anos. O estudo dos movimentos do ator estava no centro do trabalho. A intenção, explica a diretora, era mapear esses movimentos para “fazer disso linguagem, texto, dança; fazer disso teatro”. Explorar as potencialidades dos corpos com deficiência está no norte da cultura DEF celebrada pelo Acessa.

O multi-instrumentista Hermeto Pascoal iria se apresentar no Festival Acessa no dia 13 de setembro. Ele tinha baixa visão, mas não considerava isso um problema. “Eu vejo normalmente. Para mim, é normal”, declarou em Janela da alma, documentário de 2001 dirigido por João Jardim e Walter Carvalho. “Vejo coisas maravilhosas que ninguém está vendo. E está todo mundo achando que eu não estou vendo, enxergando menos do que eu.”

A participação desse gênio musical foi cancelada, por problemas de saúde, mas sua banda, a Nave Mãe, tocou em Belo Horizonte, acompanhada do saxofonista Nivaldo Ornelas. Ao final do show, o percussionista Fábio Pascoal, filho de Hermeto, deu ao público a notícia de que seu pai acabara de morrer, aos 89 anos.

Como Hermeto, Di Marco deseja abordar não só as dores, mas as coisas maravilhosas que muitos talvez achem que ele não experimenta. “Azul marítimo fala sobre a vontade de viver, em primeiro lugar”, disse ao público do festival. “Ao tentar sair de mim e chegar no outro, a gente mais abre possibilidades, significados e interpretações do que fecha.” Na peça, esse princípio está representado no momento em que, deitado de bruços, o ator parece nadar em direção à plateia, enquanto o sistema de som mergulha o teatro no rumor do mar.


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É jornalista e doutor em Comunicação pela UnB